Quando Marissa Irvine chega à casa do colega de seu filho para buscá-lo depois de um playdate, espera apenas mais um gesto banal da rotina. A mulher que abre a porta, porém, nunca ouviu falar dela. Nem da criança. Não há brinquedos, não há mochila, não há vestígios. Apenas um corredor neutro e a sensação imediata de que algo essencial acabou de se perder.
Esse é o ponto de partida de Tudo Culpa Dela (All Her Fault), minissérie lançada em 2025, adaptada do romance de Andrea Mara. Um desaparecimento, uma casa errada, um erro mínimo — e um mundo que começa a ruir. O que poderia ser apenas mais um suspense sobre uma criança perdida logo se revela outra coisa: um retrato incômodo sobre como a culpa se organiza, sobre quem aprendemos a acusar e sobre o que acontece quando a confiança evapora.
Desde o primeiro episódio, a série deixa claro que não está interessada apenas em “quem fez”, mas em “o que isso faz”. À protagonista, ao casamento, à vizinhança — e, por extensão, ao próprio espectador.
O título não engana: Tudo Culpa Dela é uma história sobre culpa. Não como fato, mas como força. Ela se espalha antes mesmo de existir prova. Muda de mãos. Gruda. Contamina. E, quase sempre, encontra o mesmo corpo para se alojar: o de Marissa.
Interpretada por Sarah Snook com uma precisão desconfortável, Marissa não é idealizada. Ela se contradiz, erra, se desorganiza. E é justamente isso que a torna tão reconhecível. A série expõe como a culpa feminina é rápida, quase automática. Basta um desvio, um detalhe fora do lugar, para que tudo — a maternidade, a competência, o caráter — passe a ser questionado.
Ao redor dela, outras mulheres orbitam como reflexos possíveis. Jenny Kaminski surge ora como apoio, ora como tensão. A relação entre elas nunca é simples. Solidariedade e julgamento caminham juntos. Tudo Culpa Dela entende que a culpa não nasce apenas dos acontecimentos, mas do modo como fomos ensinados a olhar para as mulheres — e para nós mesmos.
Se a culpa recai sobre Marissa, a série é cuidadosa ao mostrar como ela também é produzida. Peter Irvine, o marido, não exerce poder pelo grito ou pela violência direta. Ele opera no território mais difícil de nomear: o da manipulação cotidiana.
Palavras que deslocam responsabilidades. Silêncios que instalam dúvida. Gestos de cuidado que escondem controle. Aos poucos, Marissa passa a questionar não apenas o que aconteceu, mas o que sentiu, o que pensou, o que lembra. A manipulação aqui não é um ato isolado — é um ambiente.
Peter não é construído como vilão caricato, e é justamente isso que o torna perturbador. Ele representa um tipo de poder masculino comum demais para ser facilmente percebido: aquele que organiza narrativas, suaviza violências e empurra mulheres para o lugar da falha. Tudo Culpa Dela sugere que muitas vezes a dominação não se impõe — ela se instala.
Visualmente, a série aposta menos no choque e mais na tensão. Casas amplas parecem vazias demais. Ruas tranquilas soam perigosamente silenciosas. A câmera observa como quem desconfia. O terror não vem do escuro, mas do familiar.
Cozinhas, corredores, quartos infantis — espaços de proteção — tornam-se territórios de suspeita. A estética minimalista, os tons frios e a fotografia contida criam uma sensação persistente de instabilidade. Nada explode. Tudo ameaça ceder.
Os personagens coadjuvantes são peças essenciais desse clima. Investigadores, pais, vizinhos e amigos não existem apenas para mover a trama, mas para pressioná-la. Cada um carrega expectativas, julgamentos e segredos que empurram a história para zonas cada vez mais ambíguas. O mistério avança, mas é o desconforto emocional que mantém o espectador preso.
No centro de tudo está Marissa. Uma mulher comum, lançada numa situação extrema. Sua trajetória dialoga com a chamada “jornada do herói”, mas sem qualquer verniz épico. Aqui, não há conquista — há desgaste.
Ela começa ancorada numa rotina reconhecível. O desaparecimento de Milo implode esse chão. O caminho que se abre não é de superação, mas de erosão. Cada resposta possível a afasta de algo: do marido, da vizinhança, das próprias certezas.
Seu corpo muda. Seu olhar endurece. Sua fala oscila entre culpa, raiva e medo. Ao fim, a série não promete redenção. Sugere algo mais incômodo: sobreviver já é a travessia. E, quando tudo se perde, não descobrimos quem somos — apenas deixamos de conseguir fingir.
A jornada de Marissa rapidamente deixa de ser apenas individual. O que a série constrói é um campo social. Uma mulher sendo observada. Interpretada. Comentada. Uma comunidade que, em vez de amparar, passa a vigiar.
O desaparecimento de Milo funciona como gatilho para que expectativas antigas entrem em ação: como uma mãe deve se comportar, sofrer, falar, reagir. Tudo Culpa Dela expõe o quanto nossas ideias de cuidado ainda caminham lado a lado com controle — e como a empatia pode se transformar em tribunal.
A série também toca, ainda que de modo indireto, em estruturas de privilégio. O mundo que retrata é majoritariamente branco, confortável, de classe média alta. Um espaço onde a comoção se organiza rápido. Onde recursos surgem. Onde algumas dores importam mais que outras. Não é um discurso frontal, mas um pano de fundo que amplia o alcance da narrativa.
Embora o desaparecimento de Milo seja o motor da trama, Tudo Culpa Dela se sustenta no que ele desencadeia. A maternidade aparece sem romantização: como território de pressão constante, onde qualquer falha parece definitiva. Marissa não luta apenas para encontrar o filho — luta para preservar quem é num mundo que rapidamente passa a duvidar dela.
As decisões dos personagens nunca são simples. Proteção e controle, amor e egoísmo, medo e violência simbólica se confundem. A série constrói situações em que ninguém está completamente certo — e é justamente aí que ela se torna mais envolvente. O suspense não vem apenas do mistério, mas da identificação: “o que eu faria no lugar dela?”
Ao redor, o subúrbio supostamente seguro se revela um espaço de cochichos e julgamentos. A busca é solitária, mas acontece sob olhares constantes. Aos poucos, a série sugere que o desaparecimento não cria o trauma — apenas rasga o véu de fraturas que já existiam: nas famílias, nos casamentos, na maneira como lidamos com a dor alheia.
Por mais extrema que pareça, a situação da série dialoga com um medo real. Todos os anos, milhares de crianças são registradas como desaparecidas no Brasil e nos Estados Unidos. Muitas são encontradas. Outras, não. Por trás dos números, existem famílias suspensas no tempo.
É esse pano de fundo que dá peso à narrativa. Tudo Culpa Dela não transforma o sequestro em espetáculo, mas em possibilidade concreta. O terror vem da banalidade: um endereço errado, um atraso, um descuido mínimo. Não é o extraordinário que assusta — é o plausível.
A série se constrói nos detalhes. Figurinos discretos acompanham o esgotamento emocional das personagens. A fotografia transforma a luz do dia em algo quase clínico. As locações — casas, ruas, escolas — funcionam como extensões psicológicas.
Os efeitos são mínimos. O impacto vem do ritmo, das pausas, dos enquadramentos, da atuação. Sarah Snook sustenta a série com um trabalho físico e emocional que foi amplamente reconhecido pela crítica e por premiações. Nada parece gratuito. Tudo parece carregado.
Tudo Culpa Dela se inscreve numa linhagem de séries que usam o desaparecimento de crianças para falar menos do crime e mais de suas reverberações: The Missing, The Disappearance, Five Days. Obras interessadas não apenas no que aconteceu, mas no que isso faz com quem fica.
Nesse território, o suspense é ferramenta. O verdadeiro tema é o depois: o luto sem corpo, o amor sem objeto, a culpa sem endereço fixo.
No fim, Tudo Culpa Dela não quer apenas resolver um mistério. Quer saber o que acontece quando o medo atravessa nossas estruturas mais frágeis: maternidade, casamento, reputação, pertencimento.
Ela começa como thriller, mas termina como espelho. Nos prende pela história, mas nos marca pelas perguntas. Sobre quem julgamos. Sobre como julgamos. Sobre o quanto de nossas certezas depende de conforto.
Quando tudo desmorona, a questão não é apenas o que aconteceu. É quem nos tornamos enquanto tentamos explicar.
Assista ao trailer da minissérie Tudo Culpa Dela: