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Na paisagem fragmentada da ficção televisiva contemporânea, dominada por narrativas rápidas e efeitos visuais que mais ofuscam do que iluminam, Pluribus surge como uma espécie de catarse deliberada — lento, incômodo, profundo. Criada por Vince Gilligan, a mente por trás de Breaking Bad e Better Call Saul, esta primeira temporada de Pluribus (lançada em 7 de novembro de 2025, na Apple TV+) propõe um gesto radical: desacelerar. Desacelerar para pensar, para sentir, para desconstruir no espectador os preconceitos mais arraigados sobre o que a ficção científica deve fazer e ser.
Pluribus não é apenas uma série — é um espelho escuro que nos reflete de forma perturbadora: em um mundo em que um sinal extraterrestre transforma a maior parte da humanidade em uma mente coletiva feliz e harmoniosa, a resistência solitária da protagonista, Carol Sturka, levanta a pergunta central e incômoda do programa: o que realmente significa ser humano quando “feliz” e “livre” se tornam sinônimos forçados?
A personagem de Carol Sturka — interpretada com uma intensidade quase visceral por Rhea Seehorn — é ao mesmo tempo a âncora emocional e o dilema ético central da narrativa. Carol é uma romancista de romances de fantasia, um tipo de profissão que, em outras mãos, poderia cair na caricatura; sob a atuação de Seehorn, no entanto, ela é um monumento de contradições. Ela é, simultaneamente, amarga e vulnerável, ferozmente racional e estranhamente desorientada. Seu sarcasmo é uma armadura; sua solidão, o combustível de uma revolta silenciosa contra o “mundo feliz” que todos os outros parecem — de forma quase infantil — aceitar com gratidão.
A jornada de Carol espelha o clássico monomito da “jornada do herói”, mas com um twist profundamente subversivo: em vez de uma ascensão heroica luminosa, ela se move através de uma série de desconstruções internas. Onde tradicões épicas encontram provações externas — dragões a serem vencidos, mundos a serem salvos —Pluribus coloca seu herói contra o maior inimigo possível: a complacência. A jornada de Carol é a de alguém que deve resistir ao desejo de desistir da própria individualidade em troca de uma promessa universal de paz. É uma odisseia existencial em vez de uma aventura convencional.
Se a primeira metade da temporada é dominada pelo foco introspectivo em Carol, a segunda introduz a enigmática Zosia — uma das poucas figuras que parecem manter resquícios de individualidade dentro da hive mind dos “Outros”. A interação entre Carol e Zosia é, em muitos aspectos, o motor narrativo emocional de Pluribus. Enquanto Carol protesta contra a perda de autonomia, Zosia — mesmo permeada pela consciência coletiva — oferece um contraponto delicado e sinistro: ela é simultaneamente convidativa e alienígena, uma mistura de empatia e manipulação.
Essa dinâmica não é apenas um choque de personalidades; é um choque de filosofias. Carol representa o individualismo radical — a crença de que a autonomia vale qualquer custo — enquanto Zosia personifica a promessa sedutora do coletivo, um tipo de humanidade sem sofrimento, sem conflito interno, mas também sem profundidade emocional singular. Sua relação é fascinante, perturbadora e, em última instância, tragicamente romântica, pois ambos os lados se atraem e se repelem com igual força.
A primeira temporada de Pluribus é uma tapeçaria filosófica que incorpora temas tão distintos quanto feminismo, religião, dilemas morais, ética e individualismo. O feminismo aparece não apenas na figura de Carol — uma protagonista complexa que rejeita os arquétipos femininos de suavidade e consenso — mas também na forma como ela recusa qualquer narrativa que a reduza a um papel de cuidadora ou reconciliadora.
A religião, embora não explicitamente dogmática, ressoa através da narrativa como uma metáfora do culto à conformidade: a hive mind dos “Outros” funciona como uma religião secular, com sua própria liturgia coletiva de alegria e exclusão de qualquer dúvida. Nesse sentido, Pluribus encena um debate profundo sobre o livre arbítrio versus determinismo coletivo, explorando se a verdadeira liberdade é uma condição interna ou externa — e se custa caro demais para ser sustentada.
Os dilemas morais permeiam cada escolha da protagonista. Carol deseja desesperadamente salvar a humanidade — mas que humanidade? A que você escolhe preservar quando todos já estão “salvos” em um sentido superficial? Esta é a pergunta que ecoa de maneira perturbadora, mantendo o espectador em constante tensão ética.
O cerne da ficção científica tradicional repousa na especulação — universos alternativos, tecnologias que elevam as possibilidades humanas, futuros brilhantes ou sombrios. Pluribus, no entanto, se aproxima mais do que foi feito por The Leftovers ou Severance: uma ficção científica como lente para examinar o desconforto existencial.
A estética visual da série ressalta isso com uma paleta desbotada e cenários que oscilam entre a vastidão desértica de Albuquerque e interiores claustrofóbicos que ecoam a solidão emocional de Carol. Cada cenário — seja um posto de gasolina abandonado, um laboratório desertado, ou uma cidade silenciosa — funciona como uma peça de respiro editorial dentro da narrativa, permitindo que o espectador sinta fisicamente o peso do mundo narrado.
Toda grande série nasce em diálogo — explícito ou subterrâneo — com aquilo que veio antes. Pluribus não escapa a essa lógica, mas a subverte: em vez de apenas repetir os códigos da ficção científica distópica, ela os desloca para um território moral mais incômodo, onde a opressão não se apresenta como violência visível, mas como acolhimento absoluto.
É inevitável lembrar de The Leftovers, talvez o parentesco mais evidente. Assim como na obra de Damon Lindelof, Pluribus parte de um evento inexplicável que reorganiza o mundo não tanto em termos políticos, mas espirituais. Em ambas, a questão central não é o que aconteceu, mas como viver depois. No entanto, enquanto The Leftovers se estrutura sobre a ausência e o luto, Pluribus radicaliza o oposto: um excesso de sentido, de pertencimento, de harmonia — tão sufocante quanto o vazio.
Há também um diálogo claro com Severance, especialmente na forma como a série da Apple TV+ transforma sistemas abstratos em experiências corporais e emocionais. Se em Severance a fragmentação da identidade é mediada pelo trabalho e pela lógica da produtividade, em Pluribus a fragmentação — ou melhor, a dissolução — se dá pela promessa do bem-estar coletivo. Ambas compartilham uma estética do desconforto: ambientes limpos demais, rostos calmos demais, silêncios que denunciam a violência invisível da normalização.
Black Mirror surge como um eco mais distante, porém relevante. A série antológica sempre operou como fábula moral sobre tecnologia e ética, mas raramente se permitiu o grau de lentidão e introspecção que Pluribus assume como método. Onde Black Mirror aponta o dedo, Pluribus permanece em silêncio — e é nesse silêncio que a série se torna mais perturbadora.
Já Westworld oferece uma chave filosófica distinta: a da consciência emergente. Se ali as perguntas giravam em torno de quem merece ser considerado humano, aqui a questão se inverte de forma cruel: o que resta do humano quando todos concordam demais? Em Pluribus, não é a consciência que desperta — é a individualidade que se torna suspeita.
Ao reunir esses ecos, percebe-se que Pluribus ocupa um lugar específico e raro na televisão contemporânea: o de uma narrativa sobre subjugação consentida, onde a confusão não nasce do caos, mas da ordem excessiva; onde o trauma não é a dor, mas a sua eliminação total.
Esse território narrativo — personagens isolados em ambientes hostis não pela violência explícita, mas pela homogeneização emocional — vem sendo explorado de forma crescente nas últimas décadas. Abaixo, uma linha editorial comparativa que ajuda a situar Pluribus dentro dessa tradição.
Ao se inserir nessa genealogia, Pluribus não apenas dialoga com suas predecessoras — ela desloca o eixo da discussão. Se antes a ficção televisiva se perguntava como resistir à opressão, aqui a pergunta se torna mais desconfortável: como resistir quando a opressão vem disfarçada de cuidado, pertencimento e felicidade?
É nesse ponto que Pluribus deixa de ser apenas mais uma série de ficção científica e se afirma como ensaio audiovisual sobre o nosso tempo — um tempo em que discordar, sofrer ou permanecer sozinho pode ser o último gesto verdadeiramente humano.
A produção da série é subsidiada por investimentos generosos da Apple, refletindo um cuidado artesanal em todos os níveis — desde a fotografia que privilegia atmosferas cinemáticas até os figurinos que parecem saídos de um futuro incerto. O uso de locações reais no sudoeste americano traz uma textura tangível às cenas, aprofundando a sensação de que este mundo poderia ser este aqui, apenas um pouco adiante no tempo.
Os efeitos visuais, embora não espetaculares no sentido blockbuster, funcionam de maneira orgânica, sustentando o mundo narrativo sem ofuscar a performance humana. Esse equilíbrio discreto entre efeitos e narrativa é uma assinatura de uma ficção científica que não busca maravilhar, mas perturbar.
O episódio final deixa uma série de questões abertas que são, ao mesmo tempo, deliciosamente provocativas e perturbadoras:
Qual é a verdadeira motivação do signal alienígena?
Carol será capaz de reverter o processo de união mental?
O que aconteceu com a autonomia dos doze demais imunes?
O que o futuro reserva para a relação com Zosia?
Estas pontas soltas não são falhas narrativas, mas sim gestos calculados para subverter a expectativa do espectador por resolução completa — e sugerem que a segunda temporada promete iluminar as sombras deixadas na primeira.
Até o momento, Pluribus consolidou-se como um fenômeno de audiência e crítica — alcançando altos índices de aprovação em agregadores como Rotten Tomatoes e estabelecendo novos recordes de audiência na Apple TV+. Ainda que a temporada seja recente demais para grande parte das cerimônias de premiação, já se especula fortemente sobre indicações ao Emmy, Golden Globe e Critics’ Choice Awards pela originalidade e atuação de Seehorn.
Quando a primeira temporada de Pluribus chega ao fim, não há catarse, tampouco alívio. O que permanece é um estado — uma suspensão incômoda, quase física — como se a série se recusasse a oferecer ao espectador aquilo que seu próprio mundo promete o tempo todo: conforto.
Pluribus não constrói sua distopia a partir da violência explícita, mas da eliminação cuidadosa do atrito. Seu gesto mais radical é imaginar um futuro onde ninguém é obrigado a sofrer — e perguntar, com delicadeza cruel, o que desaparece junto com a dor. O conflito, sugere a série, não é apenas uma falha do sistema humano, mas uma de suas condições.
Carol Sturka atravessa essa paisagem sem a aura do heroísmo tradicional. Ela não lidera, não converte, não salva. Sua resistência é silenciosa, quase anti-narrativa. Permanecer indivisa, em um mundo que se organiza para abolir a divisão, torna-se um ato político mínimo — e, por isso mesmo, definitivo.
Há algo de profundamente contemporâneo nessa recusa. Pluribus reconhece que já vivemos sob regimes sutis de normalização emocional, onde o dissenso é tratado como desajuste e a tristeza, como erro de funcionamento. A série não antecipa um amanhã distante; apenas estica, com precisão cirúrgica, as linhas do presente.
Ao final, resta uma pergunta que não pede resposta, apenas honestidade: se a felicidade deixasse de ser escolha e se tornasse consenso, ainda saberíamos reconhecê-la como humana? Talvez a série sugira — sem jamais afirmar — que o último espaço de liberdade não esteja na revolta, mas na permanência do desconforto.
É ali, nesse ponto exato de fricção, que Pluribus se encerra. Não como profecia, nem como advertência explícita, mas como uma pausa. Um silêncio cuidadosamente colocado para que o leitor, ao terminar de ler o artigo, leve consigo não uma conclusão, mas uma inquietação — dessas que resistem ao tempo e recusam o esquecimento — e se o último gesto de liberdade seja aceitar não estar bem?
Assista ao trailer da 1ª temporada da série Pluribus: