A franquia The Walking Dead sempre colocou a sobrevivência no centro da história, mas esta minissérie de seis episódios, exibida em 2024, muda o foco. O maior desafio de Rick Grimes e Michonne deixa de ser os zumbis e passa a ser a distância que os anos impuseram entre os dois, além das pessoas em que cada um se transformou durante a separação.
A trama continua do ponto em que a série original deixou Rick, levado por um helicóptero de uma organização militar misteriosa enquanto Michonne seguia o rastro dele. O título vem de uma frase repetida ao longo da saga, a que fala dos que ainda vivem, e já indica que o assunto principal é o que significa continuar vivo por dentro.
Um casal que precisa se reencontrar duas vezes
O reencontro de Rick e Michonne não resolve nada de imediato, e é justamente aí que a minissérie se mostra mais interessante. Cada um viveu anos de perdas e de decisões duras sem a presença do outro, de modo que o amor continua, mas as pessoas já são diferentes. Rick carrega a culpa de ter ficado longe dos filhos, enquanto Michonne traz a teimosia de quem se recusou a aceitar que ele estava morto.
O quarto episódio, escrito pela própria Danai Gurira, concentra essa tensão em um apartamento abandonado, onde o casal finalmente para de correr e precisa conversar. O espaço fechado funciona como um espelho, porque, sem um perigo imediato para distrair, surgem as mágoas, o cansaço e a dúvida sobre se ainda existe um "nós". A série mostra que reencontrar alguém exige aceitar também quem essa pessoa se tornou.
Rick, o soldado que quase esquece de si
Dentro da CRM, a organização militar que o mantém sob seu controle, Rick aprende a obedecer para sobreviver. Ele ganha uma rotina, uma função e a promessa de um lugar seguro, e em troca precisa guardar a vontade de voltar para casa em um canto escondido da mente. Os primeiros episódios mostram o desgaste dessa espera, a ponto de ele duvidar se ainda vale a pena resistir.
O que torna esse processo comovente é que Rick sustenta a própria identidade por meio de pequenas lembranças, como a imagem da família e o desejo de rever os filhos. A figura do general Beale, vivido por Terry O'Quinn, reforça o conflito ao representar uma ordem que parece protetora, mas que exige que cada pessoa se torne uma peça da engrenagem. Nesse ambiente, manter a própria humanidade passa a ser uma forma discreta de rebeldia.
Michonne, Jadis e o preço da liberdade
Michonne parte do lugar oposto ao de Rick, porque sua jornada nasce de uma escolha, e não de uma imposição. Ela atravessa o caminho com a ajuda de Nat e enfrenta a própria dor com a determinação que sempre a definiu, mas descobre que a liberdade também cobra um preço emocional. Cada passo em direção a Rick a obriga a encarar o que ficou para trás, inclusive a parte dela que precisou endurecer.
A presença de Jadis, interpretada por Pollyanna McIntosh, e de Pearl Thorne, vivida por Lesley-Ann Brandt, mostra que a CRM também é feita de pessoas com histórias próprias, muitas delas em busca de uma saída. Isso complica a divisão entre heróis e vilões, já que o sistema oprime, mas abriga gente que apenas tenta se manter de pé. É esse tom mais cinzento que dá peso moral ao conflito e impede que a trama se resuma a uma fuga.
O que fica depois da guerra
A minissérie funciona porque transforma um romance em um ato de coragem, já que amar, nesse mundo, é uma decisão tomada todos os dias, mesmo quando o cansaço pede o contrário. O desfecho, com o retorno do casal para casa e o encontro de Rick com o filho RJ, recompensa a longa espera com um fecho mais emotivo do que espetacular. A resolução entrega ao público a sensação de que o afeto foi o verdadeiro motor da história.
Para quem não acompanhou a série original, vale saber que muitas referências exigem conhecimento prévio, e o ritmo acelerado deixa alguns acontecimentos sem o tempo ideal de maturação, como apontou parte da crítica. Ainda assim, a produção deixa uma ideia que vai além do gênero, a de que viver não é apenas escapar da morte, mas manter vivo aquilo que dá sentido à vida.
Assista o trailer da minissérie The Walking Dead: The Ones Who Live:
Ficha técnica da minissérie:
Nome: The Walking Dead: The Ones Who Live (Brasil, título mantido) | The Walking Dead: The Ones Who Live | Estados Unidos | 2024
Criador: Scott M. Gimple, Danai Gurira e Andrew Lincoln
Obra original ou base literária: HQ The Walking Dead, de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard
Desenvolvimento: Scott M. Gimple (showrunner), com Danai Gurira e Andrew Lincoln como cocriadores e produtores executivos
Direção: Bert & Bertie (dupla formada por Amber Templemore-Finlayson e Katie Ellwood), responsáveis pelos dois primeiros episódios
Roteiro: Scott M. Gimple (episódio 1), Nana Nkweti e Channing Powell (episódio 2), Danai Gurira (episódio 4), entre outros
Elenco: Andrew Lincoln (Rick Grimes), Danai Gurira (Michonne), Pollyanna McIntosh (Jadis Stokes), Terry O'Quinn (General Jonathan Beale), Lesley-Ann Brandt (Pearl Thorne), Craig Tate (Tenente-Coronel Donald Okafor), Matthew August Jeffers (Nat)
Participação especial: Antony Azor (Rick "R.J." Grimes Jr.), Cailey Fleming (Judith Grimes), Seth Gilliam (Gabriel Stokes), conforme créditos divulgados
Gênero: Drama, terror, pós-apocalíptico e romance
Produção: AMC Studios
Distribuição: AMC Networks
Orçamento estimado: cerca de US$ 82,75 milhões (aproximadamente US$ 13,7 milhões por episódio)
Locações: Nova Jersey (EUA), em regiões do norte e do centro do estado
Direção de arte e figurino: design de produção de Jeff Schoen (figurino sem crédito confirmado nas fontes consultadas)
Trilha sonora: Sam Ewing, com produção de Bear McCreary
Temporada: 1 (minissérie)
Episódios: 6
Duração: entre cerca de 69 e 80 minutos por episódio
Plataforma de exibição: AMC e AMC+ (EUA); Prime Video (Brasil, a partir de 19 de abril de 2024)
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: não recebeu indicações ao Emmy de 2024; foi apontada como a série derivada mais bem avaliada da franquia no Rotten Tomatoes, com destaque da crítica para o episódio 4, "What We"
Fontes:
Apple TV, Canaltech, Dark Horizons, Empire, Film Music Reporter, Malay Mail, NJEDA, Omelete, SlashFilm, The Mary Sue, TheWrap, TVLine, Wikipedia