Em um inverno londrino que parece refletir a frieza dos mercados globais, O Roubo (Steal, 2026) surge como algo mais do que uma simples série de assalto. Ela se oferece como um espelho inquietante encarado de frente pelo espectador — cortante como a lâmina que rasga o mercado financeiro e indignante como qualquer notícia de fraude bilionária que já vimos nos últimos anos.
Criada por Sotiris Nikias e lançada em 21 de janeiro de 2026 no Amazon Prime Video, a minissérie britânica posiciona sua protagonista Zara Dunne — vivida com ardor contido por Sophie Turner, conhecida mundialmente por sua Sansa Stark em Game of Thrones e por sua incursão no universo dos mutantes em X-Men: Fênix Negra — no epicentro de um golpe de proporções colossais: um roubo de quase £4 bilhões de uma gestora de fundos de pensão.
Mas dizer que O Roubo é apenas sobre um crime de grandes números seria abraçar a superfície e perder o abismo que jaz por trás dela.
Zara não é uma heroína clássica — e talvez por isso ela seja tão fascinante. Não passa de uma funcionária da equipe de trade processing, uma engrenagem minúscula em uma máquina financeira imensa, com vida social precária e vícios domésticos que a afastam de qualquer idealização romântica.
É nessa precariedade que o conceito clássico da jornada do herói encontra uma ironia mordaz: não há uma ascensão mítica ou transcendência espiritual, mas sim uma transformação forçada pela brutalidade das circunstâncias. Zara, forçada a colaborar com assaltantes armados e a transferir bilhões para contas desconhecidas, cresce não por virtude, mas por necessidade — uma metamorfose que supera a linha tênue entre sobrevivência e cumplicidade.
Enquanto contra-heróis tradicionais atravessam crises com discursos sobre “destino” ou “honra”, Zara evolui entre culpa e pragmatismo, refletindo a tensão entre livre-arbítrio e determinismo social — uma mulher que não escolheu o jogo, mas foi compelida a jogá-lo e a reescrever suas próprias regras.
À primeira vista, o elenco de personagens secundários pode parecer estereotipado — o melhor amigo perturbado (Luke, de Archie Madekwe), o inspetor torturado pela própria vida (DCI Rhys Covaci, de Jacob Fortune-Lloyd) e os assaltantes genéricos com nomes como “London” ou “Sniper”.
Mas é justamente nessa superfície familiar que reside a força simbólica da narrativa: cada figura — mesmo quando reduzida a um arquétipo — espelha aspectos fragmentados da sociedade contemporânea. Luke — interpretado por Archie Madekwe, que já transitou entre o terror atmosférico de Midsommar e o drama esportivo de Gran Turismo, além da série distópica See — encarna o trauma intergeracional e a impotência de uma geração economicamente esmagada; Covaci — vivido por Jacob Fortune-Lloyd, lembrado por seu papel em O Gambito da Rainha e por sua participação em Star Wars: A Ascensão Skywalker — representa o Estado fraturado, em dívida com seus próprios demônios tanto quanto com a lei; e os assaltantes, usando nomes genéricos, evocam a mercantilização do próprio indivíduo.
O deslocamento entre personagem e representatividade social é constante, e a série usa essa tensão para transformá-los em motores dramáticos que desafiam o protagonista e refletem a complexidade ética de todos nós.
Embora O Roubo não seja baseado em eventos específicos, sua premissa reverbera ecos das maiores fraudes e roubos financeiros já registrados. Nos Estados Unidos, o nome de Bernie Madoff tornou-se sinônimo de fraude de proporções bíblicas — um esquema Ponzi que chegou a enganar investidores em cerca de US$65 bilhões, impactando milhares de pessoas em mais de 120 países.
No Brasil, o famoso assalto ao Banco Central de Fortaleza, em 2005, é um lembrete de que a realidade pode ser tão cinematográfica quanto qualquer ficção: cerca de R$160 milhões foram furtados de um cofre após um túnel de 75 metros ser escavado, em uma operação tão ousada quanto meticulosa.
Já episódios como o Bangladesh Bank robbery, em 2016, mostram que a modernidade digital transformou o roubo físico em manipulação virtual de sistemas financeiros globais, com ordens fraudulentas que tentaram transferir quase US$1 bilhão por meio da rede SWIFT.
Nesses exemplos — como na série — o crime transcende o ato físico para revelar falhas sistêmicas, rupturas éticas e a fragilidade das instituições que deveriam proteger a confiança pública.
O Roubo é, sobretudo, um texto sobre a cultura do desconforto. A estética visual e narrativa reflete uma era obcecada pelo espetáculo do crime, mas incapaz de confrontar suas próprias contradições éticas. Não se trata apenas de roubar bilhões — mas de expor, em estilhaços narrativos, o que fazemos com o significado de “valor”.
O tema do roubo em grande escala se torna uma metáfora para o individualismo extremo, em que cada personagem está preso entre seus desejos pessoais, rupturas familiares e a ilusão de pertencimento a uma comunidade que já não existe. Zara, em particular, carrega um trauma intergeracional não explicitado, que se revela não em flashbacks melodramáticos, mas em seus olhares cansados, nos relacionamentos falhos e na constante subestimação de si mesma.
A série também joga com a estética do desconforto: a violência é muitas vezes subentendida, mas a pressão psicológica é onipresente — uma escolha estética que reforça o horror silencioso de uma vida sem segurança, sem família e sem sentido claro de pertencimento maior.
Embora o cerne de O Roubo seja o crime financeiro, a série não ignora as questões de poder que se infiltram nas relações humanas. As dinâmicas abusivas se manifestam não apenas na força física dos assaltantes, mas no próprio ambiente de trabalho: hierarquias corporativas que exploram, isolam e diminuem seus funcionários. A empresa Lochmill Capital, com sua fachada de sucesso glacial, lembra que lares e instituições podem ser igualmente tóxicos — ambientes onde membros são condicionados a aceitar abusos por medo ou desespero.
Zara e Luke, em particular, atravessam ciclos de abuso emocional que se estendem para além do crime central: relações quebradas, dependência mútua e a incapacidade de se libertar de padrões danosos. Isso transforma O Roubo em algo mais que um thriller: é um estudo sobre traumas cotidianos, e como eles moldam a forma como percebemos o mundo e a nós mesmos.
A produção de O Roubo não economiza em escolhas estéticas ousadas. A direção de Sam Miller e Hettie Macdonald alterna entre precisão cirúrgica e caos controlado, criando uma linguagem visual que balanceia tensão e frieza corporativa.
Os figurinos e locações — principalmente o contraste entre os arranha-céus frios da City de Londres e os interiores claustrofóbicos dos escritórios — reforçam a dicotomia entre a aparência de ordem e a desordem moral que permeia a narrativa. A fotografia joga com luzes duras e sombras profundas, refletindo a dualidade entre o mundo público e os santuários íntimos quebrados de cada personagem.
Curiosamente, O Roubo ainda não liderou grandes prêmios importantes de premiação até o momento. Contudo, parte de sua recepção crítica tem sido positiva — com 80% de aprovação no Rotten Tomatoes e resenhas que destacam a performance inquietante de Turner como o principal atrativo da obra.
A tradição de thrillers de roubo e conspiração é rica e diversa. A seguir, uma timeline editorial que contextualiza O Roubo dentro desse legado dramático:
No término dessa narrativa — tão compacta quanto uma corda de piano esticada até seu limite — O Roubo não oferece conforto, nem pretendia fazê-lo. Ela nos deixa com um espelho incômodo: questionando nossas certezas, nossos valores e a própria estrutura que chamamos de sociedade.
A obra nos força a confrontar algo mais profundo do que a montanha de números que desaparecem em um servidor corporativo. O verdadeiro “roubo” pode não ser apenas o dinheiro, mas a nossa confiança na justiça, na comunidade e na capacidade humana de se regenerar.
O Roubo não é apenas sobre um crime — é sobre nós. Sobre as rachaduras de um mundo que se tornou hedonista, fracionado e desconectado das raízes que um dia chamamos de humanidade.
Assista ao trailer da minissérie O Roubo:
Ficha técnica:
Nome: O Roubo | Minissérie | Reino Unido, 2026
Desenvolvimento: Sotiris Nikias
Direção: Sam Miller, Hettie Macdonald
Roteiro: Sotiris Nikias
Elenco: Sophie Turner, Archie Madekwe, Jacob Fortune-Lloyd, Andrew Howard, etc.
Duração: 6 episódios de aproximadamente 50 min.