A literatura brasileira contemporânea frequentemente se debruça sobre questões sociais, políticas e históricas, mas nem sempre encontra formas narrativas que escapem do óbvio. Em Empate, publicado em 2015, Vinícius Neves Mariano propõe uma abordagem incomum ao articular um dos episódios mais marcantes da história do país, a final da Copa do Mundo de 1950, a partir de um ponto de vista deslocado, fragmentado e profundamente subjetivo.
Trata-se de um romance curto em extensão, mas denso em significado. Ao evitar a reconstituição direta do evento histórico, o autor constrói uma narrativa centrada na experiência individual, explorando temas como memória, trauma, identidade e percepção. O resultado é um livro que não se limita ao futebol ou ao contexto esportivo, mas utiliza esse cenário como elemento de mediação para discussões mais amplas.
A estrutura narrativa de Empate parte de uma situação simples: durante a final entre Brasil e Uruguai no Estádio do Maracanã, dois homens caem no fosso que separa a arquibancada do campo. Impedidos de assistir à partida, eles passam a acompanhar o jogo apenas por meio dos sons da torcida.
Esse recurso narrativo estabelece desde o início uma ruptura com expectativas tradicionais. Em vez de apresentar o evento histórico de forma direta, o romance opta por uma mediação sensorial. O jogo não é visto, mas ouvido, interpretado e reconstruído.
Essa escolha não é apenas formal. Ela define o modo como o leitor se relaciona com a narrativa. A ausência de uma visão objetiva do jogo desloca o foco para a percepção dos personagens, criando uma experiência marcada pela incerteza e pela interpretação.
Os dois homens que protagonizam a narrativa são construídos a partir de contrastes. Um deles carrega as marcas da Segunda Guerra Mundial, com traumas que influenciam diretamente sua forma de enxergar o mundo. O outro apresenta uma visão mais imediata e cotidiana, menos marcada por grandes eventos históricos.
Essa oposição funciona como eixo da narrativa. Ao longo do livro, o diálogo entre os dois personagens revela não apenas diferenças de experiência, mas também de interpretação da realidade.
O personagem ligado à guerra introduz uma dimensão mais ampla, conectando o evento brasileiro a um contexto global de violência e conflito. Sua presença amplia o alcance temático do romance, evitando que ele se restrinja ao cenário nacional.
Já o outro personagem atua como contraponto, oferecendo uma perspectiva mais próxima do cotidiano, o que contribui para equilibrar a narrativa.
O fosso em que os personagens ficam presos desempenha um papel central na construção do romance. Mais do que um elemento físico, ele funciona como espaço simbólico.
Isolados do restante da multidão, mas ainda inseridos no ambiente do estádio, os personagens ocupam uma posição intermediária. Eles não participam plenamente do evento, mas também não estão completamente afastados dele.
Esse posicionamento reforça a ideia de liminaridade, de estar entre dois estados. O fosso se torna, assim, um espaço de suspensão, onde o tempo parece se reorganizar e a narrativa se volta para o interior dos personagens.
Um dos aspectos mais interessantes do livro é o uso do som como principal meio de acesso ao evento. Gritos, aplausos, silêncios e mudanças de intensidade da torcida são interpretados pelos personagens como sinais do que acontece em campo.
Essa mediação sonora transforma o jogo em algo fragmentado. Não há continuidade, apenas momentos isolados que precisam ser organizados mentalmente.
Esse processo aproxima o leitor da experiência dos personagens, que dependem da própria interpretação para construir uma narrativa coerente. Ao mesmo tempo, evidencia o caráter subjetivo dessa reconstrução.
Embora esteja ancorado em um evento histórico específico, Empate não se propõe a reconstituir a final de 1950 de maneira factual. O romance utiliza esse episódio como ponto de partida para explorar a relação entre história e subjetividade.
A derrota brasileira, conhecida como “Maracanazo”, é frequentemente tratada como um marco coletivo. No entanto, o livro desloca essa perspectiva ao focar na experiência individual dos personagens.
Esse deslocamento permite questionar a ideia de uma memória coletiva homogênea. Em vez disso, o romance sugere que cada indivíduo constrói sua própria versão dos acontecimentos, influenciada por suas experiências e emoções.
O trauma é um elemento central na narrativa, especialmente no personagem que viveu a Segunda Guerra Mundial. Suas memórias interferem diretamente na forma como ele interpreta o jogo e o ambiente ao seu redor.
Esse aspecto cria uma sobreposição de temporalidades. O passado não está separado do presente, mas se manifesta continuamente, influenciando percepções e reações.
A relação entre trauma individual e evento coletivo amplia o alcance do romance, estabelecendo conexões entre diferentes contextos históricos.
A escrita de Vinícius Neves Mariano se caracteriza pela simplicidade e pela precisão. O autor evita excessos estilísticos, optando por uma linguagem direta, que privilegia a construção de imagens e a progressão gradual da narrativa.
O ritmo é deliberadamente lento, acompanhando o tempo da experiência dos personagens. Essa escolha pode exigir maior atenção por parte do leitor, mas contribui para a densidade do texto.
Não há pressa em conduzir a narrativa. Os acontecimentos se desenvolvem de forma contida, permitindo que o foco permaneça na percepção e na reflexão.
Ao limitar o acesso às informações sobre o jogo, o romance convida o leitor a participar ativamente da construção da narrativa. Assim como os personagens, o leitor precisa interpretar sinais e preencher lacunas.
Esse recurso cria uma experiência de leitura mais envolvente, ainda que menos confortável. A ausência de respostas claras pode gerar estranhamento, mas também estimula uma leitura mais atenta.
Embora não seja o tema central, o futebol desempenha um papel importante na construção simbólica do romance. A final de 1950 é frequentemente associada a uma crise de identidade nacional, e o livro dialoga com esse imaginário.
No entanto, em vez de reafirmar essa narrativa, Empate a problematiza. Ao deslocar o foco para personagens específicos, o romance sugere que o impacto do evento não é uniforme.
Essa abordagem evita generalizações e reforça a complexidade da relação entre esporte e identidade.
Como obra de estreia, Empate apresenta algumas características típicas de um primeiro livro. Há momentos em que a narrativa parece buscar seu próprio ritmo, e certas transições poderiam ser mais desenvolvidas.
Ainda assim, o romance demonstra uma proposta consistente e uma preocupação clara com a forma e o conteúdo. O autor evidencia domínio dos elementos narrativos e disposição para explorar caminhos menos convencionais.
Embora não tenha recebido prêmios ou indicações relevantes, Empate foi bem recebido pela crítica, especialmente por sua proposta narrativa e pela abordagem temática.
A obra contribuiu para a consolidação de Vinícius Neves Mariano no cenário literário brasileiro, abrindo caminho para trabalhos posteriores mais reconhecidos, como Velhos Demais para Morrer, que viria a conquistar premiações importantes.
Esse percurso reforça a importância de Empate como ponto de partida na trajetória do autor.
Empate é um romance que se destaca pela proposta narrativa e pela forma como articula história, memória e percepção. Ao evitar abordagens diretas e optar por uma estrutura mediada, o livro constrói uma experiência de leitura baseada na interpretação e na subjetividade.
Trata-se de uma obra que exige atenção e disposição por parte do leitor, mas que oferece, em contrapartida, uma reflexão consistente sobre a forma como os acontecimentos são vividos e lembrados.
Sem recorrer a soluções fáceis ou explicações excessivas, o romance se mantém fiel à sua proposta, explorando os limites entre o que é visto, ouvido e imaginado.
Assista ao video de Vinicius Neves Mariano falando sobre o livro:
Fontes e referências:
Estado de Minas, Skoob, Touchelivros, Topleituras, Vinicius Neves Mariano
Ficha técnica do livro:
Nome: Empate | Brasil | 2015
Autor: Vinícius Neves Mariano
Editora: Simonsen
Gênero: Romance histórico / ficção literária
Nº páginas: 114
Sobre o autor:
Vinícius Neves Mariano nasceu em Alfenas, Minas Gerais. Escritor, roteirista e produtor audiovisual, dedica-se à ficção com forte dimensão social.
Seu romance Empate, publicado em 2015, marcou sua estreia na literatura e chamou atenção pela abordagem sensível da memória, do trauma e da identidade coletiva. Embora não tenha recebido prêmios ou indicações relevantes, a obra foi bem recebida pela crítica e ajudou a consolidar o autor no cenário literário contemporâneo.
Em sua escrita, Mariano investiga conflitos humanos a partir de eventos históricos e experiências individuais, construindo narrativas que dialogam com questões sociais e emocionais de forma introspectiva e provocadora.