Se a primeira temporada de The White Lotus olhou para o dinheiro e os privilégios, a segunda troca o Havaí pela Sicília e mira em outro alvo: o desejo. Criada por Mike White, a história reúne turistas ricos que chegam ao hotel em busca de descanso e acabam mostrando o que têm de pior.
A tensão começa já no primeiro episódio, com um corpo boiando no mar. Saber quem morreu importa menos do que entender o caminho até lá, porque cada personagem chega carregando uma ferida que as férias não curam.
Tanya, a mulher que paga para não ficar sozinha
Tanya McQuoid-Hunt (Jennifer Coolidge) volta mais rica e mais frágil. Casada com Greg, ela quer acreditar que finalmente encontrou um amor de verdade, mas basta uma ligação escondida para a ilusão rachar. Tanya confunde atenção com carinho e, por isso, abraça qualquer gesto simpático, sobretudo o de Quentin, que a recebe de braços abertos.
O lado trágico está no hábito de quem sempre comprou companhia: no fim, ela já não sabe separar o sincero do interesseiro. O medo de ser traída vira paranoia, e a fuga pelo mar termina de um jeito que parece absurdo e inevitável ao mesmo tempo. Coolidge faz o público rir e sofrer na mesma cena, e levou o Emmy de atriz coadjuvante por isso.
Casais em crise: o casamento como encenação
Harper (Aubrey Plaza) e Ethan (Will Sharpe) formam o casal que parece mais equilibrado, mas vivem de silêncios. Ela desconfia de tudo e de todos, e ele foge das conversas difíceis. A convivência com Cameron (Theo James) e Daphne (Meghann Fahy) funciona como espelho: quanto mais os amigos exibem felicidade, mais a insegurança do casal aparece.
A grande revelação vem quando Daphne diz que escolhe não se enxergar como vítima. A frase mostra que o casamento aparentemente perfeito dela é, na prática, um acordo de conveniência. Harper e Ethan, por sua vez, só reencontram o desejo depois de uma briga violenta. A série sugere, com ironia, que muitos casais só se reconhecem quando o conflito finalmente vem à tona.
Três gerações, a mesma inquietação
Bert (F. Murray Abraham), Dominic (Michael Imperioli) e Albie (Adam DiMarco) viajam em busca das raízes italianas da família e acabam encontrando os próprios defeitos. Bert trata o desejo como herança de sangue. Dominic repete o comportamento do pai e tenta esconder a vergonha. Albie observa os dois e tenta ser diferente.
Albie é o coração emocional da temporada. Ele acredita no amor, enxerga Lucia como alguém que precisa de ajuda e se vê cercado por homens que já desistiram dessa crença. A cena em que os Di Grasso batem à porta de parentes distantes e são mandados embora resume o tema: a identidade de família que eles imaginavam era só uma lembrança idealizada. Albie sai da viagem machucado, mas mais maduro.
Quem paga a conta: Lucia, Mia e o jogo de poder
Lucia (Simona Tabasco) e Mia (Beatrice Grannò) vivem na Sicília e observam o luxo de fora, aprendendo a usá-lo a seu favor. A série trata o sexo como moeda, e no hotel todo mundo negocia alguma coisa. Valentina (Sabrina Impacciatore), a gerente, quer respeito e controle. Mia troca favores para ganhar espaço na música. Lucia vive da fantasia que os turistas querem comprar.
O desfecho vira o jogo: enquanto os hóspedes se destroem entre mentiras e ciúmes, as duas saem ganhando, e o golpe final mostra como os ricos se enganam ao achar que mandam em tudo. A Sicília reforça esse clima, com ópera, afrescos na abertura e os cenários de Taormina dando um tom de tragédia clássica, em que prazer e castigo andam lado a lado.
O preço de querer demais
A segunda temporada é menos ácida com o dinheiro do que a anterior, mas mais honesta ao falar de carência. Todos os personagens querem ser desejados, perdoados ou salvos, e escolhem o caminho mais fácil para isso.
A crítica elogiou o texto afiado de White e a química do elenco, embora parte dos comentaristas tenha achado o foco nos relacionamentos menos incisivo que a crítica social da primeira temporada. Vale ver a série como um retrato de gente que, mesmo rica, tem problemas muito humanos, num cenário de cartão-postal.
Explore as três temporadas de The White Lotus
A série The White Lotus conta com três temporadas, cada uma ambientada em um resort diferente e acompanhando personagens cujas férias revelam conflitos, segredos e contradições escondidos por trás de uma vida de luxo. Ao longo da produção, a série explora temas como privilégios sociais, relações familiares, amizade, dinheiro e a busca pela felicidade. Confira as análises de cada temporada e acompanhe como a produção transforma cenários paradisíacos em retratos provocadores do comportamento humano.
Confira as três temporadas de The White Lotus:
1ª temporada - férias em um resort no Havaí revelam tensões sociais, conflitos pessoais e relações marcadas por privilégios.
3ª temporada - na Tailândia, a busca por espiritualidade e renovação se mistura a crises familiares, ressentimentos e segredos.
Assista o trailer da 2ª temporada da série The White Lotus:
Ficha técnica da temporada:
Nome: The White Lotus | The White Lotus (subtítulo promocional: Sicily) | Estados Unidos | 2022
Temporada: 2ª temporada (ambientada na Sicília)
Episódios: 7 (Ciao / Sonho italiano / Elefante Macho / Na Caixa de Areia / É o Amore / Raptos / Arrivederci)
Duração: aproximadamente 50 a 65 minutos por episódio
Estreia: 30 de outubro de 2022 (final em 11 de dezembro de 2022)
Criador: Mike White
Obra original ou base literária: roteiro original, sem base literária
Desenvolvimento: Mike White (renovação anunciada pela HBO em agosto de 2021)
Direção: Mike White (todos os episódios)
Roteiro: Mike White
Elenco: Jennifer Coolidge (Tanya McQuoid-Hunt); Jon Gries (Greg Hunt); F. Murray Abraham (Bert Di Grasso); Michael Imperioli (Dominic Di Grasso); Adam DiMarco (Albie Di Grasso); Aubrey Plaza (Harper Spiller); Will Sharpe (Ethan Spiller); Theo James (Cameron Sullivan); Meghann Fahy (Daphne Sullivan); Tom Hollander (Quentin); Haley Lu Richardson (Portia); Leo Woodall (Jack); Sabrina Impacciatore (Valentina); Simona Tabasco (Lucia Greco); Beatrice Grannò (Mia)
Participação especial: Laura Dern (Abby, apenas voz); Angelina Keeley e Kara Kay (hóspedes do hotel)
Gênero: comédia dramática, sátira social, antologia
Produção: HBO Entertainment, com produção executiva de Mike White, David Bernad e Mark Kamine
Distribuição: HBO / Warner Bros. Discovery
Orçamento estimado: abaixo de US$ 3 milhões por episódio, segundo a Vulture
Locações: Taormina (San Domenico Palace, Four Seasons, e o teatro antigo), Cefalù, Fiumefreddo di Sicilia, Palermo (Teatro Massimo e Villa Tasca), Catania, Noto e Giardini Naxos
Direção de arte e figurino: Donald Graham Burt (design de produção) e Alex Bovaird (figurino)
Fotografia: Ben Kutchins
Trilha sonora: Cristobal Tapia de Veer, com Kim Neundorf como compositora adicional; tema de abertura "Renaissance"
Plataforma de exibição: HBO e HBO Max (no Brasil, na plataforma de streaming da HBO)
Premiações, festivais e reconhecimento: 12 indicações ao Primetime Emmy e 11 ao Creative Arts Emmy, com cinco prêmios somados, entre eles o de atriz coadjuvante para Jennifer Coolidge. No Rotten Tomatoes, a temporada tem 94% de aprovação, e no Metacritic, nota 81.
Fontes:
Deadline, Hollywood Life, Inverse, Out, Variety, Vulture, Wikipedia