A 1ª temporada de Um Novo Universo troca a luta diária pela sobrevivência por uma pergunta mais íntima: o que acontece com quem cresceu protegido e, de repente, precisa decidir quem quer ser?
Dez anos depois do início do apocalipse zumbi, The Walking Dead: Um Novo Universo apresenta uma geração que quase não conheceu o mundo de antes. A série acompanha adolescentes criados em segurança, e essa proteção se transforma no principal conflito da história.
Crescer dentro de uma bolha
A Campus Colony, comunidade nascida no campus de uma universidade de Nebraska, funciona como uma grande redoma. As irmãs Iris e Hope cresceram ali, entre aulas, regras e uma rotina estável que mantinha os mortos-vivos do lado de fora. Para elas, o perigo era uma história contada pelos adultos, e isso influencia o jeito como cada uma enxerga o futuro.
Uma mensagem do pai, Leo, que está longe e em risco, rompe essa calma. Sair pelo portão representa mais do que uma viagem, porque é a primeira vez que a coragem deixa de ser uma palavra bonita e vira uma decisão com consequências. O título do episódio de estreia, Brave, resume bem essa travessia.
Quatro jovens, quatro maneiras de lidar com o medo
Iris e Hope mostram duas reações opostas diante do mesmo desafio. Iris confia na organização e quer assumir o comando do grupo, como se um plano bem feito pudesse proteger todo mundo. Hope desconfia das autoridades e age por impulso, o que gera atritos constantes entre as duas e transforma a viagem também num acerto de contas entre irmãs.
Elton e Silas completam o grupo com personalidades bem diferentes. Elton traz humor e curiosidade, usando as palavras para disfarçar o nervosismo. Silas, o jovem alto e calado que carrega a fama de ter cometido algo grave, guarda culpa e raiva por baixo da timidez. Nenhum deles é apenas "o forte" ou "o esperto", e é nessa mistura de fragilidades que a série encontra seus melhores momentos emocionais.
Os adultos que observam de longe
Felix e Huck seguem os adolescentes à distância, e cada um deles carrega o próprio passado. Felix precisa encarar lembranças que preferia manter enterradas, o que o aproxima do grupo de um jeito inesperado. A relação de Huck com a CRM, organização paramilitar que mantém uma ordem controversa, é revelada aos poucos e dá à série um toque de espionagem raro no universo de The Walking Dead.
Esses dois personagens também ajudam a discutir uma ideia central da temporada: a fronteira entre proteger e controlar. A série mostra que existem pessoas que querem o bem dos jovens e outras que desejam usá-los, e nem sempre é fácil distinguir umas das outras. Essa dúvida acompanha o espectador do começo ao fim, e faz o público desconfiar junto com Hope.
O fogo, a escola e o jogo: símbolos de uma juventude interrompida
O episódio The Blaze of Gory leva o grupo até um fogo lendário que queima há anos. Para quem cresceu isolado, ele funciona como uma atração irresistível e como um aviso sobre o poder de destruição do mundo lá fora. Na sequência, a travessia por um grande depósito de pneus obriga Hope a assumir riscos, e a determinação que ela mostra ali ajuda a definir seu papel no grupo.
A escola abandonada de The Wrong End of a Telescope é talvez o símbolo mais delicado da temporada. Entre salas vazias e armários enferrujados, Iris imagina como seria a vida de adolescente antes do apocalipse, enquanto Hope relembra seus últimos dias ao lado do pai. Mais adiante, o jogo de verdade ou desafio em Truth or Dare usa uma brincadeira típica da idade para fazer emoções antigas aparecerem, lembrando que aqueles personagens ainda são jovens, mesmo vivendo em um cenário de sobrevivência.
Depois dos muros: o preço de crescer
A temporada demora a engatar e, em alguns trechos, parece estender a caminhada para entregar as revelações aos poucos, o que dividiu a opinião da crítica brasileira. Mesmo assim, a escolha de colocar adolescentes no centro da história renova um universo marcado por adultos cansados da violência.
O ponto mais forte da temporada está no que ela diz sobre amadurecimento: crescer significa descobrir que os adultos erram, que as instituições escondem coisas e que a coragem, muitas vezes, nasce do medo. Ao final dos dez episódios, Iris, Hope, Elton e Silas não são mais as mesmas pessoas que deixaram o campus, e essa transformação dá à série um significado que vai além do cenário de zumbis.
Assista o trailer da 1ª temporada da série The Walking Dead - Um Novo Universo:
Ficha técnica da temporada:
Nome: The Walking Dead: Um Novo Universo | The Walking Dead: World Beyond | Estados Unidos | 2020
Temporada: 1ª (de 2 temporadas, 20 episódios no total)
Estreia: 4 de outubro de 2020 (AMC). A estreia havia sido anunciada inicialmente para 12 de abril de 2020.
Episódios: 10 (Brave / The Blaze of Gory / The Tyger and the Lamb / The Wrong End of a Telescope / Madman Across the Water / Shadow Puppets / Truth or Dare / The Sky Is a Graveyard / The Deepest Cut / In This Life_
Duração: de 43 a 52 minutos por episódio, aproximadamente
Criador: Scott M. Gimple e Matthew Negrete
Obra original ou base literária: quadrinhos The Walking Dead, de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard
Desenvolvimento: Matthew Negrete (showrunner) e Scott M. Gimple
Direção: vários diretores (Aisha Tyler, Dan Liu, Heather Cappiello, Lily Mariye, Loren Yaconelli, Magnus Martens, Michael Cudlitz, Rachel Leiterman, Sharat Raju, Sydney Freeland)
Roteiro: Matthew Negrete e equipe de roteiristas
Elenco: Aliyah Royale (Iris Bennett), Alexa Mansour (Hope Bennett), Hal Cumpston (Silas Plaskett), Nicolas Cantu (Elton Ortiz), Nico Tortorella (Felix Carlucci), Annet Mahendru (Jennifer "Huck" Mallick), Julia Ormond (Elizabeth Kublek)
Participação especial: Joe Holt (Leopold Bennett), Natalie Gold (Dra. Lyla Bellshaw), Ted Sutherland (Percy), Al Calderon (Barca)
Gênero: drama, terror, ficção científica, pós-apocalíptico, zumbi
Produção: Idiot Box Productions, Circle of Confusion, Skybound Entertainment, Valhalla Entertainment e AMC Studios
Distribuição: AMC Networks / AMC Studios
Orçamento estimado: não divulgado oficialmente. O Escritório de Cinema da Virgínia estimou mais de US$ 48 milhões em gastos diretos no estado com as filmagens do derivado.
Locações: região central da Virgínia (EUA), com destaque para Richmond (Virginia Commonwealth University, Lewis Ginter Botanical Garden, Richmond Coliseum), Hopewell, Petersburg, Powhatan e Hadad's Lake. A história se passa de Nebraska a Nova York.
Direção de arte e figurino: não localizado nomes nas fontes consultadas
Trilha sonora: The Newton Brothers
Plataforma de exibição: AMC (EUA). No Brasil, canal AMC e, segundo levantamento da Rolling Stone Brasil, Amazon Prime Video (disponibilidade sujeita a mudanças)
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: não foram encontradas premiações de grande destaque para a 1ª temporada. A recepção crítica foi mista, com elogios à expansão do universo e ressalvas ao ritmo lento.
Fontes:
IMDbPro, Inverse, Omelete, Rolling Stone Brasil, Rotten Tomatoes, SciFiNow, TV Guide, TVLine, TheTVDB, Virginia, Virginia Film Office / Brand USA, Wikipedia