Rhiannon Lewis passa pelas pessoas sem deixar marca. Em Carnsham, cidade fictícia da Inglaterra, ela trabalha num jornal local e cuida da rotina ao lado do pai. A vida segue em volume baixo até que o pai morre e o antigo valentão da escola volta à cidade, e alguma coisa se rompe dentro dela.
A série britânica usa esse ponto de ruptura para tratar de um desejo bem comum: ser visto, aceito e respeitado. O humor negro deixa o assunto mais leve, mas a ferida continua à mostra o tempo todo.
Invisível, ferida e cheia de raiva
Rhiannon é educada demais. Ela engole desaforo no trabalho, na rua e no namoro, até chegar ao limite. A primeira morte aparece como um estouro emocional e não como plano frio, o que explica a graça incômoda da série: rimos do absurdo, mas reconhecemos a raiva de quem sempre ficou calado.
O roteiro fica mais interessante no episódio seguinte. Com a vítima descoberta, Rhiannon tenta descobrir quem ele era e se merecia o que aconteceu. Ela busca uma desculpa moral para continuar se achando uma boa pessoa, e a série deixa claro que isso é tão perigoso quanto o crime.
Ella Purnell, que também é produtora executiva, contou à Variety que assistiu a cerca de 50 produções sobre assassinas em série para se preparar. A pesquisa aparece na atuação, cheia de pequenos desvios entre a timidez e a frieza.
Julia, a valentona que vira espelho
No terceiro episódio, Rhiannon vai atrás da maior inimiga, Julia Blenkingsopp. Com Julia trancada na garagem, a lógica do poder se inverte. A vitória, porém, tem um gosto estranho, porque humilhar alguém não cura a própria humilhação. Rhiannon quer provar que não é mais a "perdedora" de antigamente, e é essa necessidade de provar que a mantém presa ao passado.
Aos poucos, Julia deixa de ser caricatura. Surge uma mulher que também vive sob pressão, numa relação tóxica com o noivo, Marcus. As duas fazem uma trégua desconfortável que se aproxima de amizade, e Rhiannon desiste de matá-la. No fim, Julia compra uma passagem de avião com o cartão de Rhiannon e some do mapa. A série mostra, sem dar sermão, que quem machuca e quem é machucado muitas vezes se parecem mais do que admitem.
Craig, AJ e o preço de ser aceita
Craig representa o afeto que exige esforço. Na leitura de Rhiannon, ele a aceita apenas porque ela se empenha em agradá-lo. AJ, colega do jornal, oferece o oposto: gosta dela sem pedir atuação. Quando Rhiannon percebe isso, encerra com Craig e passa a noite com AJ. O título do último episódio, "Vida 2.0", sugere que ela finalmente começou de novo.
O recomeço dura pouco. AJ liga a faca do pai de Rhiannon aos crimes e a chama de monstro, e ela reage esfaqueando-o, até a irmã Seren chegar e encontrá-la chorando sobre o corpo. A ironia é cruel: justamente ao encontrar um carinho sincero, ela o destrói. Rhiannon se transforma no tipo de pessoa que mais odiava, alguém que fere para se proteger. Enquanto isso, Marina segue tentando fazer justiça pelas vítimas, o que mantém a tensão para o futuro.
O que sobra depois da vingança
Sweetpea funciona porque nunca deixa o riso apagar o desconforto. A protagonista é engraçada, simpática e assustadora ao mesmo tempo, e a plateia fica dividida entre torcer por ela e temer por quem está por perto.
A forma também ajuda a contar a história. A abertura, criada pelo Peter Anderson Studio, mistura o cotidiano com o macabro e mergulha na mente fragmentada de Rhiannon. O trabalho rendeu o BAFTA de Títulos e Identidade Gráfica em 2025. A série foi renovada, e a 2ª temporada está prevista para novembro de 2026.
A temporada termina com uma pergunta: se ser notada custa a própria humanidade, vale a pena?
Asista o trailer da 1ª temporada da série Sweetpea:
Ficha técnica da temporada:
Nome: Sweetpea (título mantido no Brasil) | Sweetpea | Reino Unido | 2024
Temporada: 1ª
Episódios: 6 (Meus Pêsames / Esse Tipo de Coisa Precisa de um Toque Feminino / Manchas Pretas Na Garagem / Todo Mundo Ama a Julia / Alguém Andou Aprontando / Vida 2.0)
Duração: 41 a 50 minutos por episódio
Estreia: 10 de outubro de 2024 (Sky Atlantic); final em 15 de novembro de 2024
Criador: Kirstie Swain
Obra original ou base literária: romance Sweetpea (2017), de C.J. Skuse
Desenvolvimento: Kirstie Swain, com Ella Purnell envolvida desde a sala de roteiristas, um ano antes das filmagens
Direção: Ella Jones
Roteiro: Kirstie Swain, Krissie Ducker, Laura Jayne Tunbridge e Selina Lim
Elenco: Ella Purnell (Rhiannon Lewis), Nicôle Lecky (Julia Blenkingsopp), Jon Pointing (Craig), Calam Lynch (AJ Pierce), Leah Harvey (Marina Farrar), Jeremy Swift (Norman), Dustin Demri-Burns (Jeff Barker)
Participação especial: não há participações oficialmente creditadas como especiais. Coadjuvantes de destaque: Dino Kelly (Marcus Rebac), Tim Samuels (Phil), Camille Coduri (Carol), Nitin Ganatra (Rory)
Gênero: comédia dramática, humor negro e suspense
Produção: See-Saw Films e Sky Studios; produtora Zorana Piggott; produtores executivos Ella Purnell, Ella Jones, Kirstie Swain, Helen Gregory, Iain Canning, Emile Sherman e Patrick Walters
Distribuição: Sky Atlantic (Reino Unido) e Starz (EUA)
Orçamento estimado: não divulgado nas fontes consultadas
Locações: Londres (a cidade de Carnsham é fictícia)
Direção de arte: Simon Walker (design de produção)
Figurino: Jo Thompson
Fotografia: Nick Morris
Trilha sonora: Isobel Waller-Bridge; tema de abertura "Do You See Me Now", de Chinchilla
Plataforma de exibição: Sky/NOW (Reino Unido), Starz (EUA); no Brasil, o Prime Video lista a série no canal Starz
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: BAFTA TV Craft 2025 de Títulos e Identidade Gráfica (Peter Anderson Studio)
Fontes:
AdoroCinema, BAFTA, Collider, IMDb, Prime Video, STASH, Screen Rant, Sky Group, The Cinemaholic, TheTVDB, Variety, Wikipedia