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Londres, 1814. O Tâmisa escorre pesado como óleo, e a cidade inteira parece feita de carvão, neblina e culpa. É um organismo vivo, um monstro de tijolos e fuligem que engole seus habitantes tão rápido quanto os expulsa para as margens da sobrevivência. Neste palco de contradições — entre a modernidade que se anuncia e a barbárie que insiste em permanecer — surge Taboo, série que escolhe o lado sombrio da História para contar uma narrativa igualmente sombria sobre poder, luto e vingança.
Diferente de outros dramas de época que se satisfazem em encantar o olhar, Taboo escolhe sufocar o espectador. Sua Londres não é pintada com romantismo histórico; é uma topografia de decadência. A estética quase industrial — com madeira úmida, metal oxidado e becos claustrofóbicos — funciona como linguagem. Tudo em cena tenta nos lembrar de que ali ninguém respira sem esforço, ninguém vive sem negociar sua alma.
É nesse ambiente de decadência quase mitológica que a série ancora sua história. Uma Londres que não busca a fidelidade visual como finalidade, mas como veículo: a cidade é tão protagonista quanto James Delaney.
Há séries que falam, há séries que mostram — Taboo faz as duas coisas ao mesmo tempo, mas murmura na linguagem das sombras. A produção é uma das mais cuidadosas e atmosféricas da televisão recente. Cada locação parece saída de um pesadelo histórico: vielas estreitas, interiores iluminados apenas por velas nervosas, casas que parecem suspensas entre o mofo e o espectro.
Os figurinos cumprem função dupla. Não vestem apenas os personagens; vestem seus pecados. As roupas são pesadas, densas, quase asfixiantes. Os casacos longos de Delaney são armaduras que revelam e ocultam na mesma medida. Nada está ali por acaso: o desgaste do tecido, o corte militar, a paleta suja de sangue seco e carvão são manifestações visíveis de um mundo emocional que não encontra descanso.
A trilha sonora de Max Richter é outra entidade narrativa. Cordas distorcidas, atmosferas inquietantes e pulsos graves traduzem, em áudio, o estado psíquico de Delaney e a brutalidade do contexto histórico. A trilha não acompanha a ação; persegue o espectador — como um presságio, uma febre persistente, um animal sempre à espreita.
Nada aqui é apenas “bonito”: tudo é funcional, simbólico, agressivamente meticuloso.
Tom Hardy cria em James Delaney um dos personagens mais enigmáticos, perigosos e magneticamente silenciosos das últimas décadas. Delaney retorna à Inglaterra após 12 anos na África, supostamente morto, trazendo consigo cicatrizes físicas, rituais, segredos e um punhado de diamantes roubados que carregam mais maldições do que esperança.
Ele é o que o século XIX chamaria de “selvagem civilizado” — mas a série nos convida a inverter a lógica: Delaney não é o selvagem. Selvagem é o Império Britânico, com sua maquinaria de violência institucionalizada.
Delaney não sorri. Não pede desculpas. Não oferece paz.
Ele guarda um tipo de silêncio que incomoda porque parece que escuta tudo: os sussurros da cidade, as tramas da East India Company, a corrupção do governo, os insultos escondidos no olhar dos outros.
Seu papel como pária é mais do que social — é quase metafísico. Ele está fora do tempo, fora da moral, fora do pacto social que faz a Inglaterra funcionar. E, justamente por isso, é a figura perfeita para destrinchar suas contradições.
As relações que cercam James Delaney formam um círculo de tensões comprimidas, sempre à beira de explodir. Com Zilpha, ele mantém uma ligação incômoda, visceral, quase proibida — uma paixão que brilha com a mesma intensidade com que ameaça consumi-los. Entre seus aliados marginais, constrói laços frágeis, feitos menos de confiança e mais de uma ética de sobrevivência compartilhada; vínculos que os aproximam, mas nunca o suficiente para dissipar a névoa de desconfiança que envolve todos. Já com seus inimigos, todos eles mais influentes, mais ricos, mais protegidos, Delaney estabelece uma relação paradoxal de enfrentamento e fascínio: eles o temem não apesar de sua condição de pária, mas justamente por causa dela, por causa do silêncio espesso e da violência latente que ele carrega como um adorno sombrio.
Delaney é um herdeiro da violência britânica — e um retorno fantasmagórico para sua própria terra desgraçada.
A estrutura narrativa de Taboo dialoga com o conceito clássico da “jornada do herói”, mas o faz de modo invertido, quase perverso.
Enquanto o herói tradicional parte do conhecido rumo ao desconhecido para retornar transformado, Delaney faz o caminho inverso: retorna do desconhecido — a África que o moldou de modo irreversível — para desestabilizar o conhecido. Ele não traz equilíbrio; traz ruptura. Ele não busca redenção; busca verdade e vingança.
Sua jornada não é evolutiva. É erosiva.
A antijornada de Delaney é tão provocadora porque questiona a própria ideia de heroísmo. Ele não é mártir, não é salvador e tampouco se permite ser vítima. Ele é uma força que se move entre mundos — o espiritual, o político, o colonizado, o colonizador — e colide com todos.
No fim, sua metamorfose não é iluminação, mas sobrevivência.
Os personagens secundários de Taboo não orbitam a trama como acessórios — são forças vivas que ampliam, distorcem e tensionam o mundo sombrio do início do século XIX. Funcionam como espelhos rachados da própria Londres: fragmentos sociais, políticos e psicológicos que revelam aquilo que Delaney tenta, a todo custo, esconder ou superar. Entre eles, Zilpha Geary, interpretada com trágica delicadeza por Oona Chaplin, surge como a figura mais complexa, dividida entre um desejo proibido, a culpa religiosa e um casamento que a aprisiona com ferocidade silenciosa. Do outro lado desse tabuleiro, os agentes da East India Company corporificam o capitalismo imperial em sua forma mais nua — homens de lógica fria, movidos por lucros e pelo tipo de brutalidade que não precisa levantar a voz para se impor.
O governo britânico e seus aristocratas compõem outro eixo dessa engrenagem, operando com uma moralidade de fachada e uma hipocrisia tão envernizada quanto os salões que frequentam. E, completando o círculo, está a pequena gangue de Delaney — sujeitos quebrados, desajustados, unidos por uma lealdade sempre tensa, sempre provisória, sustentada apenas pelo pacto de sobrevivência em um mundo que não perdoa fraquezas.
Cada um deles gravita ao redor de Delaney como planetas puxados por uma força antiga e instável, contribuindo para o desenho de uma Londres onde cada rosto é um segredo, cada gesto é um risco e cada relação parece fadada a se romper.
A Londres de 1814 não é apenas cenário — é comentário político.
Taboo se apoia em eventos reais para compor um retrato ácido das disputas por poder durante o fim das Guerras Napoleônicas e o abalo do monopólio da East India Company após o Charter Act de 1813.
O território disputado de Nootka Sound torna-se uma metáfora do capitalismo em suas raízes coloniais: terra que vale mais por suas rotas marítimas do que por vidas humanas.
A série captura esse momento histórico com rara precisão emocional: o país está exausto, mas não disposto a abrir mão de seu império; a economia está em transformação, mas não quer libertar seus trabalhadores; a política busca ordem, mas produz caos.
Delaney — esse estranho retornado do inferno — é o catalisador ideal para revelar essas contradições.
Taboo nunca buscou popularidade — e talvez por isso mesmo tenha conquistado algo mais valioso: reconhecimento artístico. Sua primeira temporada recebeu mais de 19 indicações e 9 vitórias, sobretudo em áreas técnicas e criativas, onde sua força estética é incontestável.
Foi vencedora do BAFTA Craft Award por Maquiagem & Cabelo, levou o Royal Television Society Award em Figurino e Som, venceu o British Society of Cinematographers e foi premiada pelo Writers’ Guild of Great Britain como Melhor Drama de Longa Duração.
Também recebeu indicações ao Emmy (Trilha Sonora e Efeitos Visuais), ao Satellite Award (Melhor Ator e Melhor Série Drama), e aos Irish Film and Television Awards.
São prêmios que reconhecem a excelência invisível: o rigor técnico, a ousadia estética, a complexidade narrativa. Taboo foi notado onde importa — no olhar de artistas e especialistas da própria indústria.
Homens em luto e vingança possuem uma longa tradição na televisão. Taboo se junta a um panteão de histórias onde trauma e violência formam a espinha dorsal narrativa.
Ela dialoga com:
• Peaky Blinders, em sua brutalidade estilizada;
• Dexter, na ética distorcida da caça moral;
• Ripper Street e Copper, na evocação de mundos sujos e brutais;
• Gunpowder, em sua combinação de política e violência ritualizada.
Mas Taboo tem algo próprio: um sabor de misticismo, um toque ritualístico, uma estética que parece feita de febres, alucinações e fantasmas coloniais.
A tabela a seguir funciona como uma pequena arqueologia de narrativas televisivas que exploram homens devastados pelo luto e movidos por uma fome quase ritual de vingança. São histórias que, embora se passem em épocas distintas e por vezes em geografias irreconciliáveis, compartilham um eixo emocional semelhante: a dor transformada em motor dramático. Ao reunir ano, título e uma descrição concisa de cada série ou minissérie, o quadro evidencia como a televisão — especialmente nas últimas décadas — vem lapidando um tipo específico de protagonista: o homem que, diante da perda, abandona qualquer promessa de normalidade e se torna uma força errante, disposta a desafiar instituições, crenças e até a própria sanidade. Essa seleção não pretende esgotar o tema, mas oferece uma espécie de cartografia das masculinidades feridas que moldam parte decisiva do imaginário audiovisual contemporâneo.
Taboo é uma obra que não oferece luz — oferece lucidez.
Não entrega catarse — entrega espelhos.
Não constrói heróis — expõe feridas.
Ao final da temporada, a sensação que resta não é de fechamento, mas de continuidade — como se Delaney, navegando rumo ao desconhecido, levasse consigo todos os demônios de uma Inglaterra que insiste em esquecer seu passado.
É essa recusa em adocicar a História que torna Taboo tão singular. A série caminha na contramão do conforto e nos convida a contemplar o que há de mais profundo e inquietante em sociedades construídas sobre poder, violência e memória seletiva.
E, assim como Delaney, Taboo deixa uma marca que não cicatriza.
Assista ao trailer da 1ª temporada da série Taboo: