Poucos livros revelam o desfecho na primeira frase e ainda assim prendem o leitor até o último parágrafo. Em Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez conta que Santiago Nasar vai morrer e diz quem vai matá-lo. A cidade inteira já sabia. O que interessa na leitura é descobrir como tanta gente viu o crime chegando e deixou que ele acontecesse.
Uma história real contada como quebra-cabeça
O livro nasceu de um caso verdadeiro. Em 22 de janeiro de 1951, na cidade colombiana de Sucre, dois irmãos mataram a facadas Cayetano Gentile Chimento, amigo de infância do autor, porque a irmã deles foi devolvida à família pelo marido na noite de núpcias. Na ficção, Cayetano vira Santiago Nasar, e a cidadezinha ganha um clima de calor, mofo e conversa de esquina.
García Márquez monta a história como se fosse uma reportagem feita anos depois. Um narrador volta ao lugar, escuta moradores, junta lembranças que se contradizem e reconstrói as últimas horas de Santiago. A própria apresentação da edição brasileira destaca esse rigor jornalístico na reconstituição dos fatos. O leitor acaba trabalhando como um investigador, porque cada depoimento muda um pouco o que parecia certo.
Uma cidade inteira com sangue nas mãos
Os gêmeos Pedro e Pablo Vicario passam a manhã contando a quem encontra o que pretendem fazer, e chegam a afiar as facas num açougue. Ninguém leva muito a sério, ou leva a sério e prefere que outra pessoa resolva. Cada morador tem a sua desculpa: achou que era conversa de bêbado, achou que alguém já tinha avisado, achou que não era da sua conta.
Esse é o ponto mais incômodo do livro. Santiago segue o dia sem desconfiar de nada, enquanto a notícia corre de boca em boca pelos lugares onde ele passa. A mãe dele, achando que o filho já está em casa, tranca a porta da frente, e é nesse gesto banal que o destino se completa. A tragédia vem de uma soma de pequenas omissões, e é fácil reconhecer nos moradores as atitudes de quem hoje prefere não se meter.
Honra, hipocrisia e o que o livro deixa de lado
A causa do crime é a honra. Ángela Vicario é devolvida pelo marido, Bayardo San Román, ao descobrir que ela não era virgem, e a família exige um culpado. Ela aponta Santiago, e os irmãos se sentem obrigados a lavar o nome da casa com sangue. O livro mostra como essa ideia de honra serve de justificativa para a violência, enquanto os homens da cidade vivem de forma bem mais solta do que cobram das mulheres.
A leitura também tem seus limites. Conhecemos pouco Santiago, e nunca fica claro se ele era de fato culpado. Ángela quase não tem voz, e quem espera mergulhar na cabeça dos personagens pode sentir falta. Talvez seja de propósito, já que a dúvida fica sem resposta e a cidade também nunca soube a verdade. A prosa seca e os saltos no tempo pedem atenção, mas o livro é curto e compensa o esforço.
Uma curiosidade mostra como ficção e realidade se misturaram. Em 2010, uma juíza rejeitou o pedido de Miguel Reyes Palencia, que se via retratado na história e queria metade dos ganhos da obra, por entender que se tratava de uma narrativa imaginária.
O livro que deixa a faca na nossa mão
Terminar o livro dá uma sensação esquisita. A gente sabia o final desde a primeira linha e, mesmo assim, torcia para alguém abrir a porta a tempo. Esse é o truque charmoso de Gabo, que transforma o leitor em mais um vizinho da praça, de braços cruzados, esperando que outro tome uma atitude.
Fechar a última página é descobrir, com certo constrangimento, que a gente também teria achado que não era da nossa conta. São poucas páginas, que cabem numa tarde, e acusam a gente por muito mais tempo.
Fontes:
El Litoral, Fundação Gabriel Garcia Marquez, Literariness, Skoob
Ficha técnica do livro:
Nome: Crônica de uma morte anunciada (título original: Crónica de una muerte anunciada, 1981)
Autor: Gabriel García Márquez
Editora: Record (edição brasileira)
Gênero: Romance curto, ficção com estrutura de reportagem
Nº páginas: 160 na edição da Record, com variação conforme a edição
Sobre o autor:
Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 1928 – Cidade do México, 2014), conhecido como Gabo, foi escritor e jornalista. Criado pelos avós, absorveu desde cedo as histórias e crenças populares que marcariam sua obra. Largou o curso de Direito para seguir o jornalismo, e essa formação de repórter aparece no estilo direto e no gosto por reconstituir fatos.
Ficou mundialmente conhecido com Cem anos de solidão (1967), símbolo do realismo mágico, e também escreveu O amor nos tempos do cólera e Crônica de uma morte anunciada. Recebeu o Nobel de Literatura em 1982.