Há romances que projetam o futuro como espetáculo. Outros o utilizam como lente. Em Velhos Demais Para Morrer, de Vinícius Neves Mariano, o ano de 2086 não é um exercício de imaginação tecnológica, mas um prolongamento inquietante de tendências já visíveis no presente. A população idosa ultrapassa metade do país, a economia entra em crise e o Estado decide que a solução mais eficaz não é reorganizar estruturas, mas reduzir o número de corpos considerados improdutivos.
Ao completar 65 anos, o cidadão pode aderir à chamada “morte feliz”, um procedimento institucionalizado, amparado por incentivos financeiros à família e envolto em linguagem cuidadosamente humanizada. A alternativa é desaparecer do sistema e sobreviver à margem. O envelhecimento deixa de ser fase natural da vida para se tornar problema administrativo.
A inquietação que o romance provoca não pertence apenas ao cenário projetado para 2086. Ela ecoa no presente, nas pequenas escolhas sociais que já fazemos, nas prioridades que estabelecemos e no modo como medimos o valor das pessoas.
A sociedade imaginada por Mariano é organizada em torno da ideia de desempenho constante. Juventude é sinônimo de energia, agilidade e adaptabilidade. A comunicação oficial reforça esses valores por meio de campanhas que associam vitalidade à responsabilidade social.
Nesse contexto, qualquer redução de ritmo passa a ser interpretada como falha. O que poderia ser entendido como maturidade ou experiência é tratado como incapacidade, como se o tempo acumulado representasse um desvio indesejado.
O livro constrói essa atmosfera sem recorrer a exageros caricatos. Não há vilões operísticos nem discursos inflamados. O que existe é uma lógica que se apresenta como racional. A exclusão aparece diluída em argumentos técnicos, relatórios e estatísticas.
E justamente por isso se torna mais difícil de contestar.
Em Velhos Demais Para Morrer, ninguém acorda disposto a mudar o mundo. Não há vocação épica, não há destino anunciado. O que existe são pessoas comuns empurradas para decisões que ultrapassam a zona de conforto.
Daren é o retrato da adaptação bem-sucedida. Trabalha com publicidade, domina o discurso da juventude eterna e participa, sem perceber de imediato, da engrenagem que legitima a exclusão dos mais velhos. Ele não se enxerga como cúmplice de violência; considera-se apenas profissional eficiente. Sua trajetória ganha força justamente porque a transformação não acontece por meio de uma revelação dramática, mas pelo acúmulo de pequenas fissuras na certeza que sustentava sua rotina. O desconforto começa discreto, quase racional, e aos poucos altera sua forma de enxergar o próprio papel dentro do sistema.
Piedade ocupa posição oposta dentro da estrutura social. Idosa e grávida, ela concentra em si aquilo que o Estado prefere separar: memória e continuidade. Seu corpo, que deveria ser estatística descartável, abriga futuro. O romance evita transformá-la em símbolo idealizado; sua resistência é atravessada por medo, desgaste e insegurança. Ainda assim, ao insistir na própria permanência, Piedade tensiona a lógica que tenta reduzir vidas a números. Sua existência questiona, de maneira concreta, a ideia de que o valor de alguém pode ser medido apenas pela produtividade.
Perdigueiro, por sua vez, representa a geração formada dentro do discurso oficial. Integrante de uma milícia encarregada de capturar idosos que rejeitam a “morte feliz”, ele cresceu ouvindo que sua missão é necessária para garantir estabilidade social. O preconceito que carrega não nasceu com ele; foi aprendido, reforçado e naturalizado. O que torna seu percurso relevante é o momento em que essa convicção começa a perder estabilidade. O contato direto com aqueles que deveria tratar como ameaça introduz dúvida onde antes havia obediência. O conflito que emerge não é apenas ideológico, mas emocional, revelando o peso de uma herança simbólica difícil de abandonar.
Os três percorrem trajetórias distintas, mas compartilham algo essencial: nenhum deles se vê como protagonista de uma revolução. A mudança surge quando se tornam incapazes de ignorar as consequências das escolhas que fazem ou aceitam. Em um ambiente onde a própria existência é condicionada por critérios econômicos, reposicionar-se já constitui ruptura.
O romance sugere que heroísmo, quando existe, raramente se apresenta em forma grandiosa. Ele aparece na recusa silenciosa de repetir o que sempre foi feito, na disposição de rever certezas e no risco de assumir responsabilidades pessoais. Em vez de figuras extraordinárias, Mariano constrói personagens reconhecíveis, cujas decisões ganham densidade justamente por serem humanas, falíveis e progressivas.
Ao reuni-los sob esse mesmo eixo, o livro evidencia que a transformação social não começa com discursos amplos, mas com deslocamentos internos. E é nesse território íntimo que Velhos Demais Para Morrer encontra parte significativa de sua força narrativa.
A estrutura narrativa permite identificar elementos da chamada jornada do herói, mas em escala contida. O chamado à mudança surge como desconforto moral. As provas se manifestam em escolhas difíceis. A transformação não resulta em reconhecimento público, mas em reposicionamento interno.
Em um ambiente onde o direito de existir é condicionado à utilidade econômica, insistir na própria permanência adquire dimensão política. A sobrevivência deixa de ser apenas instinto e passa a desafiar um sistema que prefere soluções rápidas a dilemas complexos.
Essa dimensão torna o romance menos interessado em grandes confrontos e mais atento a movimentos íntimos. A tensão nasce do embate entre consciência individual e estrutura social.
Em Velhos Demais Para Morrer, a violência não aparece apenas nas ações do Estado, mas nas palavras que o Estado escolhe usar. O governo não fala em abandono ou eliminação. Fala em cuidado, eficiência e dignidade. Não diz que está descartando pessoas. Diz que está equilibrando contas.
Essa troca de palavras não é detalhe. É estratégia. Quando a linguagem suaviza a realidade, o desconforto diminui. O que deveria soar cruel passa a parecer necessário. Aos poucos, a ideia de que algumas vidas “custam demais” deixa de chocar e começa a parecer prática.
O romance mostra como a forma de falar molda a forma de pensar. Ao mudar os termos, muda-se também o limite do que parece aceitável. Essa discussão aproxima o livro de obras clássicas que exploram o poder da linguagem sobre a sociedade, como 1984, de George Orwell, em que o controle das palavras altera o modo como as pessoas enxergam a própria realidade.
Há também diálogo com distopias que apresentam sociedades organizadas em torno da produtividade e da estabilidade coletiva, como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Nessas narrativas, o bem-estar geral serve como justificativa para limitar escolhas individuais. No romance de Mariano, essa lógica ganha um tom próximo do cotidiano: não se trata de um mundo distante e futurista, mas de um cenário que amplia tendências já visíveis hoje.
O ponto central deixa de ser apenas quem deve viver ou morrer. A questão passa a ser quem decide o valor de uma vida. Quando esse valor é medido apenas pela capacidade de produzir ou gerar retorno financeiro, algo essencial se perde.
O livro não oferece respostas simples nem vilões caricatos. Mostra como decisões extremas podem nascer de discursos moderados e aparentemente sensatos. A linguagem administrativa, que soa neutra, funciona como peça fundamental nesse processo.
Ao unir reflexão ética e atenção às palavras, Velhos Demais Para Morrer ultrapassa o rótulo de distopia. Em vez de apenas imaginar um futuro inquietante, a obra convida o leitor a observar com cuidado os termos que já usamos no presente — e a pensar sobre o que eles escondem.
O romance foi finalista do Prêmio Jabuti em 2021 e vencedor do Prêmio Malê de Literatura na categoria romance. Esses reconhecimentos reforçam sua inserção no debate literário contemporâneo.
Mais do que prêmios, porém, o livro se sustenta pela capacidade de provocar reflexão duradoura. Ele amplia uma discussão que já atravessa a sociedade brasileira: o envelhecimento populacional e o modo como políticas públicas, mercado e cultura lidam com ele.
Ao concluir a leitura, o romance deixa uma sensação de incômodo que não se dissipa facilmente. A projeção de 2086 funciona como ampliação de tendências presentes, obrigando o leitor a reconsiderar atitudes aparentemente banais.
O envelhecimento acompanha qualquer trajetória humana. A exclusão, por sua vez, decorre de decisões coletivas. Ao expor essa diferença, Mariano convida à reflexão sobre quais critérios estamos dispostos a aceitar como base para definir dignidade.
Velhos Demais Para Morrer constrói sua força não por meio de frases de efeito, mas pela consistência de sua lógica interna. Ao acompanhar personagens que enfrentam escolhas difíceis dentro de um sistema rígido, o romance evidencia que sociedades não se transformam apenas por decretos, mas também por pequenas rupturas individuais.
É nesse espaço entre norma e consciência que a obra encontra sua densidade.
Velhos demais para morrer
Vinícius Neves Mariano
Ed Malê
280 pgs
Vinícius Neves Mariano nasceu em Alfenas, Minas Gerais. Escritor, roteirista e produtor audiovisual, dedica-se à ficção com forte dimensão social.
Seu romance Velhos Demais Para Morrer recebeu o Prêmio Malê de Literatura na categoria romance e foi finalista do Prêmio Jabuti em 2021. Em sua obra, investiga temas como envelhecimento, poder e valor humano, articulando narrativas que dialogam com questões contemporâneas.