A primeira frase do livro — "Sabia que o céu já foi azul?" — funciona como um soco inicial que estabelece imediatamente o abismo entre o "antes" e o "agora". Não se trata de uma pergunta retórica ou filosófica, mas de uma constatação devastadora: existe uma geração que nasceu em um mundo onde o vermelho é a cor natural do horizonte, onde nuvens negras dominam o céu e a chuva tem cheiro de decomposição.
O cenário é um Brasil cerca de quarenta anos após o "Marco Zero", evento catastrófico não completamente explicado que eliminou 99,9% da população mundial e reduziu o planeta a um estado de colapso ambiental e social extremo. Cidades viraram esqueletos de concreto cobertos de areia ou devorados por vegetação morta. Não há mais animais — foram exterminados pelo vírus ou pelo caos. A única "carne" disponível, em muitos casos, é a humana.
Diferente de narrativas pós-apocalípticas convencionais, Colapso não possui um protagonista único. A trama acompanha múltiplos grupos de sobreviventes que se cruzam ao longo do livro, cada um representando uma faceta diferente da condição humana em colapso.
Camargo lidera um bando de sobreviventes e constitui uma das figuras moralmente mais ambíguas da narrativa. Homem duro, carregado de convicções patriarcais, acostumado a vencer pela força bruta, ele encarna a lógica hobbesiana de que, em situações de colapso total, prevalece a sobrevivência individual em detrimento de qualquer pacto social.
Garoto, adolescente sem nome próprio revelado, oferece uma das perspectivas mais humanizadas do romance. Sua trajetória representa a inocência relativa em um mundo que desaprendeu a ser humano. Já o Velho, personagem secundário apontado por parte da crítica como uma das presenças mais memoráveis, carrega a memória do "antes" — e essa memória é tanto um fardo quanto uma bússola moral em um mundo que já não reconhece os antigos valores.
Diana lidera Atenas, uma comunidade de mulheres sobreviventes que busca resgutar e proteger outras mulheres em um mundo onde o corpo feminino virou mercadoria. Mas Diana também tem suas sombras: o poder corrompe, sempre corrompe, e mesmo em uma irmandade de resistência há dilemas éticos que não admitem respostas fáceis.
O Espanhol, sobrevivente argentino, reforça a dimensão transnacional do colapso retratado, lembrando que o desastre não respeitou fronteiras nacionais. E há ainda núcleos narrativos secundários — um casal à espera de um bebê, três amigos com sua cachorra Rainha percorrendo o país, homens sem nome que vagam sozinhos — que compõem um mosaico de humanidade fragmentada.
A violência em Colapso não é espetáculo. É realidade documentada. Há cenas de estupro, canibalismo, tortura, assassinatos brutais — e o posfácio do autor faz questão de correlacionar episódios ficcionais a crimes e atrocidades reais documentadas. Nada ali foi inventado, como o próprio Denser afirma: tudo tem base em coisas que acontecem desde sempre, no mundo em que vivemos agora.
Essa abordagem gera debates. Parte da crítica questiona se o nível de detalhamento das cenas de violência sexual contra mulheres é narrativamente necessário ou se flerta com o sensacionalismo. O blog Gramatura Alta, por exemplo, reconhece as qualidades técnicas do autor — ambientação, ritmo, estrutura de convergência narrativa —, mas sugere que o romance cruza ocasionalmente a fronteira entre o chocante necessário e o gratuito.
Mas há quem defenda que a brutalidade retratada funciona como reflexo documental da realidade, não como recurso ornamental. Como escreveu uma leitora no Goodreads: "A crueldade humana é real, seja por trauma, seja por causa das condições de vida, ou simplesmente por ser algo que encaro como natural em muita gente, infelizmente".
O grande trunfo de Colapso não é o gore. É a ambiguidade moral. Denser cresceu em um bairro violento na Paraíba e aprendeu cedo que as pessoas não são 100% boas nem 100% más. Essa lição atravessa todo o livro: os personagens mais velhos — que ainda lembram do "Antes" — carregam uma moral parecida com a nossa. Eles sabem que matar é errado. Que estuprar é errado. Que comer gente é errado. Mas estão num mundo onde sobreviver exige fazer coisas erradas.
Os mais jovens, que só conhecem o "Agora", têm uma moral completamente diferente. Para eles, o canibalismo não é tabu. A violência não é exceção, é regra. Eles não escolhem ser monstros — eles simplesmente não sabem que existe outra forma de ser.
E aí vem a pergunta que Denser deixa no ar: o que nos torna humanos? É a biologia? É a consciência? É a capacidade de escolher? Ou é só o luxo de viver num mundo onde a gente pode se dar ao luxo de ter moral?
Uma das características mais elogiadas (e também criticadas) do livro são os capítulos extremamente curtos. Isso deixa a leitura fluida, rápida, quase cinematográfica. Você começa um capítulo, termina em três páginas, pensa "só mais um", e quando vê já passou da metade do livro.
O livro é dividido em três partes — Depois do Fim, Na Estrada e Colapso — seguidas de um epílogo. A estrutura é composta por capítulos curtos com alternância frequente de pontos de vista entre os diferentes núcleos de personagens, recurso amplamente destacado pela crítica como responsável pelo ritmo acelerado e pela leitura compulsiva da obra.
Mas também há quem sinta que essa fragmentação impede um aprofundamento maior. Uma leitora da Amazon reclamou que faltaram descrições físicas dos personagens — ela formava uma imagem mental de alguém e só no final descobria que era completamente diferente. É uma crítica justa. Denser vai direto ao ponto, mas às vezes deixa no caminho detalhes que alguns leitores sentem falta.
O próprio autor declarou influências de Roberto Bolaño, pela multiplicidade de narradores e pela atenção a personagens marginais, e de Cormac McCarthy, pela visão pessimista da natureza humana e pelo uso da violência frontal como recurso estético.
Colapso foi escrito em 2015, mas parece ter sido publicado ontem. O mundo em que vivemos não é tão diferente assim do mundo do livro. Temos um colapso climático batendo à porta. Temos guerras que não param de se espalhar. Temos políticos que parecem ter desistido de governar para se dedicar apenas a se manter no poder. Temos uma desigualdade que cresce a olhos vivos.
Denser não está prevendo o futuro. Ele está descrevendo o presente. Só que, no presente, a gente ainda tem o luxo de fingir que não está acontecendo. No livro, esse luxo acabou.
Como ele mesmo disse em entrevista: "Creio que a humanidade está sempre à beira do colapso. É como se o colapso fosse uma espécie de espada de Dâmocles sobre a cabeça imaginária da humanidade. Não sou a pessoa mais otimista do mundo. Creio que basta um pouco de azar para que tudo desmorone".
Colapso é um livro que te arrasta para o fundo do poço e não te dá uma corda para subir. Ele te mostra o pior da humanidade sem pedir licença, sem suavizar, sem dar esperança falsa. Mas, paradoxalmente, é também um livro sobre esperança. Não aquela esperança boba de que "tudo vai ficar bem". Mas aquela esperança teimosa de que, mesmo no fundo do poço, ainda existe algo humano — ainda existe afeto, lealdade, cuidado.
Roberto Denser não escreve para confortar. Escreve para confrontar. E Colapso é um confronto que vale a pena ter — mesmo que você precise respirar fundo várias vezes antes de virar a página.
Como uma leitora sintetizou: "é o livro mais pesado que já li, mas é também um dos mais importantes". Porque a literatura, no seu melhor, não é sobre nos fazer sentir bem. É sobre nos fazer pensar. E Colapso faz pensar. Sobre o mundo. Sobre os outros. Sobre a gente mesmo. E sobre o que a gente faria se o céu deixasse de ser azul.
Darkside, Goodreads, Gramatura Alta, Jornal Cultural ROL, Portal Sobrenatural, Salada Médica, Wikipédia
Ficha técnica do livro:
Nome: Colapso
Autor: Roberto Denser
Editora: DarkSide Books (edição de 2023; publicação independente original em 2021)
Gênero: Romance distópico, ficção científica, horror
Nº páginas: 448
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Semifinalista do 66.º Prêmio Jabuti (2024) na categoria Romance de Entretenimento
Sobre o autor:
Roberto Denser é escritor, roteirista e tradutor brasileiro, nascido na Paraíba em 1985 e radicado no Rio de Janeiro. Antes de Colapso, publicou o livro de contos A Orquestra dos Corações Solitários e o romance Para Elisa. Atuou também como livreiro e professor de escrita criativa, experiências que influenciaram sua atenção ao cotidiano e às referências culturais presentes em sua obra.