Poucas franquias de terror conseguiram sobreviver por tantas décadas sem perder completamente sua identidade. Desde o clássico criado por Sam Raimi nos anos 1980, Evil Dead sempre foi associado a violência exagerada, possessões demoníacas, humor sombrio e muito sangue. Em 2023, A Morte do Demônio: A Ascensão chegou com a difícil missão de atualizar esse universo para uma nova geração sem abandonar aquilo que transformou a série em um fenômeno cult.
O resultado foi um dos filmes de horror mais comentados daquele ano. Dirigido por Lee Cronin, o longa abandona a tradicional cabana isolada na floresta e leva o caos demoníaco para dentro de um prédio decadente em Los Angeles. Essa mudança de cenário parece simples à primeira vista, mas altera completamente a dinâmica da narrativa. Em vez do isolamento rural, o terror passa a acontecer em corredores apertados, elevadores quebrados e apartamentos sufocantes, criando uma sensação constante de aprisionamento.
O filme também trouxe uma abordagem mais emocional do que muitos esperavam. Ainda existe violência extrema, mutilações grotescas e criaturas perturbadoras, mas existe igualmente uma história sobre maternidade, trauma familiar e sobrevivência. Isso ajudou a transformar A Morte do Demônio: A Ascensão em algo além de um simples banho de sangue.
Diferente de outras franquias de horror que dependem excessivamente de continuações diretas, A Morte do Demônio: A Ascensão funciona praticamente como uma história independente. Não é necessário conhecer profundamente os filmes anteriores para acompanhar a trama. Existem referências para fãs antigos, mas o roteiro foi estruturado para receber novos espectadores.
A narrativa acompanha Beth, uma técnica de guitarra que vive viajando sem rumo definido. Ela decide visitar sua irmã Ellie, uma mãe solteira que cria sozinha três filhos em um prédio antigo prestes a ser demolido. O reencontro entre as duas já começa carregado de tensão emocional. Beth descobre que está grávida e não sabe como lidar com a situação, enquanto Ellie enfrenta dificuldades financeiras, cansaço extremo e a pressão de sustentar a família praticamente sozinha.
O que parecia apenas um drama familiar complicado se transforma em pesadelo após um terremoto revelar uma antiga câmara escondida sob o edifício. Dentro dela, os personagens encontram discos misteriosos e um livro amaldiçoado que claramente remete ao famoso Necronomicon da franquia. Quando os registros são reproduzidos, forças demoníacas são despertadas.
A partir desse momento, o filme mergulha completamente no horror. Ellie acaba sendo possuída por uma entidade demoníaca e passa a atacar brutalmente a própria família. O longa então se transforma em uma luta desesperada pela sobrevivência dentro daquele prédio condenado.
Uma das escolhas mais inteligentes do roteiro foi transformar o ambiente familiar em um espaço de ameaça constante. Em muitos filmes de possessão, o mal surge em lugares desconhecidos ou afastados. Aqui, o horror invade diretamente o lar.
A transformação de Ellie talvez seja o elemento mais perturbador da produção. Antes da possessão, ela é apresentada como uma mãe cansada, mas amorosa. Depois, torna-se uma criatura cruel, sarcástica e monstruosa. O contraste funciona justamente porque o roteiro dedica tempo suficiente para mostrar quem ela era antes do terror começar.
A atuação de Alyssa Sutherland acabou se tornando um dos pontos mais elogiados do filme. Sua interpretação mistura agressividade física, humor macabro e expressões corporais extremamente desconfortáveis. Muitas cenas funcionam não apenas pela violência gráfica, mas pela forma como Ellie manipula emocionalmente os próprios filhos antes de atacá-los.
O ambiente claustrofóbico também ajuda bastante. Corredores estreitos, apartamentos pequenos e iluminação escura criam a sensação de que não existe saída possível. O filme utiliza muito bem portas trancadas, elevadores quebrados e espaços apertados para aumentar a tensão.
Essa mudança de cenário trouxe frescor para a franquia. Em vez de repetir a fórmula da floresta isolada, o diretor encontrou uma maneira de preservar a essência de Evil Dead dentro de um contexto urbano.
Desde os filmes originais, a franquia Evil Dead sempre foi conhecida pelo exagero visual. A Morte do Demônio: A Ascensão entende perfeitamente essa tradição e a leva ao limite moderno.
O longa possui cenas extremamente violentas, recheadas de mutilações, ossos quebrando, sangue espalhado e criaturas deformadas. Mesmo assim, o filme evita depender apenas de computação gráfica. Grande parte dos efeitos foi criada com maquiagem prática, próteses e efeitos físicos tradicionais, algo que muitos fãs de horror valorizam bastante.
Essa decisão faz diferença porque o gore parece mais real e desagradável. Há peso físico nas cenas. Os personagens realmente parecem machucados, contaminados e destruídos pelas entidades demoníacas.
O diretor também entende que violência gráfica funciona melhor quando existe construção de suspense. Em vez de mostrar tudo imediatamente, várias sequências são desenvolvidas lentamente. O espectador percebe que algo terrível está prestes a acontecer, mas o filme prolonga essa expectativa até explodir em caos absoluto.
Uma das cenas mais comentadas envolve um ralador de queijo usado de maneira grotesca. Curiosamente, não é a cena mais sangrenta do longa, mas acabou se tornando memorável justamente pelo desconforto psicológico que provoca.
Outra sequência marcante envolve o elevador do prédio sendo inundado por sangue, uma imagem claramente inspirada por clássicos do horror sobrenatural. O filme constantemente mistura referências antigas com ideias novas sem parecer mera cópia.
Apesar da aparência de terror brutal, existe uma camada emocional importante no centro da narrativa. O filme fala bastante sobre medo da maternidade, responsabilidade familiar e trauma geracional.
Beth passa boa parte da história tentando compreender o que significa se tornar mãe. Enquanto isso, Ellie representa o desgaste físico e psicológico de criar filhos praticamente sozinha. Quando a possessão acontece, o horror demoníaco amplifica medos reais relacionados à família.
A entidade utiliza justamente os vínculos emocionais para destruir os personagens. Ela provoca culpa, insegurança e medo constante. Isso torna o filme mais desconfortável do que uma simples sucessão de mortes violentas.
Existe também uma sensação permanente de infância ameaçada. As crianças do longa não são apenas vítimas passivas. Elas presenciam situações traumáticas, precisam tomar decisões difíceis e enfrentam diretamente o horror. Isso aumenta bastante o impacto emocional de várias cenas.
Ao contrário de muitos filmes modernos que tentam explicar excessivamente suas metáforas, A Morte do Demônio: A Ascensão deixa boa parte dessas interpretações surgirem naturalmente durante a narrativa. O resultado é um terror mais orgânico e menos artificial.
Antes deste filme, Lee Cronin já havia chamado atenção com o horror “O Bosque Maldito”. Seu estilo mistura atmosfera pesada, desconforto psicológico e violência física intensa. Em A Morte do Demônio: A Ascensão, ele conseguiu equilibrar essas características com a identidade clássica da franquia.
Cronin claramente respeita o legado criado por Sam Raimi, mas não tenta imitá-lo o tempo inteiro. Existem movimentos de câmera acelerados, perspectivas demoníacas e momentos de humor grotesco que remetem aos filmes antigos, porém o diretor desenvolve uma linguagem própria.
O filme possui ritmo bastante eficiente. A primeira metade trabalha tensão crescente e conflitos familiares, enquanto a segunda mergulha completamente no horror frenético. Mesmo com pouco mais de uma hora e meia de duração, a narrativa consegue parecer intensa sem se tornar cansativa.
Outro mérito da direção é saber exatamente quando exagerar. Evil Dead sempre foi uma franquia exagerada por natureza. Cronin entende isso e abraça o absurdo sem perder o impacto dramático.
Além de Alyssa Sutherland, o filme também depende muito da atuação de Lily Sullivan no papel de Beth. A personagem funciona como ponto de equilíbrio emocional da narrativa.
Beth começa como alguém emocionalmente distante, insegura e perdida. Conforme o caos aumenta, ela precisa assumir responsabilidades rapidamente. A atuação evita exageros melodramáticos e ajuda a manter a humanidade da história em meio ao massacre.
As crianças também surpreendem. Nell Fisher, Gabrielle Echols e Morgan Davies conseguem transmitir medo genuíno sem cair em atuações artificiais comuns em filmes de horror.
Existe uma química familiar convincente entre os personagens, algo essencial para que o terror funcione emocionalmente. Quando o grupo começa a ser destruído pela possessão demoníaca, o espectador entende a dimensão daquela tragédia.
Inicialmente, A Morte do Demônio: A Ascensão seria lançado diretamente no streaming. Entretanto, as exibições-teste foram tão positivas que o estúdio decidiu apostar numa estreia cinematográfica ampla. A decisão acabou se mostrando extremamente acertada.
Produzido com orçamento relativamente modesto, estimado entre 15 e 19 milhões de dólares, o longa arrecadou mais de 147 milhões mundialmente.
O sucesso confirmou que ainda existe grande público para filmes de horror violentos lançados nos cinemas, especialmente quando conseguem equilibrar nostalgia e renovação.
A recepção positiva também ajudou a fortalecer novamente a marca Evil Dead após anos sem um novo filme principal da franquia. Muitos fãs consideraram A Morte do Demônio: A Ascensão uma das melhores continuações modernas do terror recente.
Embora funcione como história independente, o filme possui várias referências ao universo clássico de Evil Dead. O Necronomicon continua sendo peça central da narrativa, assim como os famosos Deadites — seres demoníacos violentos que possuem humanos.
Também existem elementos sonoros e visuais que remetem diretamente aos filmes antigos. Certos enquadramentos de câmera lembram bastante o estilo frenético de Sam Raimi.
Até mesmo a presença indireta de Bruce Campbell gerou discussões entre fãs. O ator não aparece fisicamente como Ash Williams, mas sua voz pode ser ouvida em gravações antigas utilizadas na trama.
O longa também amplia discretamente a mitologia da franquia ao sugerir que existem múltiplos livros demoníacos espalhados pelo mundo. Isso abre possibilidades interessantes para futuras continuações sem depender exclusivamente do mesmo protagonista.
O que torna A Morte do Demônio: A Ascensão eficiente não é apenas a violência explícita. O filme trabalha constantemente o desconforto psicológico.
A ideia de uma mãe sendo transformada numa criatura monstruosa possui impacto emocional forte. O terror não vem apenas das mortes, mas da destruição completa da estrutura familiar.
O longa também explora o medo do confinamento. Quase toda a história acontece dentro do prédio, criando sensação sufocante de aprisionamento. Os personagens estão cercados por corredores estreitos, vizinhos mortos e entidades demoníacas.
A fotografia utiliza iluminação fria, sombras pesadas e espaços apertados para reforçar esse clima. Mesmo durante cenas mais exageradas, existe sempre uma atmosfera desagradável e opressiva.
A trilha sonora composta por Stephen McKeon ajuda bastante nesse aspecto. Sons distorcidos, ruídos agressivos e temas sombrios acompanham constantemente a deterioração psicológica dos personagens.
Nos últimos anos, o cinema de horror passou por transformações interessantes. Filmes mais psicológicos ganharam espaço, enquanto produções extremamente violentas voltaram a chamar atenção do público.
A Morte do Demônio: A Ascensão conseguiu unir essas duas tendências. É um filme brutal visualmente, mas que também investe em personagens emocionalmente frágeis e temas humanos.
Isso ajudou o longa a agradar públicos diferentes. Fãs antigos encontraram o gore exagerado que esperavam da franquia. Já espectadores mais novos encontraram um terror moderno com desenvolvimento emocional mais elaborado.
O sucesso também reforçou a importância do horror como gênero comercialmente forte. Mesmo sem orçamento gigantesco, o filme conseguiu enorme retorno financeiro e consolidou novamente a franquia no mercado atual.
Para fãs de horror, especialmente do terror mais gráfico e intenso, A Morte do Demônio: A Ascensão é uma experiência bastante eficiente. O filme entende perfeitamente aquilo que tornou Evil Dead relevante durante décadas, mas encontra maneiras novas de explorar esses elementos.
Não é um longa sutil. A violência é extrema, o desconforto é constante e várias cenas podem ser perturbadoras para espectadores mais sensíveis. Ainda assim, existe criatividade suficiente para impedir que tudo pareça apenas chocante gratuitamente.
A combinação entre drama familiar, possessão demoníaca e terror claustrofóbico cria uma experiência pesada, mas extremamente envolvente. O filme consegue ser brutal sem abandonar completamente o coração emocional da narrativa.
Mais importante ainda: A Morte do Demônio: A Ascensão prova que franquias antigas ainda podem encontrar caminhos novos sem perder sua identidade original.
Assista ao trailer do filme A Morte do Demônio: A Ascensão:
Ficha técnica do filme:
Nome: A Morte do Demônio: A Ascensão | Evil Dead Rise | Estados Unidos, Irlanda e Nova Zelândia | 2023
Desenvolvimento: Quinto filme da franquia Evil Dead
Direção: Lee Cronin
Roteiro: Lee Cronin
Elenco: Lily Sullivan, Alyssa Sutherland, Morgan Davies, Gabrielle Echols, Nell Fisher, Mia Challis
Gênero: Terror sobrenatural, horror, gore
Produção: New Line Cinema, Renaissance Pictures, Ghost House Pictures, Wild Atlantic Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Duração: aproximadamente 97 minutos
Orçamento estimado: entre US$ 15 milhões e US$ 19 milhões
Locações: Auckland, Nova Zelândia
Direção de arte e figurino: Nick Bassett e Sarah Voon
Trilha sonora: Stephen McKeon
Plataforma de exibição: Max, Prime Video, Apple TV e mídia física
Fontes:
A2Z, Cinema & Afins, Evil Dead Wiki, Saturation, The Numbers, Wikipedia
Referências:
Se você quiser se aprofundar ainda mais no trabalho de Lee Cronin dentro do terror contemporâneo, vale a pena conferir também o artigo completo sobre o filme Maldição da Múmia. Nos dois filmes, Cronin assume tanto a direção quanto o roteiro, explorando atmosferas claustrofóbicas, violência intensa e elementos sobrenaturais marcantes.
Enquanto A Morte do Demônio: A Ascensão leva o horror da franquia Evil Dead para um ambiente urbano sufocante e brutal, Maldição da Múmia revisita uma figura clássica do terror sob uma abordagem mais sombria e perturbadora. Juntos, os dois projetos ajudam a entender a identidade criativa do cineasta e a forma como ele vem se consolidando como um dos nomes mais fortes do horror atual.