Tudo começa num estacionamento de loja de materiais de construção. Dois carros, duas buzinas, um gesto obsceno. O que poderia terminar ali — como tantas microagressões do cotidiano urbano — se transforma, em Treta (Beef, 2023), no gatilho de uma guerra particular que expõe as fissuras de duas existências à beira do colapso.
A série criada por Lee Sung Jin não está interessada apenas na escalada de vinganças entre Danny Cho e Amy Lau. O que realmente importa é o que essa briga revela sobre quem eles são quando ninguém está olhando: pessoas cansadas, invisíveis, carregando o peso de expectativas familiares, fracassos profissionais e uma solidão que não sabem nomear.
Danny é um empreiteiro coreano-americano que mal consegue pagar as contas, mora com o irmão mais novo Paul e sente o fracasso como uma segunda pele. Amy, por sua vez, é uma empresária sino-vietnamita de sucesso aparente, casada com George, um artista que fica em casa cuidando da filha June, mas cuja vida perfeita esconde um vazio existencial crescente.
O que torna Treta tão perturbadora — e tão humana — é como a raiva se transforma na única linguagem que Danny e Amy conseguem falar com autenticidade. No trabalho, na família, nas redes sociais, ambos performam versões aceitáveis de si mesmos. Mas na briga, sem máscaras, eles finalmente se sentem reais.
A série não romantiza essa violência emocional. Pelo contrário: mostra como a obsessão pelo outro consome energia, destrói relacionamentos e leva a escolhas cada vez mais extremas. Danny invade a casa de Amy; Amy sabota o negócio de Danny; os dois se perseguem por Los Angeles como personagens de um thriller psicológico que, a cada episódio, fica menos sobre quem tem razão e mais sobre por que precisam tanto um do outro.
Há algo quase romântico nessa dinâmica — não no sentido convencional, mas na ideia de que apenas o outro é capaz de enxergar a verdade nua e crua. Danny vê a fachada de perfeição de Amy desmoronar; Amy testemunha a humilhação constante de Danny. Eles se tornam, paradoxalmente, as únicas pessoas que realmente se conhecem.
Treta não ignora o contexto cultural de seus protagonistas. Danny e Amy são filhos de imigrantes asiáticos nos Estados Unidos, e a série toca em questões de identidade racial sem transformá-las em lição de moral. A raiva deles não vem apenas do racismo estrutural — vem também da pressão interna de corresponder a um ideal de sucesso que nunca parece suficiente.
Danny carrega o fracasso como herança: os pais perderam o motel da família e voltaram para a Coreia; o irmão Paul é visto como irresponsável; ele próprio não consegue fechar contratos. Sua masculinidade é constantemente questionada — pelo mercado, pela família, por si mesmo.
Amy, por outro lado, vive a armadilha da mulher bem-sucedida: tem dinheiro, status, uma casa bonita, mas sente que nada disso preenche o buraco dentro dela. Seu marido George é afetuoso, mas não a compreende de verdade; sua mãe Fumi é crítica e distante; sua melhor amiga Naomi representa tudo que Amy gostaria de ser — leve, espontânea, livre.
Visualmente, Treta opera num registro que mistura realismo sujo com momentos de quase surrealismo. Los Angeles não é a cidade ensolarada dos cartões-postais: é um espaço claustrofóbico, cheio de estacionamentos vazios, motéis baratos, escritórios envidraçados que parecem aquários. A direção de arte e o figurino reforçam essa divisão de classes: Danny veste roupas largas, desgastadas; Amy usa tons neutros, elegantes, mas sempre um pouco rígidos demais.
A trilha sonora é outro personagem. A série aposta em hits angustiantes dos anos 1990 e 2000 — Hoobastank, Limp Bizkit, Smashing Pumpkins, Tori Amos — que funcionam como trilha emocional da raiva reprimida de uma geração. A partitura original, de Bobby Krlic (The Haxan Cloak), adiciona camadas de tensão quase horrorosa, como se o inferno não fosse um lugar, mas um estado mental.
Sem revelar detalhes cruciais, o final da temporada aponta para uma possibilidade de trégua — não porque Danny e Amy resolvam seus problemas, mas porque finalmente se veem como espelhos um do outro. A briga termina não com vitória, mas com exaustão. E nessa exaustão, talvez, haja espaço para algo novo.
A série não oferece respostas fáceis. Não há lição de moral sobre "perdoar" ou "superar". O que há é o reconhecimento de que a raiva, por mais destrutiva que seja, também é um sintoma de algo mais profundo: a necessidade de ser visto, de importar-se, de existir de verdade.
Treta é uma das séries mais honestas sobre a vida contemporânea lançadas nos últimos anos. Fala de fracasso, de solidão, de identidade, de raiva — mas fala sem julgamento, sem romantização, sem atalhos. Danny e Amy não são heróis nem vilões: são pessoas reais, quebradas, tentando sobreviver num mundo que não deixa espaço para vulnerabilidade.
A série funciona tanto como thriller psicológico quanto como estudo de personagens. Funciona para quem busca entretenimento tenso e para quem quer refletir sobre o que significa ser humano hoje. E, acima de tudo, funciona porque não tem medo de mostrar o lado feio da alma — e de sugerir que, talvez, seja exatamente aí que comece a possibilidade de mudança.
Legenda: Steven Yeun e Ali Wong em cena de tensão crescente: as performances dos dois atores foram amplamente elogiadas pela crítica, rendendo prêmios Emmy e Critics Choice.
Assista o trailer da 1ª temporada da série Treta:
Nome: Treta (Brasil) | Beef (EUA/exterior) | Estados Unidos | 2023
Criador: Lee Sung Jin
Obra original ou base literária: Série original, sem base literária
Desenvolvimento: A24 Television para Netflix; showrunner Lee Sung Jin
Direção: Hikari (ep. 1, 4, 5); Jake Schreier (ep. 2, 3, 6, 7, 8, 9); Lee Sung Jin (ep. 10)
Roteiro: Lee Sung Jin (ep. 1, 7, 8, 9, 10); Alice Ju (ep. 2); Carrie Kemper (ep. 3); Alex Russell (ep. 4); Marie Hanhnhon Nguyen & Niko Gutierrez-Kovner (ep. 5); Joanna Calo (ep. 6); Kevin Rosen (ep. 7); Jean Kyoung Frazier (ep. 8)
Elenco principal: Steven Yeun (Danny Cho), Ali Wong (Amy Lau), Joseph Lee (George Nakai), Young Mazino (Paul Cho), David Choe (Isaac Cho), Patti Yasutake (Fumi Nakai), Remy Holt (June), Ashley Park (Naomi), Maria Bello (Jordan), Justin H. Min (Edwin)
Gênero: Comédia dramática, thriller psicológico, tragicomédia
Produção: A24 Television; produtores executivos: Lee Sung Jin, Steven Yeun, Ali Wong, Jake Schreier, Michael Schur, Natalie Krinsky, David Bernad, James Weaver
Distribuição: Netflix (mundial)
Episódios: 10
Duração: Aproximadamente 30–38 minutos por episódio
Orçamento estimado: Não divulgado publicamente (produção A24/Netflix de médio porte)
Locações: Los Angeles e região metropolitana (Califórnia, EUA)
Direção de arte e figurino: Direção de arte sob supervisão da produção A24; figurino reflete divisão de classes entre personagens (não há créditos específicos amplamente divulgados em fontes abertas)
Trilha sonora: Trilha original por Bobby Krlic (The Haxan Cloak); soundtrack com canções dos anos 1990–2000 (Hoobastank, Limp Bizkit, Smashing Pumpkins, Tori Amos, Christina Aguilera, Incubus, entre outros)
Plataforma de exibição: Netflix
Premiações, participação em festivais e reconhecimento:
Estreia no SXSW Festival (18 de março de 2023)
Emmy 2023: Melhor Série Limitada ou Antológica; Melhor Ator (Steven Yeun); Melhor Atriz (Ali Wong); Melhor Direção (Lee Sung Jin); Melhor Roteiro (Lee Sung Jin)
Critics Choice Awards 2024: Melhor Série Limitada; Melhor Ator (Steven Yeun); Melhor Atriz (Ali Wong); Melhor Ator Coadjuvante (Young Mazino); Melhor Atriz Coadjuvante (Maria Bello)
Golden Globe 2024: Indicações e vitórias em categorias de série limitada
Amplamente elogiada pela crítica (Rotten Tomatoes: alta aprovação)
Every song on Beef soundtrack, IGN, Imdb, Journal.kci.go.kr, Latimes, Lee Sung Jin, Music.apple, Rottentomatoes, Screenrant, Tvline, Wikipedia TV Series, Wikipedia Beef (série)