A sexta temporada de 9-1-1, exibida entre setembro de 2022 e maio de 2023, chega num ponto curioso da trajetória da série. Depois de cinco anos construindo grandes catástrofes semanais, os roteiristas parecem menos interessados no espetáculo do desastre e mais no que acontece depois dele, no momento em que o barulho cessa e cada personagem precisa voltar para casa carregando alguma coisa que não consegue nomear.
O ano de Athena Grant começa com um telefonema que muda o tom de tudo. O pai sofre um derrame durante uma videochamada com a família, e a policial que costuma controlar qualquer situação se vê diante de algo que nenhum treinamento resolve. A viagem à Flórida para cuidar dele acaba se transformando numa espécie de retorno forçado à mulher que ela foi antes de virar sargento, antes das certezas profissionais, antes da armadura.
É nesse retorno que ela reabre o desaparecimento de uma amiga de infância, ocorrido quarenta e cinco anos antes. O episódio funciona como um espelho evidente da perda de Emmett, o noivo assassinado que moldou sua vocação, e revela algo importante sobre a construção do personagem ao longo das temporadas. Athena não escolheu a farda por vontade de justiça abstrata, mas por incapacidade de conviver com perguntas sem resposta. O trabalho de investigação, para ela, sempre foi uma forma de luto que não terminou. Angela Bassett sustenta esse peso com uma contenção que rendeu, com merecimento, o prêmio de melhor atriz em série dramática no NAACP Image Awards de 2023.
Evan Buckley começa a temporada com uma decisão que soa leve e esconde profundidade: um ano dizendo sim a tudo. A proposta de gerar um filho para um antigo colega e o marido dele aparece logo em seguida, e o rapaz que passou anos procurando um lugar no mundo se vê diante da chance de criar vida sem precisar assumir a paternidade. A escolha diz muito sobre alguém acostumado a se oferecer inteiro para relações que não lhe pertencem.
O raio que o atinge no alto da escada, no décimo episódio, é o tipo de reviravolta que a série faz muito bem, mas o que vem depois é mais interessante do que o susto. O episódio seguinte mergulha numa vida alternativa sonhada durante o coma, na qual ele finalmente ocupa o centro de tudo e descobre que o centro é um lugar solitário. O retorno ao trabalho traz estresse pós-traumático, uma fascinação súbita pela morte e um namoro com uma profissional que acompanha pessoas em fim de vida. É a jornada de alguém que precisou morrer por alguns minutos para começar a se perguntar, enfim, o que faria com o tempo que sobrou.
A tentativa de Hen Wilson de conciliar a faculdade de medicina com os plantões produz um dos arcos mais honestos da temporada, porque recusa a solução fácil. Ela não fracassa por falta de talento nem vence por força de vontade; apenas descobre, aos poucos, que sonhos adiados cobram juros e que existe um limite físico para quem tenta ser excelente em tudo ao mesmo tempo. A subtrama com o pai biológico de Denny reforça a mesma ideia sob outro ângulo, colocando em xeque a fantasia de que amor e dedicação bastam para blindar uma família.
Bobby Nash, por sua vez, atravessa a investigação da morte suspeita de seu padrinho dos Alcoólicos Anônimos, e a série usa esse fio para revisitar o tema que define o capitão desde o piloto. A sobriedade dele nunca foi apresentada como vitória encerrada, e sim como manutenção diária. Ao insistir num caso que todos consideram arquivado, Bobby não persegue apenas um culpado; persegue a prova de que pessoas em recuperação merecem ser levadas a sério, inclusive quando morrem. A obstinação revela quanto da sua identidade ainda se organiza em torno da culpa por aquilo que fez no passado.
O casal formado por Maddie Buckley e Howard Han ocupa o registro mais doméstico da temporada, e isso é uma escolha deliberada. A terapia de casal, a casa inacabada, a babá invasiva e a hesitação diante do pedido de casamento formam um retrato realista de quem tenta remontar uma relação depois de uma crise séria de saúde mental. O interessante está no ritmo: os dois avançam devagar, tropeçam em bobagens, e a série tem paciência para acompanhar isso sem transformar cada episódio em prova de amor.
Eddie Diaz vive um processo mais silencioso e, por isso mesmo, fácil de subestimar. O filho cresce, mente, se afasta, cria vida própria, e o pai que organizou toda a sua existência em torno desse cuidado precisa aprender a ocupar o próprio espaço. A solidão que ele encara não tem nada de heroico, o que a torna especialmente reconhecível para qualquer adulto que já percebeu que estava usando as responsabilidades como desculpa para não olhar para dentro.
O desabamento do viaduto no episódio final condensa a temporada inteira numa única imagem. A estrutura que sustentava o tráfego da cidade cede, e os socorristas que sempre chegam para salvar os outros ficam presos sob os próprios escombros, feridos, frágeis, dependentes de ajuda. É um encerramento simbólico poderoso para a passagem da série pela Fox, lembrando ao público que essas pessoas não são feitas de material diferente.
Nem tudo funciona com a mesma consistência, e alguns arcos se resolvem rápido demais. Ainda assim, a temporada acerta no essencial ao tratar a rotina do resgate como um trabalho que desgasta, adia vidas e cobra um preço invisível. O heroísmo, aqui, aparece menos nos salvamentos espetaculares e mais na disposição de voltar ao turno seguinte.
Assista o trailer da 6ª temporada da série 9-1-1:
Para acompanhar a trajetória de 9-1-1 e compreender melhor a evolução de seus personagens, relações e histórias, confira também as análises das nove temporadas disponíveis no site.
Temporada 1 — A Estação 118 enfrenta emergências e dramas que revelam a vida por trás dos resgates
Temporada 2 — Novos desafios aprofundam os vínculos entre os integrantes da 118
Temporada 3 — Emergências cada vez maiores colocam personagens e relações à prova
Temporada 4 — Perdas, mudanças e novos desafios transformam a vida da equipe
Temporada 5 — Crises pessoais e profissionais levam os personagens ao limite
Temporada 7 — Novos caminhos e desafios colocam à prova a união da 118
Temporada 8 — A perda de Bobby muda o equilíbrio da equipe
Temporada 9 — O luto e as mudanças desafiam a equipe a seguir em frente
Acompanhar as temporadas em sequência permite observar como acontecimentos, personagens e conflitos se desenvolvem ao longo da série, revelando uma trajetória marcada por emergências, perdas, recomeços e relações que se transformam com o tempo.
Nome: 9-1-1 | 9-1-1 | Estados Unidos | 2022–2023
Criador: Ryan Murphy, Brad Falchuk e Tim Minear
Obra original ou base literária: obra original para televisão, sem base literária
Desenvolvimento: Ryan Murphy Television, Brad Falchuk Teley-Vision e Reamworks Productions
Direção: Jann Turner, Juan Carlos Coto, Steven Tsuchida, Michael Medico, Marita Grabiak, Joaquín Sedillo, James Wong, Brenna Malloy, Bradley Buecker, John J. Gray, Shauna Duggins, entre outros
Roteiro: Andrew Meyers, Juan Carlos Coto, Lyndsey Beaulieu, Stacey R. Rose, Nadia Abass-Madden, Nicole Barraza Keim, Taylor Wong
Elenco: Angela Bassett (Athena Grant), Peter Krause (Bobby Nash), Oliver Stark (Evan "Buck" Buckley), Aisha Hinds (Henrietta "Hen" Wilson), Kenneth Choi (Howard "Chimney" Han), Jennifer Love Hewitt (Maddie Buckley), Ryan Guzman (Eddie Diaz), Corinne Massiah (May Grant), Gavin McHugh (Christopher Diaz), Tracie Thoms (Karen Wilson), Declan Pratt (Denny Wilson)
Gênero: drama procedural, ação, drama familiar
Produção: 20th Television, Ryan Murphy Television, Brad Falchuk Teley-Vision e Reamworks Productions; produtores executivos incluem Ryan Murphy, Brad Falchuk, Tim Minear, Bradley Buecker, Angela Bassett e Peter Krause
Distribuição: Fox Broadcasting Company (exibição original) e Disney Platform Distribution (internacional)
Orçamento estimado: não divulgado oficialmente pelo estúdio
Locações: Los Angeles, Califórnia, com sequências ambientadas na Flórida
Direção de arte e figurino: equipe interna da produção, com desenho de produção voltado à reconstituição realista de cenários urbanos, quartéis de bombeiros e centrais de emergência
Trilha sonora: composição original de Mac Quayle
Temporada: 6ª
Episódios: 18
Duração: cerca de 43 a 46 minutos por episódio
Plataforma de exibição: exibição original na Fox (EUA); no Brasil, disponível em Star+/Disney+ e para compra no Prime Video
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Angela Bassett venceu o NAACP Image Award de Melhor Atriz em Série Dramática em 2023 pelo papel de Athena Grant, na mesma cerimônia em que foi nomeada Entertainer of the Year; a temporada encerrou a passagem da série pela Fox com média aproximada de 7,1 milhões de espectadores por episódio
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