A primeira temporada de The Walking Dead: Dead City parte de uma ideia simples, mas dramaticamente poderosa: colocar Maggie e Negan no mesmo caminho. Eles não são apenas dois sobreviventes com objetivos diferentes. São personagens ligados por uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Negan matou Glenn, marido de Maggie, diante de seus amigos e familiares. Anos depois, quando a série os reúne novamente, o que existe entre eles não é exatamente perdão, amizade ou confiança. É uma convivência forçada, sustentada por uma necessidade urgente.
A missão começa quando Hershel, filho de Maggie e Glenn, é sequestrado pelo Croata, antigo membro dos Salvadores e agora líder dos Burazi, grupo que domina parte de Manhattan. A condição para libertar o rapaz é que Maggie entregue Negan. O plano do Croata explora uma verdade incômoda: Maggie jamais procuraria Negan por vontade própria, mas faria isso pelo filho.
A temporada estreou em 18 de junho de 2023 e tem seis episódios. A escolha por uma temporada curta ajuda a concentrar a narrativa na relação entre os protagonistas, ainda que deixe alguns personagens secundários menos desenvolvidos. A crítica especializada reconheceu justamente esse foco na dupla, embora também tenha apontado que a série, em determinados momentos, parece mais interessada em preparar histórias futuras do que em concluir plenamente as que apresenta.
Manhattan funciona como muito mais do que um cenário de apocalipse. A cidade representa a dimensão monumental do trauma. Seus prédios abandonados, túneis, becos e espaços públicos transformados em armadilhas sugerem uma civilização que não desapareceu por completo: ela apodreceu diante dos olhos de quem continua vivendo.
Em vez de apresentar uma paisagem rural ou pequenas comunidades, como ocorria com frequência na série original, Dead City transforma a verticalidade urbana em fonte de ameaça. Os mortos podem surgir das alturas, dos subterrâneos ou de ambientes que antes simbolizavam segurança. A cidade moderna, que já foi sinônimo de circulação e encontro, converte-se em um labirinto de isolamento.
Maggie continua sendo uma das personagens mais fortes da franquia, mas sua força nunca aparece como algo simples ou triunfal. Ela lidera uma comunidade, toma decisões difíceis e enfrenta perigos com determinação. Ao mesmo tempo, a temporada revela uma mulher emocionalmente exausta, cuja identidade foi moldada por perdas sucessivas.
O sequestro de Hershel reabre antigas feridas. Maggie não está apenas tentando salvar o filho; ela tenta impedir que a história se repita. Glenn foi morto diante dela. Hershel, ainda jovem, tornou-se uma espécie de testemunha viva daquele trauma. Proteger o rapaz é, para Maggie, uma maneira de preservar a memória do marido e provar a si mesma que ainda consegue impedir uma tragédia.
Essa motivação, porém, também a coloca em uma posição perigosa. Maggie está disposta a manipular Negan para conseguir o que deseja. Ela esconde parte da verdade, conduz o antigo inimigo até Manhattan e, no momento decisivo, entrega-o ao Croata. A escolha não transforma Maggie em vilã, mas revela o preço de viver durante anos sob a lógica da vingança.
O mais interessante é que a série não trata a maternidade como uma fonte automática de virtude. Maggie ama Hershel, mas esse amor também produz controle, medo e desconfiança. A relação entre os dois é atravessada pela ausência de Glenn e pelo modo como Maggie tenta proteger o filho de um mundo que nunca deixou de ser brutal.
Hershel, por sua vez, não é apenas uma criança indefesa esperando ser resgatada. Sua presença funciona como o centro emocional em torno do qual todos os adultos reorganizam seus conflitos. Para Maggie, ele é o filho que precisa sobreviver. Para Negan, é o filho do homem que matou. Para o Croata, é uma moeda de troca. Essa transformação de uma pessoa em “recurso” retoma uma das ideias mais sombrias da temporada: em sociedades destruídas, seres humanos podem ser reduzidos ao valor que possuem para os outros.
Negan chega a Dead City depois de uma das transformações mais controversas de The Walking Dead. Ele deixou de ser o líder sádico dos Salvadores e passou a ocupar uma posição ambígua: ainda carrega a responsabilidade por crimes terríveis, mas também demonstrou capacidade de afeto, sacrifício e mudança.
A série não apaga o passado do personagem. Pelo contrário, coloca-o diante de Maggie para lembrar constantemente que nenhuma redenção é capaz de desfazer a violência cometida. Negan pode salvar pessoas, cuidar de Ginny e agir com coragem, mas continua sendo o homem que matou Glenn. A temporada acerta ao não transformar essa contradição em uma solução fácil.
Jeffrey Dean Morgan sustenta o personagem com carisma, ironia e uma camada de tristeza que aparece por trás dos comentários provocadores. Negan utiliza o humor como mecanismo de defesa. Ele fala demais, brinca nos momentos inadequados e tenta controlar a atmosfera ao redor porque o silêncio o obrigaria a encarar aquilo que fez.
Sua relação com Ginny evidencia outra dimensão de sua personalidade. A menina, traumatizada e quase sempre silenciosa, encontra em Negan uma figura de proteção. O vínculo entre os dois sugere que ele ainda deseja cuidar de alguém, mas também mostra que sua presença é marcada pela instabilidade. Negan não sabe construir uma vida tranquila. Ele sabe proteger, lutar e tomar decisões em situações extremas. A paz, entretanto, parece sempre escapar.
Quando revela a Perlie Armstrong o motivo de ter matado cinco homens, Negan apresenta sua versão dos fatos: aqueles homens haviam atacado Annie, sua esposa. A confissão não pede absolvição. Ela mostra que Negan voltou a matar quando acreditou que a violência era a única forma de fazer justiça. A diferença entre o antigo líder dos Salvadores e o homem que vemos agora talvez não esteja na ausência de violência, mas na consciência do preço que ela cobra.
O Croata funciona como um espelho deformado de Negan. Ambos comandaram homens, usaram o medo e transformaram sofrimento em método de controle. A distinção é que Negan reconhece, ainda que de maneira incompleta, que ultrapassou limites. O Croata parece ter abraçado esses limites como princípio de vida.
O Croata é um antagonista eficiente porque não representa apenas uma ameaça externa. Ele pertence à história de Negan. Antigo integrante dos Salvadores, foi um interrogador violento que acabou sendo expulso por ultrapassar até mesmo os limites impostos por seu líder.
Essa informação é importante porque revela que o sistema criado por Negan já continha dentro de si a possibilidade de monstros ainda piores. A violência não era um acidente isolado; era uma estrutura. O Croata apenas levou aquela lógica até as últimas consequências.
Ao liderar os Burazi, ele constrói uma versão própria dos Salvadores. Pessoas são perseguidas, torturadas e utilizadas como mão de obra ou instrumento de negociação. O título de um dos episódios, “People Are a Resource”, resume essa visão de mundo. A frase transforma indivíduos em estoque, força de trabalho ou moeda política.
O Croata também entende o valor simbólico de Negan. Para ele, capturar o antigo líder não significa apenas eliminar um inimigo. Significa recuperar uma figura central de sua própria história. Negan é uma espécie de fundador involuntário da linguagem de poder que o Croata utiliza. Por isso, o desejo do antagonista não é simplesmente matá-lo: é obter seu reconhecimento e provar que se tornou aquilo que Negan não conseguiu ser.
A presença da Dama, apresentada nos momentos finais da temporada, amplia esse conflito. Ela parece enxergar Manhattan como o núcleo de um futuro novo, construído a partir do controle dos recursos e das pessoas. A ameaça deixa de ser somente individual e passa a envolver um projeto de poder mais amplo.
Perlie Armstrong poderia ser apenas o policial encarregado de perseguir Negan, mas a temporada tenta fazer dele algo mais. Como representante da Nova Babilônia, Perlie acredita em leis, fronteiras e instituições. Ele se vê como parte de um esforço civilizatório, alguém que pretende substituir o caos por regras.
Sua busca por Negan, entretanto, começa a abalar essa convicção. A morte do irmão Joel, associada ao suicídio, mostra que nem mesmo uma sociedade organizada consegue eliminar o desespero. Ao conhecer melhor Negan, Perlie percebe que a distinção entre justiça e vingança é menos clara do que gostaria.
A relação entre os dois é marcada por desconfiança, mas também por reconhecimento. Perlie enxerga em Negan um criminoso que deve ser punido. Ao mesmo tempo, começa a compreender que a lei pode se tornar tão rígida quanto a violência que pretende combater. A série sugere que instituições, em um mundo pós-apocalíptico, também podem reproduzir relações de opressão.
Ginny é outro retrato de uma geração formada depois do colapso. Ela não possui as mesmas lembranças do mundo anterior e se comunica pelo silêncio. Seu mutismo não é apenas uma característica; é a expressão de um trauma que bloqueou sua capacidade de confiar.
O relacionamento com Negan representa uma possibilidade de família, mas também uma situação de abandono inevitável. Ele tenta enviá-la para uma comunidade mais segura, acreditando que a distância é uma forma de proteção. Ginny, porém, interpreta a separação como mais uma perda. Sua fuga para Manhattan é uma tentativa desesperada de não ser deixada para trás.
A temporada dá pistas de que Ginny pode se tornar uma personagem importante, mas não desenvolve plenamente esse arco. O mesmo acontece com Perlie. Ambos têm conflitos promissores, porém dividem espaço com uma trama principal muito concentrada em Maggie, Negan e Croata.
Os mortos-vivos continuam presentes, mas cumprem uma função diferente da que tinham em muitos momentos da série original. Em Dead City, eles não são apenas hordas que avançam sobre os sobreviventes. São parte da própria arquitetura urbana.
A imagem dos mortos caindo dos prédios é uma das mais fortes da temporada porque altera a relação tradicional entre segurança e perigo. Em Manhattan, não existe necessariamente um “lado de fora” protegido. O perigo pode vir de cima, de baixo ou de dentro de uma construção aparentemente vazia.
Também chama atenção a presença de corpos fundidos em túneis e corredores subterrâneos. Essa massa de carne e ossos funciona como uma metáfora visual para a cidade que perdeu sua individualidade. Pessoas que antes tinham nomes, profissões e histórias tornam-se um organismo coletivo, uma forma de morte que continua crescendo.
A sequência em que Maggie enfrenta essa criatura concentra o sentido da temporada. Ela não luta somente contra um inimigo físico. Enfrenta uma massa formada por restos de vidas, memórias e sofrimentos que se recusam a desaparecer. Vencer não significa sair ilesa; significa continuar avançando apesar de carregar o peso de tudo aquilo.
A ambientação poderia explorar ainda mais Nova York, mas o que aparece é suficiente para estabelecer um contraste interessante com a série-mãe. A produção foi filmada principalmente em Nova Jersey, com cenários e estruturas adaptados para representar a Manhattan pós-apocalíptica. O estado informou que as filmagens envolveram diferentes municípios, estúdios e locações, com investimento superior a 72 milhões de dólares em mão de obra, bens e serviços locais.
A primeira temporada de The Walking Dead: Dead City funciona melhor quando abandona a preocupação de ampliar o universo e se concentra na relação entre Maggie e Negan. A ideia de obrigar esses dois personagens a colaborarem não depende apenas do suspense. Ela cria um campo emocional instável, no qual cada gesto de confiança pode ser interpretado como manipulação.
Maggie quer salvar o filho, mas também precisa decidir se continuará sendo definida pela vingança. Negan quer demonstrar que mudou, mas ainda recorre à violência e ao controle quando se sente ameaçado. Nenhum dos dois encontra uma resposta definitiva. E talvez esse seja o ponto mais honesto da temporada: algumas feridas não desaparecem; elas apenas mudam de forma.
A série também apresenta uma Manhattan visualmente atraente, grupos de sobreviventes com diferentes modelos de organização e uma discussão recorrente sobre poder, memória e utilidade. Nem todos esses elementos recebem o desenvolvimento desejado, especialmente nas tramas de Ginny e Perlie. Ainda assim, a temporada encontra uma identidade própria ao transformar a cidade em um reflexo dos protagonistas.
Mais do que uma nova aventura com zumbis, Dead City é uma história sobre duas pessoas incapazes de escapar do mesmo acontecimento. Maggie e Negan seguem em direções opostas, mas continuam presos ao instante em que Glenn morreu. A viagem a Manhattan não resolve esse passado. Apenas o coloca novamente diante dos dois.
Assista ao trailer da 1ª temporada da série The Walking Dead: Dead City
Nome: The Walking Dead: Cidade dos Mortos | The Walking Dead: Dead City | Estados Unidos | 2023
Criador da série: Eli Jorné.
Desenvolvimento: Eli Jorné, com supervisão de Scott M. Gimple no universo televisivo de The Walking Dead.
Direção: Loren Yaconelli, Kevin Dowling e Gandja Monteiro, entre outros diretores da temporada.
Roteiro: Eli Jorné, Keith Staskiewicz e Brenna Kouf.
Elenco: Lauren Cohan como Maggie Rhee; Jeffrey Dean Morgan como Negan; Gaius Charles como Perlie Armstrong; Željko Ivanek como Croata; Mahina Napoleon como Ginny; Jonathan Higginbotham como Tommaso; Karina Ortiz como Amaia; Lisa Emery como Dama; Logan Kim como Hershel Rhee; entre outros.
Gênero: Terror pós-apocalíptico, drama, ação e horror zumbi.
Produção: AMC Studios, Skybound Entertainment, Valhalla Entertainment, Circle of Confusion e Schneibot.
Distribuição: AMC Networks.
Episódios: 6.
Duração: Aproximadamente 40 a 50 minutos por episódio.
Orçamento estimado: Não há orçamento total oficial divulgado. O estado de Nova Jersey informou que a produção movimentou mais de 72 milhões de dólares em mão de obra, bens e serviços durante as filmagens locais; esse valor não deve ser interpretado como orçamento integral da temporada.
Locações: Nova Jersey e Nova York, com uso de estruturas e espaços em Newark, Hoboken, Bayonne, Paterson, East Rutherford, Franklin Lakes e outras localidades. Grande parte das filmagens ocorreu em Nova Jersey, incluindo o antigo Meadowlands Arena.
Direção de arte e figurino: Direção de arte voltada à reconstrução de uma Manhattan abandonada, com prédios degradados, túneis, áreas industriais e comunidades improvisadas; figurinos inspirados na adaptação prática ao pós-apocalipse.
Trilha sonora: Ian Hultquist.
Plataforma de exibição: AMC e AMC+; no Brasil, a disponibilidade pode variar conforme o período e o catálogo das plataformas licenciadas.
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Os acontecimentos da primeira temporada não encerram o conflito entre Maggie e Negan; ao contrário, tornam sua relação ainda mais difícil de definir. As consequências dessa travessia por Manhattan se tornam o ponto de partida para os novos embates da série. Para continuar acompanhando essa história, leia também a análise da 2ª temporada de The Walking Dead: Dead City.