Evandro Rocha Ferreira, o futuro Evandro do Dendê, começa a temporada como um jovem com planos relativamente simples: quer trabalhar, prosperar e dar uma vida melhor à família. Ele vive no Morro do Dendê com a mãe, Arlete, e sonha em se afastar do caminho que parece reservado a muitos moradores de favela.
A série situa a narrativa em 1989, um período de profundas transformações políticas e econômicas no Brasil. Esse contexto não aparece apenas como pano de fundo: ele interfere diretamente nas escolhas dos personagens, sobretudo em um país marcado pela desigualdade, pela desconfiança nas instituições e pela presença crescente do crime organizado.
A dor que antecede o crime
A tragédia que move Evandro não nasce de uma ambição abstrata. Seu irmão, Zeca, é morto por policiais logo após deixar a Febem, e essa perda desorganiza completamente a família. Arlete pede justiça; Evandro responde oferecendo vingança. A diferença entre as duas reações define o conflito central da temporada.
Arlete, vivida com densidade por Cyria Coentro, é uma das grandes forças dramáticas da série. Ela luta para educar os filhos na ausência do pai e enxerga, antes de todos, que a vingança pode consumir Evandro. Sua maternidade não é idealizada: Arlete erra, teme, se irrita e tenta proteger o filho mesmo quando já não consegue reconhecê-lo.
Evandro e a sedução do poder
A entrada de Evandro no tráfico acontece por etapas. Ele não é apresentado como um vilão nato, mas como alguém que encontra no crime uma resposta imediata à impotência. A morte do irmão abre uma ferida, e o poder passa a parecer a única forma de nunca mais ser vulnerável.
Raphael Logam constrói uma evolução convincente: Evandro começa como um rapaz cercado por afeto e termina como um líder que aprende a transformar medo em autoridade. A série é eficiente ao mostrar que cada conquista dele custa algo — um amigo, uma confiança, um pedaço da própria humanidade.
O episódio em que Evandro precisa matar Afonso, seu melhor amigo, é decisivo para entender essa transformação. Não se trata apenas de um crime dentro da trama criminal: é o momento em que Evandro aceita que a lealdade pode ser sacrificada em nome da sobrevivência.
Morello: o outro lado da obsessão
Victor Morello, interpretado por Rui Ricardo Diaz, é mais do que o policial designado para capturar Evandro. Ele é um homem marcado pelo alcoolismo, por fracassos pessoais e por uma necessidade quase doentia de controlar o caos ao seu redor. Sua caçada ao traficante também é uma tentativa de dar sentido à própria vida.
A relação entre Evandro e Morello funciona como um espelho distorcido. Os dois são inteligentes, obsessivos e dispostos a arriscar tudo pelo que acreditam controlar. A diferença está nas instituições que os sustentam: Evandro constrói poder a partir da comunidade e do crime; Morello tenta fazer o mesmo a partir da lei, ainda que a lei, na série, também apareça contaminada por violência e corrupção.
Família como campo de batalha
Impuros entende que o tráfico não destrói apenas territórios: ele corrói vínculos. Geise, vivida por Lorena Comparato, entra na vida de Evandro como possibilidade de afeto, mas logo percebe que amar um homem em ascensão no crime significa conviver com o medo constante.
A relação de Evandro com Geise ganha importância porque revela o que ele ainda deseja preservar. Ele quer ser parceiro, pai e provedor, mas suas escolhas tornam essas funções cada vez mais difíceis. A série não culpa apenas o personagem: ela mostra como a violência estrutural, a polícia e as disputas internas do crime cercam a família de todas as direções.
A mãe, a companheira e o filho de Evandro funcionam quase como medidas morais da narrativa. A cada avanço do império, fica mais evidente que o poder dele se sustenta sobre a fragilidade das pessoas que ele diz querer proteger.
O Morro do Dendê como personagem
O Morro do Dendê não é cenário passivo. Ele concentra as tensões da temporada: a solidariedade entre vizinhos, a presença armada do tráfico, a ação policial e a sensação de que a comunidade paga o preço mais alto pelos conflitos de homens poderosos.
A direção de René Sampaio e Tomás Portella aposta em uma estética dura, com forte carga dramática e atenção às relações humanas. Há reconhecíveis ecos do cinema brasileiro sobre periferia — especialmente de Cidade de Deus —, e a própria presença de Leandro Firmino no elenco reforça essa conversa com a tradição audiovisual do país.
Ao longo dos dez episódios, Evandro descobre o “ouro branco”, cocaína de alta pureza, e amplia seus negócios para além do Rio de Janeiro. Essa expansão marca sua consolidação como traficante, mas também intensifica a perseguição de Morello e expõe sua família a riscos maiores.
A temporada termina com Evandro preso, mas a prisão não oferece alívio moral. Arlete finalmente compreende seu papel na morte de Zeca, e esse conhecimento transforma a visita à prisão em um dos momentos mais devastadores da temporada. O poder de Evandro cresceu; a confiança de sua mãe, não.
Entre o homem, o mito e o preço da ascensão
A força da 1ª temporada de Impuros está em recusar simplificações. Evandro do Dendê não é herói, e Victor Morello não representa uma resposta moral aos problemas da cidade. Ambos transformam suas dores em instrumentos de domínio, em um contexto marcado pela desigualdade, pela impunidade e pela falta de alternativas.
A ascensão de Evandro no crime não representa libertação. Cada avanço o afasta de Arlete, de Geise e da vida comum que ainda desejava. O poder funciona como armadura, mas também como prisão.
O desfecho deixa essa contradição evidente. Evandro é preso, mas não encontra alívio moral. Arlete finalmente compreende seu papel na morte de Zeca, e a visita à prisão se torna um dos momentos mais devastadores da temporada. O império cresceu; a confiança da mãe, não.
Impuros permanece relevante porque enxerga o crime como consequência de vínculos rompidos. Evandro nasce na dor, cresce pelo medo e se firma pela violência — um percurso que constrói um mito, mas cobra um preço humano alto demais.
Impuros: acompanhe a trajetória completa de Evandro
Ao longo de seis temporadas, Impuros acompanha a transformação de Evandro, de um jovem movido pelo desejo de vingança a um dos nomes mais poderosos do tráfico carioca. A cada nova fase, a disputa pelo controle dos negócios se intensifica, enquanto os conflitos familiares, as alianças instáveis e a perseguição de Morello tornam cada vez mais difícil separar a vida pessoal das consequências do crime.
Confira a análise de cada etapa dessa trajetória:
2ª temporada - A anatomia do caos familiar
3ª temporada - O império que cresce enquanto a família se desfaz
4ª temporada - O preço de chegar ao topo
5ª temporada - O preço da lealdade no topo do tráfico
6ª temporada - A vingança que transforma todos em suspeitos
Leia os artigos e acompanhe como as escolhas dos personagens transformam o destino de Evandro, de sua família e de todos que cruzam seu caminho.
Assista o trailer da 1ª temporada da série Impuros:
Ficha técnica da temporada:
Nome: Impuros | Impuros | Brasil | 2018
Temporada: 1ª
Episódios: 10
Nas três primeiras temporadas de Impuros, os episódios eram identificados apenas por números, sem títulos individuais. A partir da 4ª temporada, lançada em 2023, a série passou a apresentar nomes próprios para cada episódio, acrescentando uma nova forma de identificar os capítulos de sua história. Essa mudança permite reconhecer cada episódio também por seu título, além da numeração tradicional.
Duração: entre 42 e 59 minutos por episódio
Estreia: 19 de outubro de 2018
Criador: Alexandre Fraga
Obra original ou base literária: obra original
Desenvolvimento: Barry Company em parceria com a The Walt Disney Company / Fox Networks Group
Direção: René Sampaio e Tomás Portella
Roteiro: Alexandre Fraga, Gabriel Maria, Gabriela Giffoni e Rafael Spínola
Elenco: Raphael Logam (Evandro do Dendê), Rui Ricardo Diaz (Victor Morello), Cyria Coentro (Arlete), Lorena Comparato (Geise), João Vitor Silva (Afonso/Tabuada), Leandro Firmino (Gilmar), Sérgio Malheiros (Wilbert), Karize Brum (Inês), André Gonçalves (Salvador), Rocco Pitanga (Bruninho Bagdá), Fernanda Machado (Andreia) e Gillray Coutinho (Dr. Burgos)
Participação especial: Bruno Gagliasso (Playboy)
Gênero: drama policial e crime
Produção: Barry Company e Fox Networks Group, em associação com a The Walt Disney Company Latin America
Distribuição: Fox Networks Group / Disney Platform Distribution
Orçamento estimado: não divulgado oficialmente
Locações: Rio de Janeiro, no Brasil, e Montevidéu, no Uruguai
Direção de arte e figurino: informações não divulgadas nas fontes consultadas
Trilha sonora: trilha original de ARPX Áudio; a série também utiliza “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca, em sua abertura/divulgação
Plataforma de exibição: estreia na Fox Premium; temporadas posteriores passaram por Star+ e Disney+
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Raphael Logam recebeu indicação a Melhor Atuação Masculina em 2019, conforme registro da série em fontes internacionais.
Fontes:
Apple TV, ARPX, IMDb, JustWatch, VICE, Wikipédia, Wikipédia em inglês