Novo capítulo da franquia Evil Dead, A Morte do Demônio: Em Chamas desloca o terror sobrenatural para uma família reunida depois de uma morte traumática. Dirigido por Sébastien Vaniček e escrito por Vaniček e Florent Bernard, o filme acompanha Alice, uma viúva que procura algum tipo de acolhimento na casa dos sogros, mas encontra um ambiente dominado pela hostilidade e pela culpa. No Brasil, o longa chegou aos cinemas em 9 de julho de 2026, com classificação indicativa para maiores de 18 anos.
Embora mantenha os elementos tradicionais da série — o Necronomicon, os Deadites, o isolamento e a violência gráfica —, o filme tenta fazer com que cada agressão revele uma fratura emocional. O demônio não invade uma família saudável: ele se alimenta de uma estrutura que já estava apodrecendo.
Alice é apresentada como uma personagem em estado de suspensão. Ela perdeu o marido, William, mas a morte dele não produz apenas saudade. O relacionamento era marcado por abuso verbal e físico, o que torna seu luto contraditório: Alice sofre por alguém que também a machucou.
Essa ambiguidade impede que a protagonista seja reduzida à figura convencional da viúva traumatizada. Ela não está simplesmente tentando “superar” uma perda. Antes disso, precisa compreender o que exatamente perdeu: o marido, a possibilidade de uma vida diferente ou a esperança de que a violência algum dia terminasse.
A família de William não reconhece essa complexidade. Para os sogros, Alice é uma presença incômoda, quase uma intrusa que deve carregar a responsabilidade pelo acidente. O filme cria, assim, uma segunda camada de aprisionamento. Alice não está presa apenas em uma casa isolada; está presa à versão da história que a família decidiu preservar.
As lembranças do casamento funcionam como assombrações antes mesmo da aparição dos Deadites. Os flashbacks não servem apenas para explicar o passado, mas para mostrar como a violência continua ocupando o corpo e a memória da personagem. O sobrenatural apenas torna visível aquilo que já existia de maneira silenciosa.
A família Price é o verdadeiro “monstro” inicial do filme. Seus integrantes compartilham a mesma casa, mas não formam uma comunidade afetiva. A reunião após a morte de William apenas concentra ressentimentos antigos: acusações, omissões e feridas que nunca foram tratadas.
Susan, a mãe de William, representa a defesa incondicional da família. Sua hostilidade em relação a Alice nasce da recusa em aceitar que o filho pudesse ser abusivo. Ao proteger a imagem de William, Susan também protege a própria identidade como mãe. Admitir a verdade significaria reconhecer que falhou em perceber — ou em aceitar — o comportamento dele.
Edgar, por sua vez, expressa uma forma mais silenciosa de autoridade. Ele se coloca como guardião da ordem familiar, mas sua presença revela que aquela ordem depende da intimidação. Já Joseph ocupa uma posição intermediária: conhece partes da história, investiga os segredos do avô Benjamin e tenta encontrar uma saída racional para uma crise que rapidamente escapa ao controle.
A avó Polly introduz uma dimensão particularmente perturbadora. Sua vulnerabilidade física e sua confusão de memória fazem com que os demais personagens a subestimem. Quando o mal passa a agir por meio dela, o filme explora o medo de que a fragilidade possa esconder uma ameaça. Ao mesmo tempo, Polly simboliza uma geração que ajudou a conservar os segredos familiares, mesmo sem compreender totalmente suas consequências.
O jantar é uma das sequências mais importantes justamente porque transforma a mesa em palco de agressão. A refeição, tradicionalmente associada à união doméstica, torna-se um ritual de humilhação e exposição. Antes que os corpos sejam mutilados, os personagens já estão destruindo uns aos outros por meio da palavra.
O título original, Evil Dead Burn, sugere uma dimensão de combustão, mas o fog+o do filme não é apenas visual. Ele representa a transformação de vínculos afetivos em relações de posse. William não aceita perder Alice nem mesmo depois da morte. A frase implícita em sua perseguição é aterradora: se ela não pode pertencer a ele em vida, continuará pertencendo a ele na morte.
A ideia de que os votos matrimoniais sobrevivem ao fim da vida é reinterpretada de maneira sombria. O casamento deixa de ser um compromisso voluntário e passa a parecer uma sentença. A promessa “até que a morte nos separe” é invertida: a morte não encerra o vínculo, mas o torna ainda mais violento.
Essa leitura dá ao clímax uma força simbólica particular. Alice não luta apenas contra um cadáver possuído. Ela luta contra a permanência de uma relação abusiva dentro de sua própria consciência. William transformado em Deadite é a forma literal de um trauma que insiste em retornar, invadir espaços e negar à vítima o direito de reconstruir a própria vida.
Por isso, a resistência de Alice não equivale somente à sobrevivência física. O filme a conduz a uma ruptura emocional. Ela precisa rejeitar a ideia de que o amor, a culpa ou os votos podem obrigá-la a permanecer ligada a alguém que a destruiu.
A serra circular, a britadeira e o fogo usados no confronto final têm valor quase ritualístico. São instrumentos de trabalho e destruição que Alice converte em armas. Ao utilizá-los, ela deixa de ser apenas o objeto da violência e passa a controlar a energia brutal que a cercava.
Em muitos filmes da franquia, o Necronomicon aparece como um objeto amaldiçoado que desencadeia o caos. Em Em Chamas, ele também funciona como um arquivo de heranças familiares. A pesquisa de Benjamin conecta o presente da família a uma história anterior, sugerindo que os Price vivem sobre camadas de conhecimento escondido e responsabilidade negada.
Joseph é o personagem mais diretamente ligado a essa investigação. Sua busca pela Adaga Kandariana oferece ao filme uma estrutura narrativa mais tradicional: há um artefato capaz de destruir os Deadites e uma missão para encontrá-lo. Entretanto, o valor dramático da adaga não está apenas em seu poder sobrenatural.
A arma representa a possibilidade de interromper a repetição. Enquanto o Necronomicon conserva e transmite o mal, a adaga pode cortar esse fluxo. Ela é, simbolicamente, uma ferramenta de decisão: alguém precisa escolher enfrentar a herança em vez de continuar protegendo-a.
O problema é que a família não possui maturidade emocional para lidar com a verdade. Cada descoberta produz mais medo, mas também revela como o segredo foi utilizado para manter posições de autoridade. Benjamin pesquisou os Deadites; os descendentes herdam as consequências. O horror passa, portanto, de uma geração para outra, como uma dívida que ninguém deseja reconhecer.
Essa dimensão amplia a franquia sem abandonar sua lógica básica. O demônio continua sendo uma entidade externa, mas o filme sugere que ele encontra terreno fértil em estruturas humanas: negação, violência doméstica, culto à família e medo de expor a verdade.
A violência gráfica de A Morte do Demônio: Em Chamas não é apenas uma coleção de efeitos sangrentos. O corpo dos personagens se torna o lugar onde os conflitos emocionais finalmente explodem. A possessão transforma ressentimentos em ações físicas, levando para a superfície aquilo que antes era dito em olhares, acusações e silêncios.
A direção de Vaniček aposta em movimentos bruscos de câmera, planos fechados e mudanças violentas de escala. Segundo a crítica do Omelete, o filme intensifica o aspecto acrobático e virulento da franquia, utilizando poucos ambientes e uma montagem fragmentada para manter a sensação de desorientação.
Essa escolha formal combina com a experiência de Alice. Ela nunca domina completamente o espaço. Corredores, porões, sótãos e cômodos aparentemente familiares se transformam em armadilhas. A casa é filmada como um organismo que respira, observa e muda de configuração conforme a paranoia aumenta.
A surdez temporária de Alice também pode ser lida simbolicamente. Durante boa parte do filme, ela não é ouvida pela família. Quando perde literalmente a capacidade de escutar, essa exclusão emocional se torna uma condição física. O paradoxo é que, justamente nesse isolamento, ela passa a depender mais de sua percepção e de suas próprias decisões.
O filme não apresenta a violência como cura simples. Alice sobrevive, mas não sai ilesa. Seu corpo carrega o preço da libertação, e a sequência final evita transformar o trauma em vitória absoluta. A sobrevivência é possível, mas exige reconhecer o que aconteceu e abandonar a fantasia de que a família será capaz de oferecer proteção.
A fuga de Polly e a transmissão da possessão a outra pessoa confirmam uma regra fundamental da franquia: os Deadites nunca são eliminados de forma definitiva. Sempre resta uma possibilidade de contágio, uma cinza, um fragmento ou uma história não encerrada.
Ainda assim, a trajetória de Alice se diferencia da simples lógica de “matar o monstro”. Sua vitória está em recusar a narrativa que a família impôs sobre ela. Ao confrontar Susan e William, ela deixa de aceitar que o abuso seja reclassificado como amor, acidente ou problema doméstico.
O filme é mais eficiente quando confia nesse conflito emocional do que quando explica detalhadamente a mitologia. Críticas como a do The Guardian destacam a intensidade da carnificina, mas também observam que o longa deixa uma sensação de vazio dramático em alguns momentos. A força de Em Chamas está justamente na tensão entre essas duas dimensões: a brutalidade do espetáculo e a tentativa de transformá-lo em comentário sobre família, luto e violência.
Assista o trailer do filme A Morte do Demônio - Em Chamas:
Nome: A Morte do Demônio: Em Chamas | Evil Dead Burn | Estados Unidos | 2026.
Desenvolvimento: Projeto desenvolvido dentro da franquia Evil Dead por Sam Raimi e Rob Tapert, com produção da Ghost House Pictures. O roteiro foi concebido como uma nova história independente, mantendo conexões com A Morte do Demônio: A Ascensão.
Direção: Sébastien Vaniček.
Roteiro: Sébastien Vaniček, Florent Bernard e Sam Raimi.
Elenco: Souheila Yacoub como Alice; Hunter Doohan como Joseph; Luciane Buchanan; Tandi Wright; Erroll Shand; Maude Davey; Victory Ndukwe; George Pullar; Greta Van Den Brink; Keanu Karim e Asaba Jumah.
Gênero: Terror sobrenatural, horror corporal, gore e thriller.
Produção: Sam Raimi e Rob Tapert, pela Ghost House Pictures. As empresas associadas ao projeto incluem Ghost House Pictures, Screen Gems e New Line Cinema.
Distribuição: Warner Bros. Pictures, responsável pela distribuição nos cinemas.
Duração: Aproximadamente 120 minutos. Algumas bases de dados apresentam a duração como 1h51, portanto o tempo pode variar conforme a versão ou o mercado de exibição.
Orçamento estimado: Cerca de US$ 20 milhões; outras fontes situam o valor entre US$ 15 milhões e US$ 20 milhões.
Locações: Nova Zelândia, principalmente Auckland, combinando locações externas, áreas florestais e cenários construídos em estúdio. As filmagens ocorreram entre julho e outubro de 2025.
Direção de arte e figurino: Direção de arte e design de produção de Nick Connor; decoração de sets de Gareth Edwards; figurinos de Sarah Voon.
Trilha sonora: Composta pela dupla francesa de música eletrônica Double Danger, formada por Douglas Cavanna e Xavier Caux. O álbum foi lançado digitalmente pela WaterTower Music.
Plataforma de exibição: Lançamento inicial nos cinemas. Até o momento, não há data oficial confirmada para a chegada do filme a uma plataforma de streaming no Brasil.
AdoroCinema, Omelete, The Guardian, The New York Times, Wikipedia
Se A Morte do Demônio: A Ascensão levou os Deadites para dentro de um edifício em Los Angeles e transformou uma reunião familiar em uma luta desesperada pela sobrevivência, A Morte do Demônio: Em Chamas amplia esse universo e estabelece uma conexão direta com os acontecimentos anteriores. O novo filme retoma elementos apresentados em A Ascensão e mostra que o mal despertado naquele episódio não ficou necessariamente confinado àquele apartamento.
A ligação entre os dois filmes reforça uma das características mais interessantes da nova fase da franquia: cada história funciona de maneira independente, mas acontecimentos, personagens e objetos começam a formar uma mitologia mais ampla. Enquanto A Ascensão concentra seu horror na relação entre duas irmãs e seus filhos, Em Chamas desloca o foco para Alice e para uma família marcada por outras formas de violência e sofrimento.
Para compreender melhor as referências e conexões presentes em A Morte do Demônio: Em Chamas, leia também a nossa análise de A Morte do Demônio: A Ascensão, filme que renovou a franquia ao abandonar a tradicional cabana isolada e levar o Necronomicon para o ambiente urbano.