A segunda temporada de Além da Imaginação (The Twilight Zone) chegou em 2020 com dez episódios lançados de uma só vez pelo então CBS All Access. A produção manteve Jordan Peele como narrador e produtor executivo, mas procurou se afastar um pouco da obrigação de reproduzir a fórmula da série original criada por Rod Serling.
O resultado continua irregular, mas apresenta uma característica importante: a série parece mais confortável dentro de sua própria identidade. Em vez de depender tanto da surpresa ou da referência ao passado, vários episódios usam situações fantásticas para discutir problemas bastante reconhecíveis: solidão, necessidade de aprovação, perda de identidade, tecnologia, consumo, memória e relações humanas.
É justamente nessa aproximação com o cotidiano que esta temporada encontra seus melhores momentos.
Um dos méritos da segunda temporada está em transformar situações comuns em portas de entrada para o extraordinário. 'Encontro pela Metade' (Meet in the Middle), episódio de abertura, parte de uma ideia simples: um homem solitário descobre que consegue ouvir os pensamentos de outra pessoa.
A premissa poderia facilmente resultar apenas em uma história sobre telepatia. O episódio, porém, está mais interessado na necessidade humana de estabelecer uma conexão. O poder extraordinário não resolve a solidão do protagonista; ao contrário, torna a situação ainda mais complicada, porque conhecer os pensamentos de alguém não significa necessariamente conhecer essa pessoa.
A fantasia funciona melhor justamente por tornar visível algo que já existe no mundo real. Pessoas podem conversar diariamente, acompanhar umas às outras pelas redes sociais e ainda assim permanecer profundamente desconhecidas.
Essa característica também aparece em Downtime, que trabalha com a possibilidade de uma realidade artificial. A questão deixa de ser simplesmente descobrir se aquilo é real ou não e passa a envolver a dificuldade de aceitar uma realidade que contradiz aquilo em que acreditamos.
A temporada funciona melhor nesses momentos em que o fantástico não substitui o problema humano, mas serve para ampliá-lo.
Ovação (Ovation) talvez seja um dos episódios que melhor traduzem uma ansiedade contemporânea: a necessidade permanente de aprovação.
A protagonista recebe uma oportunidade aparentemente extraordinária para se tornar famosa. O reconhecimento cresce rapidamente e parece oferecer a solução para antigas frustrações. Só que a mesma lógica que produz popularidade também cria uma dependência cada vez maior da opinião dos outros.
Embora o episódio não seja uma representação literal das redes sociais, sua ideia conversa diretamente com uma época em que curtidas, seguidores e comentários podem transformar aprovação em uma espécie de moeda social.
A força da história está justamente em mostrar que o problema não é querer ser admirado. O perigo aparece quando a própria identidade passa a depender dessa admiração.
Em O Quem de Voce (The Who of You), a série desloca a discussão para outra questão fundamental: o que aconteceria se fosse possível abandonar temporariamente o próprio corpo e ocupar a vida de outra pessoa?
A ideia permite trabalhar identidade de maneira mais concreta. O protagonista consegue assumir outras aparências e experimentar vidas diferentes, mas cada troca traz consequências. A fantasia revela uma tentação bastante humana: imaginar que a vida seria melhor se pudéssemos simplesmente ser outra pessoa.
O episódio evita transformar essa possibilidade em uma fantasia de liberdade absoluta. Ter acesso à vida dos outros também significa assumir responsabilidades que não são nossas, lidar com consequências inesperadas e perceber que nenhuma existência é tão simples quanto parece de fora.
Essa é uma das ideias recorrentes da temporada: o extraordinário oferece uma saída aparentemente fácil para um problema humano, mas a solução quase sempre produz uma complicação maior.
A tecnologia aparece em diferentes episódios, mas não apenas como ameaça. A temporada é mais interessante quando trata a tecnologia como extensão de desejos humanos.
8, por exemplo, utiliza a ficção científica para explorar os limites da criação e da inteligência. A pergunta central não está apenas naquilo que uma tecnologia pode fazer, mas na responsabilidade de quem decide colocá-la no mundo.
Já Voce Também Pode Gostar (You Might Also Like) segue por um caminho mais próximo do nosso dia a dia. O episódio mostra uma sociedade em que comprar coisas e receber aquilo que se quer faz parte da rotina, mas, aos poucos, essa situação começa a ficar estranha.
A história parte de uma ideia simples: será que pensamos de verdade sobre aquilo que queremos? Muitas vezes, recebemos uma novidade, uma oferta ou uma tecnologia que promete facilitar nossa vida e simplesmente aceitamos, sem pensar no que pode estar por trás disso.
O episódio mostra que o problema não está apenas nas coisas que compramos, mas também na facilidade com que podemos deixar outras pessoas ou sistemas escolherem por nós. Tudo parece mais fácil, mas podemos acabar deixando de pensar sobre nossas próprias escolhas.
Assim, Voce Também Pode Gostar (You Might Also Like) pega uma situação comum e a transforma em algo estranho. O episódio mostra que não é preciso um monstro ou uma situação impossível para causar medo. Às vezes, basta olhar com mais cuidado para aquilo que já faz parte da nossa vida.
Nem todos os episódios dependem de conceitos tecnológicos ou de grandes reviravoltas. Um Rosto Humano (A Human Face) utiliza o fantástico para abordar uma experiência muito mais íntima: o sofrimento causado pela perda.
A história acompanha um casal diante de uma situação aparentemente impossível, na qual aquilo que parecia definitivamente perdido retorna de uma maneira perturbadora. O elemento sobrenatural funciona como representação de uma dificuldade emocional: aceitar que determinadas coisas não podem simplesmente voltar a ser como eram.
É um dos momentos em que Além da Imaginação recupera uma característica essencial da série clássica: usar uma situação impossível para falar de sentimentos perfeitamente reais.
A presença de Jordan Peele continua sendo importante para compreender a nova versão de Além da Imaginação. Sua função como narrador estabelece uma ligação direta com Rod Serling, mas a segunda temporada mostra que essa ligação não precisa significar imitação.
Serling utilizava a ficção científica, o horror e a fantasia para discutir os conflitos sociais e comportamentais de seu tempo. Peele ocupa uma posição semelhante, mas diante de outro mundo: redes sociais, novas tecnologias, cultura da celebridade, isolamento e uma sociedade cada vez mais dependente de imagens e informações.
A segunda temporada parece entender melhor essa necessidade de encontrar uma voz própria. Em vez de perguntar o tempo todo como reproduzir a série original, começa a descobrir o que significa fazer Além da Imaginação no século XXI.
Isso não significa que todos os episódios funcionem igualmente bem. A segunda temporada continua apresentando histórias de qualidade desigual e, em alguns momentos, prolonga ideias que poderiam ser desenvolvidas de maneira mais direta.
A recepção crítica refletiu exatamente essa divisão. No Rotten Tomatoes, a temporada alcançou 63% de aprovação da crítica e 50% do público, enquanto o Metacritic registrou 57 pontos, classificação considerada “mista ou mediana”.
Ainda assim, existe uma evolução em relação à primeira temporada. A série parece menos preocupada em provar que merece ocupar o lugar deixado pelo original e mais interessada em explorar suas próprias possibilidades.
Esse talvez seja o aspecto mais importante da segunda temporada. Além da Imaginação não precisa competir com a memória de Rod Serling para funcionar. Seu melhor caminho está em utilizar o absurdo para revelar aquilo que normalmente passa despercebido no cotidiano.
A segunda temporada amplia alguns dos caminhos apresentados na primeira e mostra uma série mais segura para trabalhar suas histórias. Seus episódios continuam usando situações estranhas para falar de problemas muito comuns, mas existe uma liberdade maior para tratar de temas como tecnologia, fama, identidade, consumo e solidão.
Voltar à primeira temporada depois de assistir à segunda permite perceber melhor de onde vieram essas ideias. Também fica mais evidente o esforço inicial para recuperar o espírito da série criada por Rod Serling e, ao mesmo tempo, adaptá-lo aos dias atuais.
As duas temporadas funcionam de forma independente, mas podem ser vistas como partes de um mesmo processo: a primeira reconstrói a porta de entrada para a Zona, enquanto a segunda começa a explorar com mais liberdade o que existe do outro lado.
A segunda temporada não transforma o reboot em uma obra totalmente uniforme, mas torna mais claro o que ele pode ser. Seus melhores episódios não dependem apenas de finais surpreendentes ou de conceitos fantásticos. Eles funcionam porque existe alguma coisa reconhecível por trás do impossível.
Solidão, fama, identidade, consumo, tecnologia, perda e desejo de pertencimento são problemas que não precisam de monstros ou universos paralelos para existir. A Zona do Crepúsculo apenas os coloca sob uma luz diferente.
E talvez essa seja a melhor maneira de atualizar a proposta de Rod Serling: não repetir suas histórias, mas continuar fazendo a mesma pergunta essencial — o que existe de estranho, assustador ou contraditório naquilo que chamamos de vida normal?
Assista o trailer da 2ª temporada da série Além da Imaginação:
Título: Além da Imaginação (The Twilight Zone) | Estados Unidos | 2020
Criação original: Rod Serling
Desenvolvimento: Jordan Peele, Simon Kinberg e Marco Ramirez
Narrador/apresentador: Jordan Peele
Gênero: Ficção científica, fantasia, suspense, terror e antologia
Produção: CBS Television Studios, Monkeypaw Productions e Genre Films
Distribuição original: CBS All Access
Temporada: 2ª
Episódios: 10
Lançamento: 25 de junho de 2020
Formato: Todos os episódios disponibilizados simultaneamente.
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