Existe um tipo de série que vive de perguntas. Não porque seus criadores não tenham respostas, mas porque o ato de não saber é exatamente o que mantém o espectador colado à tela, ansioso, formulando teorias e voltando semana após semana para mais um pedaço de enigma. Origem — o nome que a série americana From ganhou no Brasil — é esse tipo de série. E a sua terceira temporada, lançada em setembro de 2024, representa ao mesmo tempo o ponto mais ambicioso e o mais tenso da série até aqui: ambicioso porque finalmente começa a revelar as camadas mais profundas do mistério, e tenso porque o risco de decepcionar uma base de fãs ávida por respostas nunca foi tão alto.
Para quem ainda não conhece, a premissa de Origem é simples e perturbadora: uma família americana, os Matthews, acaba parando numa cidade perdida no interior dos Estados Unidos. Uma cidade de onde ninguém consegue sair. As estradas levam de volta ao mesmo ponto. Os campos de rádio não alcançam ninguém. E quando o sol se põe, criaturas humanoides e aterrorizantes emergem das florestas ao redor para caçar qualquer um que ouse ficar do lado de fora. Os moradores sobrevivem como podem, trancados em suas casas à noite, tentando manter alguma aparência de normalidade durante o dia, enquanto buscam uma saída que parece não existir. A série estreou em 2022 e, desde então, angariou uma legião de fãs que comparam sua atmosfera à de Lost, ao horror sobrenatural de Twin Peaks e à claustrofobia de Under the Dome — e não é à toa que Jack Bender, produtor executivo de Origem, também esteve por trás de Lost.
A terceira temporada arranca de onde a segunda havia parado — literalmente. Tabitha Matthews (Catalina Sandino Moreno) conseguiu escapar da cidade ao saltar de um farol e acorda em um hospital no Maine, no mundo real, sem saber como chegou ali e sem entender o que acabou de acontecer. Enquanto isso, dentro da cidade, o inverno começa a cair com força, e o xerife Boyd Stevens (Harold Perrineau) tenta, como sempre, manter as coisas sob controle numa comunidade cada vez mais desesperada, com comida escasseando e o moral no chão.
Esse ponto de partida tem tudo para funcionar — e nos primeiros episódios, funciona muito bem. A cisão narrativa entre Tabitha lá fora e todos os outros ainda presos dentro da cidade cria um contraste interessante e abre novos ângulos sobre a natureza do lugar. A série sempre soube usar o espaço físico da cidade como personagem, e aqui não é diferente: ver os arredores cobertos de neve, com recursos diminuindo, acrescenta uma camada de urgência que as temporadas anteriores ainda não tinham explorado com essa intensidade.
Harold Perrineau continua sendo a âncora emocional da série. Boyd Stevens é um personagem que carrega o peso de ser o responsável por todos sem nunca ter pedido esse papel, e o ator — conhecido do público de Lost, onde interpretou Michael — o traz com uma dignidade cansada que convence a cada cena. Quando Boyd vacila, quando demonstra que está perto do limite, o espectador sente — e isso é o que mantém a série com um pé no chão, por mais sobrenatural que seja o que acontece ao redor.
Se os primeiros episódios prometem e entregam, a parte do meio da temporada desacelera de um jeito que pode frustrar quem busca respostas rápidas. Essa é, aliás, uma crítica recorrente à série como um todo: Origem, assim como Lost antes dela, opera num ritmo deliberadamente lento, onde cada revelação vem acompanhada de três novos mistérios. Quem já está acostumado com essa lógica tem mais paciência. Quem entrou esperando uma progressão mais linear pode se sentir perdido ou entediado.
Há episódios no meio da temporada que parecem marcar tempo — subtramas que se esticam além do necessário, personagens secundários que recebem foco sem que isso pareça avançar a narrativa principal de forma significativa. Jade Herrera (David Alpay), o ex-desenvolvedor de software que chegou à cidade com os Matthews, tem uma jornada particularmente errática: ora ele parece o centro de uma revelação crucial, ora passa episódios inteiros em segundo plano, seguindo pistas na floresta que só ganham sentido muito depois.
Dito isso, é importante separar ritmo de qualidade. A série nunca abandona sua atmosfera, e mesmo nos episódios mais lentos há cenas de tensão genuína — momentos em que uma criatura aparece no enquadramento errado, em que uma porta não fecha a tempo, em que o silêncio dura um segundo além do suportável. A direção, assinada por nomes como Jack Render, Bruce McDonald e Alexandra La Roche, mantém uma consistência visual e de tom que é rara em séries de terror televisivo.
Tudo muda no último episódio — e quando muda, muda de verdade. O décimo episódio, intitulado Revelações: Capítulo Dois, faz jus ao nome e entrega um conjunto de revelações que reposiciona tudo o que veio antes. Para falar sobre elas sem estragar a surpresa de quem ainda vai assistir, basta dizer o seguinte: a série finalmente revela a natureza das criaturas que aterrorizam a cidade à noite, e a resposta é ao mesmo tempo mais trágica e mais perturbadora do que qualquer teoria que os fãs haviam formulado.
Tabitha e Jade descobrem algo fundamental sobre a ligação deles com a cidade — uma conexão que vai muito além desta vida, e que transforma a lógica de toda a série. A cidade não os capturou por acaso. Há um ciclo antigo, uma dívida que se repete através de gerações, e eles estão no centro disso há muito mais tempo do que imaginavam. Julie Matthews (Hannah Cheramy), filha do casal, também recebe uma revelação sobre suas habilidades que abre possibilidades narrativas enormes para a quarta temporada.
E então há o Homem de Terno Amarelo — o antagonista sobrenatural que havia aparecido brevemente nas temporadas anteriores — que finalmente age de forma direta e ameaçadora, deixando claro que o equilíbrio frágil que os moradores mantinham está prestes a desmoronar. O final da temporada é um daqueles que ficam na cabeça por dias: não porque resolve tudo, mas porque reorganiza as perguntas de uma forma que faz o espectador querer desesperadamente ver a continuação.
Origem não é uma série para todo mundo, e ela sabe disso. Seu ritmo exige comprometimento. Seus mistérios exigem atenção a detalhes que podem parecer irrelevantes por episódios antes de ganhar sentido. E sua atmosfera — pesada, opressora, às vezes angustiante — não é exatamente entretenimento leve para uma noite de sexta-feira.
Mas para quem entra no jogo e aceita as regras da série, a recompensa é considerável. Origem é uma das poucas produções de terror televisivo que constrói um mundo genuinamente original, com sua própria mitologia, suas próprias regras internas e uma lógica sobrenatural que vai ganhando coerência à medida que avança. A terceira temporada consolida isso ao mesmo tempo que admite que o caminho ainda é longo — e isso, curiosamente, é tanto um elogio quanto uma advertência.
A série já foi renovada para uma quarta temporada, confirmando que os criadores têm um plano e estão dispostos a seguir até o fim. Num cenário televisivo onde histórias são canceladas antes de terminar ou esticadas além do razoável apenas por questões comerciais, isso é um alívio. A questão é se o público terá paciência suficiente para chegar lá — e se a série conseguirá manter o equilíbrio delicado entre mistério e revelação que a define.
Por enquanto, Origem continua sendo uma das experiências mais singulares do terror televisivo contemporâneo. Imperfeita, às vezes frustrante, mas genuinamente única. E isso, em 2024, já é muito.
Assista ao trailer da 3ª temporada da série Origem:
Ficha técnica da Temporada:
Nome: Origem (Brasil) | From (EUA) | 2024
Desenvolvimento/Criação: John Griffin
Direção: Jack Render, Bruce McDonald, Alexandra La Roche
Roteiro: John Griffin, Jeff Pinkner, Brigitte Hales, Kristen Layden
Elenco: Harold Perrineau, Catalina Sandino Moreno, Eion Bailey, David Alpay, Elizabeth Saunders, Scott McCord, Ricky He, Chloe Van Landschoot, Simon Webster, Avery Konrad, Hannah Cheramy, Corteon Moore, Pegah Ghafoori, Elizabeth Moy, Kaelem Ohm, A.J. Simmons, Nathan D. Simmons, Angela Moore, Deborah Grover
Gênero: Terror / Ficção Científica / Mistério / Suspense
Produção: AGBO (Anthony e Joseph Russo), Midnight Radio
Distribuição: MGM+ (EUA); Max (Brasil e Portugal); Paramount+ (Canadá e Itália); Stan (Austrália); Sky Sci-Fi (Reino Unido)
Duração: Aproximadamente 45 a 53 minutos por episódio (10 episódios)
Orçamento estimado: Não divulgado oficialmente
Locações: North Beaver Bank, Halifax e Oakfield Provincial Park — Nova Escócia, Canadá
Direção de arte e figurino: Não creditados publicamente para a temporada 3
Trilha sonora: Composições originais integradas à produção (não divulgadas separadamente)
Plataforma de exibição: Max (Brasil)
Fontes:
AdoroCinema, Fandom, Plano Crítico, Primetimer, Rotten Tomatoes, Screen Rant — From Season 3 Ending Explained, Screen Rant — Jade & Tabitha Reincarnation Twist, Sportskeeda, The Digital Weekly, Wikipedia
Referências:
Se você quiser se aprofundar ainda mais no universo de Origem, vale a pena conferir os artigos completos sobre cada temporada disponíveis no site. Neles, você encontra análises detalhadas dos mistérios da cidade, da evolução dos personagens e das descobertas que ampliam gradualmente a compreensão sobre aquele lugar cercado por criaturas noturnas, fenômenos inexplicáveis e segredos cada vez mais perturbadores.
Assim, fica mais fácil acompanhar a construção desse complexo quebra-cabeça sobrenatural, compreender as transformações vividas pelos moradores ao longo da trama e perceber como cada nova temporada expande os enigmas, as teorias e os perigos que cercam a cidade de Origem.