A imagem de um homem segurando placas que dizem "EU ABUSO DE MULHERES" e "COM 5 MILHÕES DE VIEWS, EU MORRO" não é apenas o gancho inicial de Clickbait — é a materialização de um pesadelo contemporâneo. Nick Brewer, pai de família, marido e irmão, desaparece e reaparece em um vídeo viral que transforma sua vida em moeda de troca algorítmica. O que se segue não é apenas uma investigação policial, mas uma dissecação cruel de como a verdade se fragmenta quando exposta ao julgamento público das redes.
A minissérie australiana-estadunidense, criada por Tony Ayres e Christian White, usa a estrutura de thriller para falar sobre algo mais profundo: a vulnerabilidade da identidade em um mundo onde perfis digitais podem ser clonados, histórias podem ser fabricadas e a reputação pode ser destruída antes que o corpo sequer seja encontrado.
Cada episódio de Clickbait é batizado com um título que revela de quem é a perspectiva: "A Irmã", "A Esposa", "O Detetive", "A Amante", "O Repórter", "O Irmão", "O Filho", "A Resposta". Essa estrutura não é apenas um recurso narrativo — é uma declaração de intenções. A verdade, aqui, é sempre parcial, filtrada pela dor, pela culpa, pela ambição ou pelo luto de quem a conta.
Pia Brewer (Zoe Kazan) é o motor emocional da primeira metade da série. Irmã mais nova de Nick, ela carrega o peso de uma última discussão não resolvida e a certeza de que o vídeo não é uma confissão, mas uma ameaça de morte. Sua energia nervosa, quase histérica, contrasta com a contenção forçada de Sophie Brewer (Betty Gabriel), a esposa que precisa proteger os filhos enquanto o mundo desaba sobre sua cabeça. A série sugere, sem aprofundar tanto quanto poderia, como a raiva de Pia é permitida socialmente por ser branca, enquanto Sophie, negra, precisa manter a compostura mesmo diante do caos.
Detective Roshan Amiri (Phoenix Raei) representa a instituição policial tentando navegar em um caso que não se encaixa em protocolos tradicionais. Seu desejo de promoção para o departamento de homicídios o coloca em conflito entre seguir as regras e fazer o que sente ser certo — uma tensão que culmina em cenas onde seu corpo trai a frieza esperada de um investigador.
O grande giro de Clickbait — revelado nos episódios finais — é que Nick Brewer não era o predador digital que todos acreditavam. Quem operava os perfis falsos, mantendo conversas românticas com múltiplas mulheres sob identidades inventadas, era Dawn Gleed (Becca Lish), uma colega de trabalho mais velha que teve acesso aos dados pessoais de Nick dois anos antes.
Dawn não buscava dinheiro ou fama. Buscava algo mais triste e humano: viver uma fantasia. Através dos perfis falsos — "Danny Walters", "Jeremy Wilkerson" — ela experimentava conexões românticas que sua vida real não oferecia. Quando uma dessas mulheres, Sarah Burton, comete suicídio após ser rejeitada por "Jeremy", o irmão dela, Simon Burton (Daniel Henshall), decide fazer justiça com as próprias mãos.
Aqui, a minissérie toca em um ponto nevrálgico da cultura digital: o catfishing não é apenas uma fraude — é uma forma de existência alternativa. Dawn não mentia apenas para as outras; mentia para si mesma, criando uma realidade paralela onde era amada, desejada, importante. Quando a bolha estoura, as consequências transbordam para o mundo "real": um homem é sequestrado, torturado e morto; uma família é destruída; uma mulher é levada ao suicídio.
Um dos aspectos mais interessantes de Clickbait é como a série constrói a verdade não através de discursos ou imagens, mas através da presença corporal. Quando Simon finalmente encontra Nick cara a cara, após sequestrá-lo acreditando que ele era o responsável pela morte da irmã, algo muda. Não são as palavras de Nick que convencem Simon — é a presença física dele, a vulnerabilidade do corpo ferido, a impossibilidade de manter a mentira quando dois corpos ocupam o mesmo espaço.
Essa "contagion corporal da verdade", como descreve uma análise acadêmica da série, é um antídoto para a era da pós-verdade. Nas redes, tudo pode ser editado, filtrado, manipulado. No encontro presencial, o corpo trai. O detetive Roshan, por exemplo, chora quase ao prender Simon — seu corpo recusa a narrativa oficial de que aquele homem é o assassino. Já ao enfrentar o verdadeiro culpado, Ed Gleed, não há hesitação: o corpo sabe.
Essa ideia ecoa uma crítica mais ampla: vivemos em uma era onde a verdade foi substituída pela atenção. O contrato veridictório — aquele acordo implícito entre quem fala e quem ouve de que há uma verdade a ser sancionada — foi substituído por um contrato de engajamento infinito. O objetivo não é mais convencer, é manter o espectador clicando, compartilhando, comentando. Clickbait é, ela mesma, um exemplo desse mecanismo: uma série que usa a estrutura de mistério para nos manter presas, mas que, no fundo, fala sobre o preço desse tipo de atenção.
Ethan e Kai Brewer, os filhos de Nick, representam uma geração que nunca conheceu um mundo sem internet. Para eles, o luto pelo pai se mistura com a exposição pública de sua possível culpa. Os colegas os atacam nas redes, os professores sussurram, e a única forma de processar o que está acontecendo é através das mesmas plataformas que estão destruindo a reputação do pai.
Ethan, o mais velho, usa suas habilidades digitais para investigar por conta própria, descobrindo que as mulheres que alegaram ter se relacionado com Nick nunca o encontraram pessoalmente. Kai, o mais novo, é quem acaba encontrando Dawn Gleed por acidente, seguindo uma pista digital até a casa dela. A série não desenvolve tanto quanto poderia esses personagens — são tratados mais como inconveniências narrativas do que como centros emocionais — mas sua presença é crucial para mostrar como o trauma digital atinge todas as gerações, mesmo que de formas diferentes.
Ben Park (Abraham Lim), o repórter ambicioso que cobre o caso, é talvez o personagem que melhor encapsula a crítica de Clickbait à economia da atenção. Para ele, a história de Nick não é uma tragédia humana — é uma oportunidade de carreira. Ele invade a casa da família, manipula entrevistas, usa informações sensíveis como moeda de troca.
Ben não é um vilão no sentido tradicional. Ele é apenas um produto do sistema que o cerca: uma mídia que precisa de cliques, de views, de engajamento. Sua presença na série funciona como um espelho: enquanto assistimos Clickbait, também estamos consumindo o sofrimento alheio como entretenimento. A diferença é que a série, ao menos, tem consciência disso.
Clickbait não é uma série perfeita. Seus personagens são às vezes rasos, suas reviravoltas podem parecer forçadas, e algumas ideias — como a diferença racial no tratamento da raiva feminina — são levantadas mas não exploradas em profundidade. Mas ela cumpre seu papel principal: nos fazer pensar sobre como a verdade se constrói (e se destrói) na era digital.
No fim, a minissérie sugere que a única verdade incontestável é aquela que o corpo sente. Tudo o mais — palavras, imagens, perfis, vídeos — pode ser manipulado. Mas quando dois corpos se encontram, quando a presença física não pode ser filtrada ou editada, algo da verdade resiste.
Essa é uma mensagem desconfortável para quem vive cada vez mais nas telas. Mas talvez seja exatamente esse o ponto: Clickbait nos lembra que, por mais que tentemos viver através de avatares e perfis, ainda somos corpos. E corpos, eventualmente, precisam se encontrar.
Assista o trailer da minissérie Clickbait:
Nome: Clickbait | Clickbait | Estados Unidos/Austrália | 2021
Criador: Tony Ayres & Christian White
Obra original ou base literária: História original desenvolvida para televisão
Desenvolvimento: Tony Ayres (showrunner), Christian White, Bradford Winters, Melissa Scrivner Love, Pete McTighe
Direção: Brad Anderson, Emma Freeman, Ben Young, Cherie Nowlan
Roteiro: Tony Ayres, Christian White, Bradford Winters, Melissa Scrivner Love, Pete McTighe
Elenco: Adrian Grenier (Nick Brewer), Zoe Kazan (Pia Brewer), Betty Gabriel (Sophie Brewer), Phoenix Raei (Detective Roshan Amiri), Abraham Lim (Ben Park), Jessie Collins (Emma Beesley), Motell Gyn Foster (Curtis Hamilton), Camaron Engels (Ethan Brewer), Jaylin Fletcher (Kai Brewer), Daniel Henshall (Simon Burton), Becca Lish (Dawn Gleed), Ian Meadows (Matt Aldin) e Liz Alexander (Andrea Brewer)
Gênero: Drama, Thriller, Mistério
Produção: Matchbox Pictures, Tony Ayres Productions, Heyday Television, NBCUniversal International Studios
Distribuição: Netflix
Episódios: 8
Duração: 42–52 minutos por episódio
Orçamento estimado: Não divulgado publicamente
Locações: Melbourne, Victoria, Austrália (filmado em Melbourne, Broadmeadows, Fitzroy, Docklands Studios, Coburg; ambientado em Oakland, Califórnia)
Direção de arte e figurino: Não divulgado em fontes consultadas
Trilha sonora: Cornel Wilczek (compositor)
Plataforma de exibição: Netflix
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Lançado em 25 de agosto de 2021 na Netflix; 58% de aprovação no Rotten Tomatoes com base em 31 resenhas de críticos (média de 6,3/10)
IMDb, Netflix, Rogerebert, Rottentomatoes, Unilim, Whats-on-netflix, Wikipedia