Existem séries de época que usam o passado como cenário bonito. Mil Golpes faz o oposto: usa o passado como confronto. Já na primeira temporada, analisada e apresentada anteriormente aqui no site, a série deixava claro que seu interesse não era a nostalgia, mas o choque entre sobrevivência e exclusão. Na segunda temporada, lançada em 2026, a criação de Steven Knight aprofunda essa vocação incômoda — mostrar que, para muita gente, viver sempre foi um combate diário, muito antes de qualquer luta organizada dentro de um ringue.
O boxe continua no centro da narrativa, com punhos nus, apostas ilegais e corpos levados ao limite. Mas a série deixa cada vez mais claro que os golpes decisivos não vêm apenas da luta física. Eles vêm da sociedade, das regras invisíveis, da cor da pele, do gênero, da pobreza e da sensação constante de não pertencer a lugar nenhum.
É uma temporada mais madura, mais amarga e também mais consciente do impacto emocional que quer causar. Mil Golpes não quer apenas entreter. Quer incomodar.
A Londres do fim do século XIX retratada na série não é romântica, nem distante. É suja, barulhenta e desigual. O East End aparece como um espaço de sobrevivência extrema, onde quem nasce pobre já começa em desvantagem.
Na segunda temporada, a cidade ganha ainda mais peso. Ela não serve apenas de cenário: funciona como uma força que pressiona os personagens o tempo todo. Cada rua parece empurrá-los para escolhas difíceis. Cada oportunidade vem acompanhada de risco.
Steven Knight constrói um mundo em que quase ninguém tem boas opções. O que muda é o caminho escolhido para enfrentar essa realidade. Alguns recorrem à violência direta. Outros à inteligência, ao crime organizado ou à manipulação. Muitos simplesmente tentam não desaparecer.
É nesse ambiente que a série faz sua pergunta central: o que sobra de alguém depois de lutar tanto apenas para continuar existindo?
No centro da história está Hezekiah Moscow, interpretado por Malachi Kirby com uma mistura rara de força física e fragilidade emocional. Ele é um imigrante negro vindo da Jamaica, tentando se firmar em uma sociedade que o observa com desconfiança e o mede, antes de tudo, pelo corpo.
Na primeira temporada, Hezekiah descobre no boxe uma possibilidade de ascensão. Na segunda, ele descobre o preço disso. Já não é apenas o jovem promissor; é um lutador conhecido, observado, cobrado. Cada vitória traz dinheiro e reconhecimento — e também mais controle, mais vigilância e menos liberdade.
A trajetória de Hezekiah lembra a clássica história de ascensão, mas a série desmonta qualquer ilusão de conquista fácil. Ele pode vencer no ringue, mas isso não significa vencer o sistema. Fora dele, continua sendo visto como alguém que ocupa um espaço que não foi feito para ele.
O boxe, aos poucos, deixa de ser apenas uma saída e passa a ser também uma armadilha. A série é cuidadosa ao mostrar esse desgaste: o cansaço físico, o medo constante de errar, a pressão para continuar mesmo quando o corpo e a mente pedem pausa.
Hezekiah quer mais do que dinheiro. Quer dignidade. Quer escolher seu caminho. E é justamente isso que o mundo à sua volta insiste em negar.
Um dos movimentos mais interessantes da segunda temporada é aprofundar o olhar sobre o boxe como entretenimento. As lutas atraem multidões, apostas e dinheiro, mas quem realmente lucra raramente é quem apanha.
A série mostra como os lutadores são tratados como mercadoria. Quando vencem, são celebrados. Quando perdem ou se machucam, são substituídos. O corpo vira investimento — e depois descarte.
Essa lógica atravessa a vida de Hezekiah e de outros personagens. Eles sabem que estão sendo usados, mas também sabem que poucas alternativas existem. O ringue vira um espaço de visibilidade, mas também de exposição extrema.
A pergunta que paira é simples e cruel: até quando vale a pena continuar?
Se Hezekiah representa o corpo explorado, Mary Carr representa a mente que aprende a operar dentro das falhas do sistema. Vivida por Erin Doherty, Mary lidera a gangue feminina Quarenta Elefantes, inspirada em um grupo real de mulheres que existiu na época.
Mary não é apresentada como símbolo de pureza ou justiça. Ela rouba, engana, manipula. Mas faz isso em um mundo que praticamente não oferece caminhos legítimos para mulheres pobres. Sua força está na leitura rápida das situações e na capacidade de organizar outras mulheres ao seu redor.
A segunda temporada aprofunda suas contradições. Mary quer poder, mas também quer controle. Quer independência, mas precisa lidar com alianças frágeis e traições constantes. Sua liderança não é fácil nem limpa.
As Quarenta Elefantes funcionam como uma comunidade alternativa. Entre mulheres que foram descartadas pela sociedade, cria-se um senso de pertencimento. Há solidariedade, mas também disputas internas. A série evita idealizações: ali também existem hierarquias, erros e consequências.
O feminismo de Mil Golpes não vem em discursos. Ele aparece nas escolhas difíceis, nas negociações, na recusa em aceitar o lugar imposto.
Stephen Graham retorna como Sugar Goodson, um lutador experiente que já viveu seus dias de glória. Na segunda temporada, ele aparece mais cansado, mais instável, mais consciente de que o tempo não joga a seu favor.
Sugar é o retrato de quem construiu a identidade inteira em torno da violência. Quando o corpo começa a falhar, sobra pouco em que se apoiar. A série se aproxima dele com empatia, sem desculpar seus atos, mas também sem reduzi-lo a vilão.
Há algo profundamente triste em Sugar: ele sabe que ajudou a manter um sistema que agora o descarta. Sua trajetória funciona como aviso silencioso para Hezekiah — um possível futuro que se aproxima rápido demais.
A segunda temporada também se destaca por dar mais espaço aos personagens secundários. Policiais corruptos, empresários do submundo, membros de gangues, trabalhadores explorados — todos ajudam a mostrar as diferentes camadas desse mundo desigual.
Esses personagens não existem apenas para movimentar a trama. Eles mostram como a violência é estrutural. Mesmo quem não sobe ao ringue participa do mesmo jogo, seja lucrando com ele, seja sendo esmagado por ele.
A sensação é clara: ninguém está totalmente fora do sistema. E sair dele custa caro.
O racismo em Mil Golpes não aparece como evento isolado. Ele está nas oportunidades negadas, nos olhares, nos limites invisíveis que se impõem aos personagens negros.
Hezekiah é celebrado enquanto vence, mas rapidamente lembrado de que seu lugar é provisório. A série mostra como a sociedade aceita o talento negro, mas resiste a reconhecer humanidade plena.
Não há discursos longos nem lições didáticas. O racismo aparece no cotidiano, na repetição, no desgaste. Isso torna a crítica ainda mais eficaz — e mais difícil de ignorar.
Um tema que ganha mais espaço nesta temporada é a relação dos personagens com a fé. Para alguns, a religião surge como consolo. Para outros, como controle moral. Para muitos, como último recurso quando tudo falha.
A série não apresenta respostas simples. A fé pode ajudar a suportar a dor, mas também pode justificar submissão e silêncio. O que importa é como cada personagem lida com essa herança espiritual em um mundo violento.
A ideia de recomeço aparece como desejo constante, mas raramente como realidade. Mil Golpes é honesta ao mostrar que nem todos conseguem se reconstruir — e que isso também faz parte da história.
A segunda temporada insiste em um ponto incômodo: agir corretamente nem sempre é possível quando o sistema é injusto. Roubar, mentir, ferir — tudo isso aparece não como virtude, mas como estratégia de sobrevivência.
A série evita julgamentos fáceis. Ela entende que, para quem nasce à margem, a moral costuma ser negociável porque a sobrevivência é urgente.
Essa ambiguidade atravessa todos os personagens e dá densidade emocional à narrativa.
Visualmente, Mil Golpes continua impressionante. A fotografia aposta em ambientes escuros, iluminação baixa e enquadramentos fechados, reforçando a sensação de sufoco.
As ruas parecem sempre molhadas, os interiores apertados, os rostos cansados. Nada é polido demais. O figurino acompanha essa proposta, com roupas gastas, tecidos pesados e marcas de uso que contam histórias silenciosas.
As cenas de luta são cruas. Não há glamour exagerado. Cada golpe parece doer também em quem assiste. A violência não é um espetáculo confortável — e isso é intencional.
A segunda temporada consolidou Mil Golpes como um dos dramas históricos mais comentados do ano. A crítica destacou as atuações, a coragem temática e a forma direta com que a série aborda desigualdade, racismo e gênero.
Não é uma série feita para agradar a todos. Mas é exatamente essa postura que a torna relevante.
A segunda temporada de Mil Golpes não oferece conforto. Ela não promete justiça rápida nem redenção garantida. O que oferece é resistência.
Ao acompanhar personagens que seguem em frente mesmo feridos, a série lembra que muitas das estruturas que os esmagam ainda existem — apenas mudaram de forma.
Talvez seja por isso que Mil Golpes incomode tanto. Porque o passado que ela mostra ainda conversa demais com o presente.
E porque, no fim, a série nos força a encarar uma verdade simples e difícil: para muita gente, sobreviver continua sendo um ato de rebeldia.
Assista ao trailer da 2ª temporada da série Mil Golpes: