Compartilhe:
No limiar incerto entre o crepitar de fogueiras e o ranger de rodas sobre estradas de terra, Os Abandonados (The Abandons, 2025) ergue seu épico — não como uma simples reafirmação do faroeste clássico, mas como uma provocação estética e moral às narrativas que durante décadas relegaram as mulheres a papéis acessórios, romances melancólicos ou fantasmas no canto de saloons poeirentos. Nesta estreia da temporada, duas matriarcas distantes da mitologia tradicional da fronteira se convertem nos nervos expostos de uma América que se recusa a morrer em silêncio.
Ambientada no Território de Washington, década de 1850, a série acompanha o confronto entre Fiona Nolan e Constance Van Ness, duas mulheres que, em vez de subverterem o cânone do gênero, o radicalizam — trazendo à tona tensões de classe, gênero, fé, família e poder como fios nervosos de uma tapeçaria sangrenta.
A narrativa de Os Abandonados constrói sua força no investimento em personagens menos como arquétipos e mais como tensões vivas — seres humanos em conflito com versões idealizadas de si mesmos.
Fiona Nolan — A Fé como Fúria
Interpretada por Lena Headey, Fiona encarna um paradoxo visceral: devota católica, incapaz de gerar filhos, ela forja uma família de órfãos e excluídos — Elias, Dahlia, Albert e Lilla Belle — cujas lealdades os ligam a ela por escolha, e não por sangue. Sua fé é ao mesmo tempo consolação e arma de destruição: uma força que a impulsiona a proteger este grupo escolhido a qualquer custo, inclusive cruzando a tênue linha entre moralidade e brutalidade.
A transformação de Fiona ao longo da temporada acompanha a radicalização de sua fé: inicialmente um farol de esperança para os marginalizados, ela lentamente se molda à lógica de terra e sangue que permeia o Oeste, sugerindo que, na fronteira, a narrativa da “jornada do herói” pode muito bem ser a jornada de uma antiheroína que se torna aquilo que jurou combater. Esta é uma heroína cuja alquimia interior é, precisamente, a descoberta de que proteger seus amores pode torná-la quase indistinguível de seus inimigos.
Constance Van Ness — Poder como Monolito
Do outro lado está Constance Van Ness (Gillian Anderson), aristocrata implacável cuja riqueza vem da mineração — e cuja ambição é tão mineral quanto o metal que extrai do solo. Não é exagero afirmar que Constance é a personificação do capitalismo incipiente: ela não governa por carinho nem por fé, mas por cálculo e lógica de poder.
A dinâmica entre Constance e sua própria família — especialmente os filhos Garret e Trisha — é um estudo perturbador sobre a herança do patriarcado. Diferente do que se poderia esperar de um enredo que se proclama feminista, Constance é uma mulher que reproduz, em muitos aspectos, as estruturas de poder que o feminismo questiona: ela exige obediência, instrumentaliza relações afetivas e reduz todo elemento humano ao cálculo de sobrevivência de seu clã. A série, aqui, nos lembra que poder feminino não é automaticamente emancipador, e que feminismo sem crítica pode virar uma nova forma de tirania.
Coajuvantes e Ecos Narrativos — Uma Galeria de Dissonâncias
Os personagens secundários — o sonhador Elias Teller, a corajosa Dahlia Teller, o pragmático Albert Mason, e a enigmática Lilla Belle — não são meros apoios: eles representam as feridas sociais que a fronteira reproduz sem remorso. Elias, cujo romance proibido com Trisha Van Ness quebra tabus, ilustra a impossibilidade de amor puro em um mundo regido pela lógica de território e posse.
Cada um dos coadjuvantes carrega um contrato dramático com temas de raça, gênero e lealdade, e é nesse jogo de ecos que a série encontra sua riqueza narrativa — mesmo que por vezes combata consigo mesma na instabilidade tonal do roteiro, apontada por parte da crítica.
Se há um eixo sobre o qual a série gira, este é a relação explosiva entre Fiona e Constance. Elas não são apenas rivais; são espelhos uns dos outros, refletindo versões antitéticas do que poder feminino pode significar no Oeste: um poder nascido da necessidade coletiva e outro do domínio individual.
A narrativa constrói este antagonismo não apenas como conflito de classes (ricos versus pobres) ou de estilos de vida (sangue versus escolha), mas como dois protocolos de sobrevivência que se chocam em cada decisão narrativa: Fiona acredita que a comunidade precede o indivíduo; Constance crê que o indivíduo precede a comunidade.
Esta dicotomia — que lembra outras narrativas feministas de resistência vs. assimilação — encontra expressão em cenas onde as duas lideranças se tocam não apenas nos corpos, mas nos valores que representam. Cada gesto, cada olhar, cada absurdo dilacerante de poder revela que Os Abandonados não teme fazer do feminismo — não como slogan, mas como material narrativo — um campo de batalha.
A série merece uma leitura cuidadosa sobre como o feminismo nela habita zonas de conflito mais do que de afirmação simples.
O feminismo de Os Abandonados não se encontra nas falas, mas nos atos: na escolha de mulheres de defenderem territórios, nos modos como se articulam em situações de poder e vulnerabilidade, e na forma como suas decisões reverberam sobre homens e crianças. É feminino — mas nem sempre gentil, nem sempre ético, sempre ambíguo.
Do lado patriarcal, a série expõe sem misericórdia a violência latente do meio rural, desde disputas de terra até violência sexual, e como esse patriarcado não apenas subjugou mulheres historicamente, mas frequentemente as cooptou, mesmo quando elas detêm armas ou influência. Esse retrato não é confortável — é propositalmente incômodo.
O velho conceito da jornada do herói talvez precise ser reformulado ao se referir a personagens como Fiona e Constance. Aqui não há chamada mítica seguida de retorno triunfante. Há, antes, um círculo de consequências que revela que heróis, anti-heróis e vilões podem habitar a mesma pele.
A trajetória de Fiona — que começa ancorada na proteção e termina enredada na violência que condenava — funciona como uma jornada reversa: em vez de ascender a uma moral elevada, ela desce às profundezas de suas próprias contradições. Constance, por sua vez, demonstra que a jornada patriarcal do poder não termina no topo, mas se transforma em paranoia e destruição.
Nada neste faroeste é tão paradoxal quanto a presença da religião: a fé, que em muitas tradições sertanejas norte-americanas funciona como consolo, aqui serve tanto como força motivadora quanto como dispositivo de transgressão.
A devoção de Fiona é apresentada de forma ambígua: ao mesmo tempo em que humaniza sua liderança, ela justifica medidas extremas — sugerindo que, na fronteira, a fé pode ser arma ou escudo. O antagonismo entre dogma e pragmatismo moral permeia diálogos e decisões que escapam a uma simples leitura de certo e errado.
O faroeste sempre contou a mesma história: homens avançam, a terra resiste, alguém cai. Durante décadas, as mulheres existiram nesse imaginário como ruído lateral — promessa de lar, luto silencioso ou prêmio moral após a violência cumprida. O que mudou, nos últimos anos, não foi apenas a presença feminina no centro da cena, mas o modo como o próprio Oeste passou a se narrar.
Os Abandonados nasce desse ponto de inflexão. Não reivindica o faroeste; desconfia dele. Não busca corrigir o mito, mas expor sua ossatura — os acordos tácitos entre poder, fé e violência que sempre sustentaram a ideia de fronteira. O que antes era epopeia agora se revela como impasse.
Há ecos claros de outras travessias. Em Godless, o vazio deixado pelos homens abre espaço para uma comunidade feminina que governa não por idealismo, mas por necessidade. Em The English, o Oeste se apresenta como paisagem moral devastada, onde vingança e colonialismo se confundem. Em 1883, a expansão territorial ganha voz feminina e, com ela, perde qualquer ilusão de grandeza: conquistar passa a significar perder.
Mas Os Abandonados desloca o eixo. Aqui, o conflito não nasce da ausência masculina, nem da tentativa de sobreviver apesar dela. Ele emerge do choque entre duas formas de exercer poder feminino. Fiona Nolan e Constance Van Ness não representam polos morais; são sistemas em disputa. Uma acredita na comunidade como gesto de fé; a outra, na dominação como lógica histórica. Ambas operam dentro da mesma engrenagem de violência — e talvez seja isso o que mais incomoda.
O Oeste, nessa série, deixa de ser cenário e se transforma em linguagem. A terra não é promessa: é contrato. A fé não é consolo: é motor. A maternidade não é redenção: é risco. Nada aqui aponta para síntese ou superação. O feminismo que se infiltra nessas narrativas não oferece salvação — apenas lucidez trágica.
É nesse sentido que Os Abandonados dialoga com obras recentes que recusam a nostalgia. Outer Range trata a fronteira como instabilidade ontológica; American Primeval insiste na brutalidade como herança incontornável. Todas parecem concordar em um ponto: o Oeste não acabou — apenas parou de fingir.
O que essa linha revela não é evolução, mas deslocamento. As mulheres que agora ocupam o centro do faroeste não suavizam o gênero — elas o tornam mais honesto. O mito permanece, mas rachado. E, pelas frestas, o que se vê não é progresso, e sim a pergunta que o Oeste sempre evitou: quem paga o preço da sobrevivência quando não há mais heróis?
Filmada em Calgary, Alberta, a produção busca um visual de fronteira implacável — e, mesmo quando a crítica aponta inconsistências e anacronismos em figurino, a intenção estética é clara: fazer do Oeste um lugar tão implacável quanto psicológico.
O figurino, quando funcional, sublinha distinções sociais — do desgaste do traje de Fiona ao tecido impecável de Constance — reforçando quem detém status e quem luta para sobreviver. Os efeitos especiais, em alguns momentos criticados por insuficiência ou artefatos visuais, não prejudicam a força da narrativa visual quando esta se ancora mais em performances do que em espetáculo digital.
O episódio final deixa questões cruciais em aberto: o destino de alguns personagens centrais (especialmente o romance fracassado entre Elias e Trisha), o futuro da família Van Ness após a devastação de sua propriedade, e o papel de Fiona se tornar uma figura ainda mais ambígua no cenário político da fronteira — cada um desses pontos funciona como gancho narrativo para uma possível segunda temporada.
Até o momento não há registros de nomeações ou prêmios principais para The Abandons em circuitos como Emmys ou Globos de Ouro — mas a série tem sido listada em indicações de audiência em premiações específicas da Netflix (por exemplo, Best New Drama Series em prêmios de público/streaming), embora com repercussão crítica mista.
Os Abandonados é uma série que não se contenta em recontar o faroeste, mas em reexaminar suas fundações morais. Sua coragem está, paradoxalmente, em expor fragilidades narrativas — falhas de roteiro, oscilações de tom, personagens que respiram mais como ideias do que como carne — e, ainda assim, convidar o público a mergulhar em questões de gênero, fé, poder e violência da maneira mais crua possível.
É um faroeste feminista? Talvez. É um faroeste que questiona o que feminismo significa em um mundo onde a lei é incerta, a sobrevivência é brutal e a moral é uma moeda de troca? Indubitavelmente.
Assista ao trailer da 1ª temporada da série Os Abandonados: