Sandra passa a mão pelos livros do pai como quem procura um idioma que já não existe. Eles continuam ali — alinhados, numerosos, silenciosos — mas ele já não está inteiro em nenhum deles. Há dias em que ele ainda tenta ler; em outros, limita-se a observar as lombadas como se fossem vestígios arqueológicos de si mesmo. A câmera de Mia Hansen-Løve não sublinha o gesto. Apenas permanece.
É assim que Uma Bela Manhã (Un beau matin, 2022) começa a nos ensinar seu método: não anunciar a dor, mas deixá-la infiltrar-se. Não construir o drama, mas habitá-lo. Em um tempo cinematográfico saturado de performances explosivas e arquiteturas narrativas em busca de impacto, o filme escolhe outro caminho — o da observação radical. Ele não quer provar nada. Quer acompanhar.
O título, luminoso, quase banal, funciona como ironia suave. Não há exatamente beleza nessa manhã: há rotina, desgaste, interrupções, compromissos que se acumulam, telefonemas que não resolvem nada. A beleza, se existe, está na recusa da obra em embelezar. O que Hansen-Løve filma é aquilo que raramente se oferece ao cinema: a continuidade da vida quando tudo já começou a falhar.
Uma Bela Manhã não é um filme sobre a morte.
É um filme sobre aquilo que vem antes.
Sobre o luto que se instala enquanto ainda se ama.
Sobre a estranha experiência de acompanhar alguém que desaparece aos poucos — e de ter de seguir existindo enquanto isso acontece.
Léa Seydoux não “interpreta” Sandra. Ela a sustenta. Seu trabalho é feito menos de emoções do que de estados: tensão contida nos ombros, respiração curta, um olhar que aprende a não se fixar por muito tempo. Nada nela pede atenção; tudo nela a retém.
Sandra é mãe solo, viúva, tradutora. Circula entre compromissos profissionais, cuidados domésticos e visitas institucionais. Organiza o mundo como quem tenta impedir que ele se espalhe demais. Seydoux constrói essa mulher por permanência: ela quase nunca sai de cena, quase nunca se autoriza ao colapso. Seu sofrimento não se impõe — infiltra-se.
Pascal Greggory, como Georg, o pai, compõe um retrato raro da degeneração: sem caricatura, sem aura edificante. Georg foi professor, homem de pensamento, leitor obsessivo. Agora, luta com palavras que se recusam a obedecer, com frases que se quebram antes de terminar. Em seus momentos de lucidez, emerge não a sabedoria, mas o constrangimento de quem percebe a própria falha. O orgulho não desapareceu. A identidade, sim.
Entre eles instala-se um vínculo assimétrico: ela avança, ele recua; ela organiza, ele resiste; ela cuida, ele tenta preservar restos de autonomia. O afeto não é apresentado como redenção, mas como fricção.
Melvil Poupaud, como Clément, introduz outro tipo de instabilidade. Amigo reencontrado, amor possível, presença que desloca. Ele não oferece saída — oferece risco. Sua relação com Sandra não organiza o filme; desorganiza-o. E é justamente essa perturbação que impede a narrativa de se fechar sobre o luto. O desejo aqui não cura. Ele complica.
O que se estabelece entre esses corpos não é a dramaturgia da catarse, mas a da convivência.
Embora não se apresente como autobiografia, o filme carrega a densidade de algo vivido. Hansen-Løve escreveu o roteiro após acompanhar o adoecimento do próprio pai, e essa proximidade se manifesta não como confissão, mas como textura. Nada parece construído para “funcionar” dramaticamente. Cada cena surge como recorte, como fragmento de um fluxo que não se organiza em função do espectador.
Corredores, salas administrativas, apartamentos, ruas comuns. Conversas interrompidas, telefonemas repetidos, formulários, listas de espera. O filme insiste em mostrar o que quase nunca é centro de narrativa: o trabalho invisível do cuidado.
Esse acúmulo é seu motor.
Não há reviravoltas.
Há desgaste.
Não há viradas.
Há deslocamentos mínimos.
E é neles que a experiência se constrói.
Em Uma Bela Manhã, o luto não acontece. Ele se instala. Circula como atmosfera. Contamina os diálogos, os afetos, a maneira como Sandra se aproxima do amante, da filha, do pai.
Ela não está apenas perdendo Georg. Está perdendo o lugar que ocupava na história dele. Está perdendo a possibilidade de se reconhecer como filha de alguém que reconhece. A degeneração não apaga apenas memórias: dissolve narrativas compartilhadas, desmonta hierarquias afetivas, embaralha papéis.
O pai deixa de ser testemunha de sua vida.
E, com isso, algo nela também perde testemunho.
Esse luto antecipado não se manifesta em cenas de choro, mas em escolhas tortas, em amores imperfeitos, em silêncios longos. Sandra passa a existir num território instável entre presença e ausência — cuidando de alguém que ainda está ali, mas já não está mais.
Se o filme dialoga com alguma ideia de jornada, é para esvaziá-la. Não há mundo extraordinário, não há provação decisiva, não há retorno transformado. Há uma mulher atravessada por forças que não se conciliam.
Ela ama um homem que não pode ter.
Deseja uma vida que não consegue organizar.
Cuida de um pai que rejeita ser cuidado.
Cria uma filha enquanto tenta não desaparecer sob o peso de suas funções.
Cada uma dessas dimensões puxa Sandra para um centro diferente. Seu percurso não é o da superação, mas o da negociação contínua. O heroísmo aqui é microscópico: sustentar contradições sem resolvê-las. Permanecer disponível ao outro sem anular a si mesma. Aceitar que não haverá síntese entre desejo, dever, culpa e perda.
O cinema de Hansen-Løve não quer explicar seus personagens. Quer que convivamos com eles. Em Uma Bela Manhã, a empatia não nasce de discursos, mas da repetição de gestos: Sandra ajudando o pai a vestir o casaco, esperando por ele em silêncio, explicando à filha por que o avô se comporta de maneira estranha.
Nada é sublinhado.
Nada é preparado para comover.
A empatia se constrói como na vida: por duração. Por presença. Por pequenas fidelidades corporais. E é justamente por isso que ela dói.
O filme recusa o melodrama não por frieza, mas por ética. Ele não organiza suas cenas para conduzir o espectador a picos emocionais. Prefere o regime das variações mínimas, das repetições imperfeitas, das cenas que começam e terminam como se o mundo continuasse fora do quadro.
Essa estrutura cria o que poderíamos chamar de uma geometria do desarranjo: tudo está ligeiramente fora de lugar. Nenhuma relação se estabiliza. Nenhuma decisão encerra um conflito. Nada se fecha.
A vida, aqui, não é um arco.
É um campo de forças.
Os percursos de Sandra pelas casas de repouso introduzem o eixo mais explicitamente social do filme. Não como denúncia frontal, mas como insistência. Avaliações, formulários, entrevistas, listas de espera. O pai — filósofo, leitor, homem de pensamento — vai sendo lentamente traduzido em categoria administrativa.
Seus hábitos tornam-se protocolos.
Sua história, prontuário.
Sua presença, problema logístico.
O filme observa, com rigor silencioso, a forma como a sociedade contemporânea administra a velhice: isolando-a, institucionalizando-a, neutralizando o desconforto simbólico que ela representa. Não se trata apenas da dificuldade de encontrar um lugar digno para Georg, mas da constatação de que há poucos lugares dignos.
A longevidade, celebrada como conquista, não veio acompanhada de uma reinvenção ética do cuidado.
Sem jamais se apresentar como “filme de tese”, Uma Bela Manhã articula um campo denso de tensões. Os livros do pai, que ninguém mais lê, transformam cultura em ruína doméstica. A identidade aparece como algo que só existe enquanto é reconhecida. Quando o olhar falha, ela se desfaz.
Os dilemas éticos atravessam cada decisão de Sandra: até onde insistir na autonomia do pai? Quando o cuidado se torna imposição? Onde termina a proteção e começa a violência simbólica? O filme não responde. Mantém as perguntas em circulação.
Há também um gesto profundamente feminista em sua perspectiva: a narrativa se organiza a partir de um corpo feminino sobrecarregado de tarefas afetivas e sociais. Não há discurso. Há estrutura. São as mulheres que organizam o cotidiano, que amortecem o caos, que sustentam a continuidade.
O livre-arbítrio surge sempre em choque com a interdependência. O pertencimento não aparece como conforto, mas como obrigação mútua. E sobre tudo isso paira uma estética do desconforto: enquadramentos limpos, mas nunca neutros; espaços comuns atravessados por uma tensão leve, persistente, como se o mundo estivesse sempre um grau deslocado do que deveria ser.
Visualmente, o filme aposta numa sobriedade quase ascética. A câmera observa. A luz não dramatiza. Os espaços não são estetizados. Apartamentos, ruas, instituições — tudo é filmado como lugar de passagem, de desgaste, de circulação.
Os figurinos prolongam essa lógica: roupas comuns, sem marcação simbólica evidente. O corpo é mais importante que a aparência. A montagem evita picos. As cenas começam e terminam sem ênfase, como se o filme apenas entrasse e saísse de fragmentos de uma vida que continua.
Nada pede aplauso.
Tudo pede atenção.
Uma Bela Manhã inscreve-se numa linhagem muito específica: a dos filmes que não narram acontecimentos, mas a erosão deles. Obras que transformam o cuidado, o luto e a memória em matéria central de forma.
O filme estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2022, onde recebeu o Europa Cinemas Label Award, distinção dedicada a obras de relevância artística e circulação cultural. Desde então, integrou listas de melhores do ano e consolidou-se como um dos trabalhos mais maduros de Hansen-Løve, frequentemente associado ao cinema francês contemporâneo que privilegia intimismo, rigor ético e densidade emocional.
Em tempos de narrativas que buscam impacto imediato, Uma Bela Manhã aposta em outra política: a da delicadeza. Não a delicadeza ornamental, mas aquela que exige precisão, escuta e tempo.
O filme não nos oferece consolo.
Não promete sentido.
Não organiza a dor em aprendizado.
Ele nos convida a algo mais raro: permanecer. Permanecer diante do que não se resolve. Diante do que não se encerra. Diante da vida quando ela deixa de caber em histórias.
Ao final, não saímos com a impressão de termos assistido a um filme, mas de termos convivido com alguém.
Assista ao trailer do filme Uma Bela Manhã: