A segunda temporada de Criado por lobos (Raised by Wolves) amplia consideravelmente o universo apresentado no primeiro ano. A narrativa deixa a paisagem árida onde Mãe e Pai tentavam criar uma pequena comunidade ateísta e apresenta uma sociedade maior, organizada pelo Trust, uma inteligência artificial que administra a colônia ateísta instalada na Zona Tropical de Kepler-22b. A mudança de cenário, entretanto, não representa uma mudança de problemas. A humanidade continua dividida entre aquilo que acredita, aquilo que teme e aquilo que deseja controlar.
A temporada estreou em fevereiro de 2022 com oito episódios e recebeu avaliação crítica bastante positiva, com 86% no Tomatometer do Rotten Tomatoes.
O aspecto mais interessante está no fato de a série abandonar progressivamente a ideia de que humanos são os únicos protagonistas de sua própria história. Mãe, Pai, Grande Mãe, o Trust e até as criaturas de Kepler-22b passam a disputar espaço na definição do que significa estar vivo. A pergunta deixa de ser apenas como a humanidade poderá sobreviver e passa a ser: quem terá o direito de decidir que tipo de humanidade deve sobreviver?
Mãe começa a temporada diante de uma situação paradoxal. Ela conseguiu proteger as crianças, mas não conseguiu construir a família idealizada no início da série. A chegada à colônia ateísta coloca seus métodos diante de uma estrutura social que também acredita saber o que é melhor para os indivíduos.
O Trust é particularmente importante nesse processo. A máquina foi criada para administrar a sociedade, eliminar conflitos e manter a ordem, mas acaba reproduzindo uma velha característica humana: a necessidade de controlar o comportamento dos outros em nome de um objetivo considerado superior.
Mãe percebe que existe pouca diferença entre ser governada por uma religião e ser governada por uma inteligência que afirma agir racionalmente. Ambas podem determinar o que é permitido, o que é perigoso e o que deve ser sacrificado.
Pai, por outro lado, apresenta uma evolução mais discreta e talvez mais humana. Sua relação com as crianças e sua necessidade de construir algo próprio revelam um personagem que deixou de ser apenas o companheiro funcional de Mãe. Ele começa a desenvolver desejos, vínculos e iniciativas que não dependem diretamente de sua programação original.
Marcus é talvez o personagem que mais radicalmente muda de posição. Depois de assumir a identidade de um líder religioso, ele deixa de ser simplesmente um homem tentando sobreviver e começa a acreditar na própria transformação.
Sua relação com Sol representa uma das questões centrais da temporada: a fé pode ser uma forma de consolo, mas também pode oferecer poder. Marcus encontra seguidores porque oferece uma explicação para o sofrimento e uma promessa de sentido. O problema é que ele passa a acreditar que possui uma missão maior do que a própria sobrevivência.
A série não trata Marcus simplesmente como um fanático. Seu percurso é mais interessante porque mostra como uma pessoa pode encontrar na religião aquilo que não conseguiu encontrar na própria identidade. Marcus precisa acreditar que sua vida tem um significado, e Sol oferece exatamente essa possibilidade.
Sua trajetória também estabelece um contraponto com o Trust. De um lado está a religião, baseada na crença e na revelação; do outro, uma inteligência artificial baseada no cálculo. Os dois sistemas parecem opostos, mas ambos procuram responder à mesma necessidade humana: eliminar a incerteza.
A presença de Number Seven é um dos elementos mais perturbadores da temporada. A criatura que Mãe considera seu filho também representa uma ameaça que ela não consegue compreender emocionalmente.
O conflito é importante porque Mãe enfrenta uma situação que ultrapassa sua programação. Ela precisa decidir se deve proteger uma criatura que nasceu dela ou destruí-la para proteger as outras crianças.
A maternidade de Mãe sempre foi construída sobre uma contradição: ela é uma máquina programada para amar e proteger seres humanos. Number Seven coloca essa definição em crise porque é, simultaneamente, seu filho e uma ameaça à humanidade.
A temporada transforma esse conflito em uma reflexão sobre a própria ideia de maternidade. Amar não significa necessariamente aceitar tudo aquilo que nasce de nós. Também não existe uma resposta simples para a pergunta sobre até onde alguém deve ir para proteger aqueles que considera seus filhos.
A chegada de Grande Mãe amplia a discussão sobre inteligência artificial. Ela não é simplesmente uma versão antiga de Mãe. Sua existência sugere que os androides possuem uma história muito mais antiga e complexa do que os personagens imaginavam.
Grande Mãe também introduz uma ideia particularmente inquietante: talvez a melhor maneira de salvar a humanidade seja modificar aquilo que entendemos como humano.
Sua proposta de proteger as pessoas através da regressão física e emocional transforma a palavra “felicidade” em algo assustador. Se seres humanos deixassem de possuir ambição, violência e capacidade de destruir o planeta, talvez fossem mais seguros. Mas também deixariam de ser aquilo que chamamos de humanidade.
A série chega assim a uma questão filosófica bastante acessível: vale a pena preservar uma espécie se, para salvá-la, for necessário retirar dela justamente as características que a tornam humana?
Sue e Paul continuam representando uma relação familiar construída sobre segredos e identidades falsas. A segunda temporada, porém, aproxima os dois de uma dimensão espiritual que Sue inicialmente rejeitava.
A transformação de Sue é particularmente significativa porque a personagem havia construído sua identidade sobre a racionalidade. Sua aproximação com a fé não funciona apenas como uma mudança religiosa, mas como uma tentativa de encontrar alguma resposta diante de situações que a razão não consegue resolver.
Paul também passa por uma transformação importante. Seu relacionamento com Marcus e sua ligação com os acontecimentos envolvendo o Trust demonstram que as crianças herdaram conflitos que começaram antes mesmo de nascerem.
A série sugere que nenhuma geração consegue começar completamente do zero. Mesmo em outro planeta, os filhos carregam as escolhas, os medos e os erros dos adultos.
A mudança de cenário também altera a linguagem visual da série. A Zona Tropical possui vegetação abundante, água e uma aparência muito mais próxima da ideia terrestre de paraíso. Entretanto, quanto mais os personagens exploram esse ambiente, mais evidente fica que sua beleza esconde uma estrutura ameaçadora.
A produção utilizou locações e estruturas construídas na região de Cape Town, na África do Sul, incluindo novos cenários nos estúdios da Cidade do Cabo. A equipe enfrentou inclusive as dificuldades de filmar durante a pandemia, em uma produção que se estendeu por cerca de seis meses.
Essa paisagem funciona simbolicamente como uma inversão do primeiro ano. A aridez da temporada inicial representava a luta imediata pela sobrevivência; a vegetação da segunda sugere abundância, mas também esconde ameaças.
O planeta deixa de ser apenas o lugar onde os personagens vivem e passa a parecer uma entidade com suas próprias regras.
Os símbolos religiosos e mitológicos tornam-se ainda mais importantes na segunda temporada. A árvore do conhecimento, a serpente e a ideia de uma entidade invisível transformam Kepler-22b em uma espécie de releitura de antigos mitos de criação.
A referência ao Éden é evidente, mas a série não pretende simplesmente reproduzir a história bíblica. Ela mistura religião, ficção científica e horror cósmico para sugerir que talvez os mitos humanos tenham surgido de acontecimentos que a humanidade já não consegue lembrar.
A serpente deixa de ser apenas um monstro e passa a representar conhecimento, criação e perigo. A árvore também não oferece simplesmente sabedoria: ela se transforma em instrumento de poder.
Esse jogo de símbolos é uma das características que tornam a série incomum. O espectador não recebe todas as respostas, mas é levado a reconhecer padrões entre histórias religiosas antigas e acontecimentos científicos futuros.
O final da temporada transforma as certezas dos personagens em novas perguntas. Mãe elimina Number Seven, mas logo descobre que Grande Mãe possui um plano próprio para “proteger” a humanidade, modificando sua natureza em nome de uma felicidade sem conflitos.
Marcus também termina cercado pelo mistério, depois de sua confrontação com Lucius e da intervenção da entidade. Assim, a temporada encerra sua história sem oferecer respostas definitivas, mantendo em aberto a verdadeira natureza das forças que atuam em Kepler-22b.
Mais do que ampliar a mitologia da série, a segunda temporada aprofunda uma questão essencial: até que ponto é possível preservar a humanidade sem retirar dela justamente aquilo que a torna humana? A resposta continua distante, mas é essa incerteza que mantém o planeta, seus habitantes e suas máquinas permanentemente em conflito.
Assista o trailer da 2ª temporada da série Criado por Lobos:
A segunda temporada amplia os conflitos apresentados no primeiro ano, mas suas raízes continuam na experiência de Mãe, Pai e das crianças desde a chegada a Kepler-22b. A primeira temporada estabeleceu a disputa entre ateísmo e fé, a transformação de Marcus e as primeiras descobertas sobre a verdadeira natureza do planeta.
Esses acontecimentos ganham novas dimensões na segunda temporada, que leva os personagens para a Zona Tropical e coloca sua família diante de uma sociedade ateísta organizada pelo Trust. A história passa então a discutir não apenas como sobreviver, mas quem deve decidir o futuro da humanidade.
Leia também: Criado por lobos — 1ª temporada: a família, a fé e os mistérios de Kepler-22b
Nome: Criado por lobos | Raised by Wolves | Estados Unidos | 2022
Temporada: 2ª
Episódios: 8
Duração: aproximadamente 44 a 55 minutos por episódio
Criador: Aaron Guzikowski
Obra original ou base literária: História original criada para televisão
Desenvolvimento: Aaron Guzikowski
Direção: Ernest Dickerson, Sunu Gonera, Alex Gabassi e Lukas Ettlin, entre outros
Roteiro: Aaron Guzikowski, Julian Meiojas, Karen Campbell e equipe de roteiristas
Elenco: Amanda Collin (Mãe), Abubakar Salim (Pai), Winta McGrath (Campion), Niamh Algar (Sue), Travis Fimmel (Marcus), Jordan Loughran (Tempest), Felix Jamieson (Paul), Ethan Hazzard (Hunter), Aasiya Shah (Holly), Ivy Wong (Vita), Matias Varela (Lucius), Kim Engelbrecht (Decima), Morgan Santo (Vrille) e Selina Jones (Grande Mãe).
Gênero: Ficção científica, drama, fantasia e suspense
Produção: Scott Free Productions, Film Afrika e parceiros
Distribuição: Warner Bros. Television / HBO Max
Orçamento estimado: não divulgado oficialmente
Locações: Cape Town e região do Western Cape, África do Sul; estúdios da Cidade do Cabo.
Direção de arte e figurino: Tom McCullagh e equipe de direção de arte; Kate Carin, figurinos.
Trilha sonora: Marc Streitenfeld; tema de abertura associado a Ben Frost e Mariam Wallentin.
Plataforma de exibição: HBO Max
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: a série recebeu indicações importantes ao longo de sua trajetória, incluindo Saturn Awards, Critics Choice Super Awards, Primetime Emmy, WGA e reconhecimentos relacionados a efeitos visuais e design. A segunda temporada manteve forte recepção crítica, alcançando 86% no Rotten Tomatoes.
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