A primeira temporada de The Morning Show terminou com uma ruptura. Alex Levy (Jennifer Aniston) e Bradley Jackson (Reese Witherspoon) decidiram expor ao vivo a cultura de abuso e proteção interna que havia permitido a Mitch Kessler (Steve Carell) manter sua posição durante anos. A segunda temporada começa justamente no momento em que a sensação de vitória desaparece. A denúncia produziu consequências, mas não transformou automaticamente a estrutura que havia permitido tudo aquilo.
É nesse espaço entre a revelação e a mudança que a série encontra seu principal conflito. A nova temporada, lançada em 17 de setembro de 2021, tem dez episódios e coloca seus personagens diante de um ambiente profissional transformado, mas ainda dominado pela disputa por audiência, reputação e poder. A própria Apple descreveu a temporada como uma história sobre uma UBA renovada e um mundo em transformação, no qual a distância entre aquilo que mostramos e aquilo que realmente somos passa a ocupar o centro da narrativa.
A temporada também incorpora acontecimentos contemporâneos, sobretudo a chegada da pandemia de Covid-19, além dos debates sobre racismo, identidade, sexualidade e responsabilidade pública. Mas seu aspecto mais interessante não está simplesmente nos grandes acontecimentos. Está na maneira como cada personagem tenta sobreviver a eles sem abrir mão da imagem que construiu de si mesmo.
Alex é talvez a personagem que melhor representa a contradição central da segunda temporada. Ela passou anos construindo uma imagem de profissional segura, elegante e competente. Seu poder não depende apenas do talento diante das câmeras, mas também da capacidade de controlar aquilo que os outros pensam sobre ela.
Depois da exposição de Mitch, porém, esse controle começa a desaparecer.
Alex deixa o programa, tenta se afastar daquele universo e, ao mesmo tempo, percebe que sua identidade está profundamente ligada ao trabalho que decidiu abandonar. O retorno ao The Morning Show não é simplesmente uma volta profissional. É uma tentativa de recuperar uma parte de si mesma.
Jennifer Aniston constrói a personagem com uma tensão que raramente precisa ser verbalizada. Alex não é uma heroína tradicional, nem pretende ser. Ela é alguém que aprendeu a sobreviver dentro de um sistema competitivo e que, em determinados momentos, também se beneficiou dele. Por isso, sua relação com o passado não pode ser resolvida por uma simples confissão.
A temporada trabalha justamente essa zona cinzenta. Alex sabe que foi vítima de determinadas estruturas, mas também sabe que fez escolhas para permanecer no topo. Essa consciência impede que sua trajetória seja reduzida a uma narrativa de redenção.
A televisão, nesse sentido, funciona como um espelho. Quanto mais Alex tenta controlar sua imagem, mais percebe que a imagem pública possui vida própria.
Bradley começou a série como uma espécie de corpo estranho dentro da televisão tradicional. Sua espontaneidade, sua origem profissional e sua dificuldade de seguir convenções fizeram dela uma personagem atraente justamente porque parecia não pertencer àquele universo.
Na segunda temporada, porém, essa característica passa a ser também uma armadilha.
Bradley começa a experimentar as consequências da fama e percebe que sua vida pessoal pode ser tão valiosa para a mídia quanto seu trabalho jornalístico. A televisão que antes parecia interessada em sua autenticidade passa a ter interesse também em transformar essa autenticidade em mercadoria.
É um dos conflitos mais interessantes da temporada porque coloca em questão uma ideia muito presente na cultura contemporânea: a de que ser verdadeiro diante do público é necessariamente uma forma de liberdade.
Bradley descobre que não é tão simples. Quando uma pessoa pública revela algo sobre si, a revelação deixa de pertencer exclusivamente a ela. Passa a ser comentada, interpretada, explorada e, eventualmente, comercializada.
Sua relação com Alex também se modifica. As duas continuam ligadas por uma mistura de admiração, ressentimento, competição e necessidade. Não são exatamente amigas, mas também não conseguem simplesmente se afastar. A televisão criou entre elas uma intimidade profissional difícil de romper.
A força da relação está justamente nessa ambiguidade. Alex representa o modelo antigo de poder; Bradley representa uma possibilidade de mudança. Mas ambas descobrem que nenhuma delas está completamente livre das regras do jogo.
Cory Ellison, interpretado por Billy Crudup, continua sendo uma das figuras mais fascinantes da série. Ele entende a televisão como um jogo de influência, negociação e percepção. Para Cory, uma crise pode ser também uma oportunidade.
O problema é que, na segunda temporada, ele passa a ocupar uma posição na qual suas decisões têm consequências maiores. A chegada de novos executivos e personagens, como Stella Bak (Greta Lee), coloca Cory diante de uma mudança geracional dentro da própria empresa.
Stella simboliza uma nova visão empresarial, mais conectada à tecnologia e às transformações culturais. Cory, embora seja extremamente adaptável, pertence a uma geração que aprendeu a dominar a televisão tradicional. Ele percebe que o poder que conhece pode estar começando a perder valor.
Sua relação com Bradley acrescenta uma dimensão emocional ao personagem. Cory demonstra interesse por ela que ultrapassa as conveniências profissionais, mas sua dificuldade em separar afeto, estratégia e controle revela uma característica fundamental: ele costuma tentar administrar sentimentos da mesma forma que administra crises.
É justamente aí que a personagem ganha profundidade. Cory parece poderoso porque sabe manipular situações, mas sua maior fragilidade é acreditar que pode controlar tudo.
A segunda temporada faz uma escolha controversa ao dedicar espaço considerável a Mitch. Depois de tudo o que foi revelado sobre seu comportamento, a série poderia simplesmente tê-lo transformado em um personagem ausente. Em vez disso, acompanha sua tentativa de reconstruir a vida longe da televisão.
Essa decisão é importante porque não significa necessariamente absolvição. A série passa a investigar uma pergunta desconfortável: o que acontece quando alguém que ocupava uma posição de enorme poder perde essa posição?
Mitch continua incapaz de compreender completamente a dimensão do dano que provocou. Sua percepção sobre si mesmo entra em conflito com aquilo que as outras pessoas passaram a enxergar nele.
A temporada não pede que o espectador esqueça suas ações. Pelo contrário, a presença constante das consequências funciona como lembrança de que o homem que se considera vítima de uma cultura que mudou também participou ativamente dela.
O episódio ambientado na Itália é particularmente significativo porque desloca Mitch para um espaço distante da lógica da televisão americana. A mudança de cenário, porém, não significa uma mudança interior automática. Ele leva consigo a própria história.
A Itália funciona quase como uma zona de suspensão, onde Mitch tenta descobrir quem é quando já não pode se definir pelo cargo, pelo prestígio ou pela audiência.
Mia Jordan é uma das personagens que mais ganham importância na segunda temporada. Ela não possui o mesmo poder institucional de Cory ou Alex, mas exerce uma influência decisiva sobre o ambiente ao seu redor.
Sua trajetória é especialmente interessante porque não se constrói a partir de grandes discursos. Mia precisa lidar diariamente com pessoas, interesses e decisões que raramente apresentam uma resposta moral perfeita.
Ela representa uma realidade muito mais próxima da experiência de muitos profissionais: trabalhar dentro de uma estrutura que se deseja transformar sem ter poder suficiente para reconstruí-la completamente.
Essa posição também permite que a série explore as consequências da cultura criada por Mitch. O problema não desaparece quando o responsável é afastado. Ele permanece nas relações, nas lembranças e na desconfiança entre os funcionários.
A segunda temporada entende que ambientes tóxicos não são apenas produzidos por indivíduos isolados. Eles também são sustentados por silêncios, conveniências e pequenas decisões cotidianas.
A Apple apresentou a segunda temporada justamente a partir dessa ideia de identidade: aquilo que somos e aquilo que mostramos ao mundo.
A questão atravessa praticamente todos os personagens.
Alex precisa decidir quem é sem o programa. Bradley precisa descobrir até onde pode revelar sua vida sem perder o direito à privacidade. Cory tenta separar estratégia e sentimento. Mitch procura compreender quem é depois de perder o reconhecimento social.
Até a própria UBA passa por um processo semelhante. A empresa deseja parecer renovada depois do escândalo, mas continua funcionando segundo mecanismos de audiência, competição e poder.
Esse é um dos simbolismos mais fortes da temporada. O estúdio de televisão representa uma espécie de palco permanente. Todos estão sempre sendo observados, mesmo quando não estão diante das câmeras.
A diferença entre vida privada e vida pública vai diminuindo até quase desaparecer.
A chegada da Covid-19 modifica o final da temporada e altera o sentido de tudo o que vinha sendo construído. A série acompanha a aproximação da pandemia e transforma o ambiente de notícias em um espaço ainda mais pressionado pela necessidade de informar enquanto os próprios profissionais enfrentam incerteza.
A escolha de incluir a pandemia foi discutida na época como uma maneira de fazer com que uma série sobre jornalismo reagisse ao acontecimento que dominava o mundo real.
O resultado é particularmente interessante porque a doença funciona como algo maior que uma nova trama. Ela representa a chegada de uma realidade que não pode ser controlada pelo roteiro dos personagens.
Durante toda a temporada, Alex, Bradley e Cory tentam controlar narrativas. A pandemia destrói essa possibilidade. Pela primeira vez, a realidade parece maior do que qualquer estratégia de comunicação.
O próprio conceito de “show” ganha outro significado. Como continuar oferecendo ao público a sensação de normalidade quando a normalidade deixou de existir?
A morte de Mitch representa o encerramento de uma etapa, mas não resolve o problema que sua existência revelou.
Esse é um ponto importante. Se a série tratasse sua morte como uma espécie de punição definitiva, estaria simplificando demais aquilo que passou duas temporadas construindo. O verdadeiro conflito nunca foi apenas Mitch. Ele era o sintoma de um sistema muito maior.
A sua ausência deixa um vazio justamente porque obriga os demais personagens a lidar com aquilo que ele deixou para trás. Culpa, ressentimento, vergonha, ambição e responsabilidade continuam existindo.
O passado não desaparece quando a pessoa responsável por ele desaparece.
Essa ideia atravessa a temporada inteira e ajuda a explicar por que The Morning Show não pode ser compreendida apenas como uma série sobre jornalismo. É também uma história sobre memória. Os personagens tentam seguir em frente, mas continuam carregando versões anteriores de si mesmos.
A segunda temporada de The Morning Show é mais irregular do que a primeira e, em determinados momentos, acumula conflitos demais. A recepção crítica refletiu justamente essa divisão: a temporada obteve avaliações mais moderadas, com 67% no Rotten Tomatoes e 60 no Metacritic, enquanto alguns críticos elogiaram as atuações e a capacidade da série de continuar abordando temas contemporâneos, e outros apontaram excesso de tramas e uma aproximação excessiva do melodrama.
Essa irregularidade, entretanto, não elimina seus méritos. A temporada permanece interessante quando abandona a necessidade de explicar acontecimentos e se concentra nas contradições de seus personagens.
Alex quer recuperar o controle, mas descobre que sua imagem pertence também ao público. Bradley quer ser autêntica, mas percebe que a autenticidade pode ser explorada. Cory quer administrar pessoas e situações, mas descobre que sentimentos não obedecem à mesma lógica. Mitch quer reconstruir sua vida, mas não consegue escapar daquilo que fez.
No fundo, todos estão tentando controlar a própria narrativa.
É justamente por isso que a televisão funciona tão bem como metáfora. Cada personagem está diante de uma câmera imaginária, tentando decidir qual versão de si mesmo deve apresentar. O problema é que, quando a câmera se torna permanente, já não existe uma separação clara entre personagem e pessoa.
A segunda temporada amplia, portanto, uma pergunta que estava presente desde o início da série: quem somos quando ninguém está olhando? Sua resposta é menos confortável do que parece. Talvez sejamos também aquilo que fazemos quando acreditamos que ninguém irá nos responsabilizar.
A temporada termina com o mundo entrando em uma crise que nenhum dos personagens consegue controlar. A pandemia chega como uma espécie de força exterior que interrompe jogos de poder, estratégias de imagem e disputas internas. A televisão continua ligada, mas o mundo diante dela mudou.
E essa mudança prepara o terreno para a terceira temporada, na qual a série continuará explorando o poder, a tecnologia, a informação e a fragilidade das instituições.
Assista ao trailer da 2ª temporada da série The Morning Show:
Nome: The Morning Show | Estados Unidos | 2021
Criadora/desenvolvimento: Kerry Ehrin
Direção: Mimi Leder e outros diretores
Roteiro: Kerry Ehrin e equipe de roteiristas
Elenco principal: Jennifer Aniston, Reese Witherspoon, Steve Carell, Billy Crudup, Mark Duplass, Nestor Carbonell, Karen Pittman, Greta Lee, Ruairi O'Connor, Hasan Minhaj, Julianna Margulies e Holland Taylor
Gênero: Drama
Produção: Media Res, Echo Films e Hello Sunshine
Distribuição: Apple TV+
Temporada: 2ª
Episódios: 10
Estreia: 17 de setembro de 2021
A Apple confirma Kerry Ehrin como desenvolvedora da série e showrunner, com Mimi Leder na produção executiva e direção de episódios. A segunda temporada acrescentou ao elenco nomes como Greta Lee, Hasan Minhaj, Ruairi O'Connor e Julianna Margulies.
Apple TV Press – episódios e imagens, Apple TV Press – elenco e equipe, Apple TV Press – anúncio e trailer da 2ª temporada, Metacritic, Rotten Tomatoes
Se você deseja acompanhar toda a trajetória de The Morning Show, vale a pena conferir os artigos dedicados a cada temporada da série. Em cada análise, você encontrará uma leitura sobre a evolução dos personagens, as transformações da UBA e os principais conflitos que atravessam o universo do jornalismo televisivo, desde as disputas por audiência e poder até as questões de ética, tecnologia, informação e relações pessoais.
1ª temporada— A crise provocada por um escândalo de assédio sexual revela os bastidores de uma emissora onde poder, silêncio, ambição e relações profissionais estão profundamente ligados.
3ª temporada— A disputa pelo futuro da UBA coloca dinheiro, tecnologia e poder no centro da narrativa, enquanto Alex, Bradley e Cory precisam lidar com escolhas cada vez mais difíceis.
4ª temporada— Após a fusão entre UBA e NBN, a série mergulha em um novo cenário marcado por inteligência artificial, deepfakes, teorias da conspiração e pela crescente dificuldade de distinguir a verdade da manipulação.
Acompanhar as temporadas individualmente permite compreender a transformação de The Morning Show de uma história sobre os bastidores de um programa de televisão em uma narrativa cada vez mais ampla sobre mídia, poder, tecnologia e comportamento. Ao longo desse percurso, a evolução de personagens como Alex Levy, Bradley Jackson, Cory Ellison e Stella Bak revela como as mudanças na UBA também transformam aqueles que vivem e trabalham dentro dela, enquanto a quarta temporada amplia esse debate ao explorar um ambiente em que inteligência artificial, deepfakes e manipulação digital tornam ainda mais difícil distinguir informação, verdade e desinformação.