Há filmes de terror que assustam. Outros que impressionam. Superdeep (2021), dirigido por Arseny Syuhin, prefere algo mais incômodo: ele nos faz sentir pequenos. Pequenos diante da terra, diante da ciência, diante dos erros que não enterramos direito.
Ambientado na União Soviética dos anos 1980, o filme parte de um fato real — a perfuração mais profunda já realizada pela humanidade — para criar uma história de ficção científica e horror corporal em que o verdadeiro perigo não está apenas no subsolo, mas nas pessoas que descem até lá.
O resultado é um thriller sombrio, claustrofóbico e emocionalmente carregado, que mistura medo físico com culpa, luto, poder e identidade.
Entre 1970 e 1992, cientistas soviéticos cavaram na Península de Kola o poço mais profundo já feito pelo homem: mais de 12 quilômetros rumo ao centro da Terra. O projeto foi interrompido. As razões oficiais falam em dificuldades técnicas. O imaginário popular completou o resto.
É nesse espaço entre ciência e mito que Superdeep se instala.
No filme, algo dá errado no complexo subterrâneo. Uma infecção desconhecida começa a se espalhar. Uma equipe é enviada para investigar. Quanto mais descem, menos controle têm sobre o que encontram — e sobre si mesmos.
A ambientação nos anos finais da Guerra Fria não é gratuita. O medo de contaminação, o sigilo militar, a hierarquia rígida e a obsessão por resultados transformam o subsolo em um retrato distorcido do próprio sistema soviético: um mundo onde tudo é monitorado, mas quase nada é realmente compreendido.
A protagonista, Anna Fedorova (Milena Radulović), é epidemiologista. Ela não entra na história como aventureira, mas como alguém tentando reparar um erro passado. Antes mesmo de enfrentar o horror físico, Anna já carrega um trauma profissional e emocional que a persegue silenciosamente.
A atuação de Radulović é contida, quase sempre voltada para dentro. Anna não é uma heroína de frases de efeito. Ela observa, hesita, erra. Sua força está menos na coragem e mais na insistência.
Aqui, a ideia clássica da “jornada do herói” ganha outra forma. Não se trata de vencer o monstro, mas de atravessar o próprio sentimento de fracasso. Cada corredor percorrido é também um passo rumo a memórias que ela tentou soterrar. O subsolo funciona como um espelho: quanto mais fundo, mais íntimo.
Por trás do enredo de infecção e mutação, Superdeep é um filme sobre perda.
Anna é movida por um luto que nunca se organizou em palavras. O trabalho virou anestesia. A ciência, fuga. Ao colocá-la em um ambiente onde corpos se transformam e identidades se dissolvem, o filme transforma esse luto em matéria visível.
Não há grandes discursos sobre dor. O sofrimento se manifesta em decisões mal tomadas, em silêncios longos, em olhares que não se sustentam. O horror não explode — ele infiltra.
Nesse sentido, o filme evita o melodrama óbvio. Em vez de cenas feitas para arrancar lágrimas, aposta no que poderíamos chamar de “geometria do desarranjo”: situações truncadas, relações instáveis, escolhas que não levam à redenção, mas a novos danos.
O ambiente em que Anna circula é majoritariamente masculino, militarizado, hierárquico. Suas decisões são questionadas. Sua autoridade é frequentemente relativizada. Sua presença parece sempre precisar de validação.
O conflito de gênero não é discursivo — é estrutural. O patriarcado do filme se manifesta nos protocolos que ignoram riscos, na pressa por resultados, na transformação de pessoas em peças substituíveis.
Nesse contexto, o percurso de Anna adquire também uma dimensão feminista. Não no sentido panfletário, mas na exposição de um sistema onde mulheres são chamadas a resolver crises, mas raramente a comandar seus rumos. Sua sobrevivência não é apenas física — é simbólica.
Em Superdeep, as relações humanas são frágeis. O medo corrói alianças. A desconfiança se espalha tão rápido quanto a infecção.
Ainda assim, pequenos gestos ganham peso: alguém que ajuda outro a caminhar, uma mão que segura outra por segundos a mais do que o necessário, uma escolha que coloca o risco próprio acima da ordem recebida.
A empatia aqui não é heroica. Ela é instintiva, imperfeita, às vezes tardia. Mas é ela que impede que o filme se torne apenas um desfile de mortes. É nesses fragmentos de cuidado que surge o lembrete de que, mesmo em ambientes extremos, a humanidade insiste em reaparecer.
Visualmente, Superdeep constrói uma atmosfera de claustrofobia calculada. A cinematografia é sombria, quase tátil — quase sentimos a sujeira, a umidade e o cheiro de mofo. O terror aqui não vem apenas do monstruoso organismo parasitário que transforma corpos humanos em formas grotescas, mas da persistente sensação de confinamento. A estética do desconforto — essa história de espaços apertados, corredores monótonos e luzes estroboscópicas — é um lembrete constante de que a profundidade não é apenas física, mas existencial.
Os efeitos especiais, apesar de criticados como inconsistentes por algumas análises, apresentam momentos de 'body horror' que chocam pelo realismo físico e pela tensão orgânica. É no contraste entre o corpo humano e o corpo transformado que o filme encontra sua força estética: não é apenas sobre o monstro, mas sobre como nossos corpos podem — e frequentemente são — moldados pelo medo.
O cerne ficcional do filme é menos um enigma científico e mais um espelho que reflete dilemas humanos arcaicos: o que é a identidade quando nosso corpo é corroído por algo que nos transcende? O que significa exercer livre-arbítrio se cada decisão é moldada por estruturas de poder e medo? E como nos reconstruímos após experimentar algo que dilacera nossa compreensão de si?
O enredo não responde diretamente a estas perguntas — e talvez esteja aqui sua maior ousadia. Em vez de fornecer uma resolução dialética ou moral, o filme persiste na 'estética do desconforto' e na incerteza filosófica, forçando o espectador a confrontar aquilo que muitas narrativas evitam: que o horror verdadeiro não está no monstro, mas na vida que continua depois de testemunhar ou mesmo participar de sua ascensão.
A seguir, uma timeline curta que mapeia filmes que, em diferentes épocas, exploraram temas similares a Superdeep — seja pelo encontro entre terror e ciência, seja pela exploração de monstros como metáfora de dilemas humanos:
Esta linha evidencia que, apesar de muitos compararem Superdeep a obras maiores, ele se inscreve na 'longa tradição do horror ligado ao desconhecido científico' — uma tradição que questiona onde a ciência termina e o medo começa.
Superdeep não foi um filme premiado nem celebrado por grandes festivais. Sua recepção crítica foi dividida: elogios à atmosfera e aos efeitos se misturaram a críticas ao roteiro e ao ritmo.
Ainda assim, encontrou espaço entre fãs de horror e ficção científica justamente por apostar em algo menos confortável: um terror mais físico, mais triste, menos preocupado em agradar.
No fim, Superdeep não é sobre o que foi encontrado no fundo da Terra. É sobre o que levamos conosco quando descemos.
Nossas culpas. Nossas hierarquias. Nossos medos. Nossa necessidade de controle. Nossa dificuldade de pedir ajuda. Nossa fome de respostas.
O poço do filme é menos geológico do que emocional. Ele existe para lembrar que nem todo avanço é progresso. Que nem todo buraco se fecha. E que algumas explorações não revelam novos mundos — apenas iluminam rachaduras antigas.
Talvez seja por isso que o filme incomode mais do que empolga. Ele não oferece catarse. Oferece eco.
E alguns ecos demoram a parar.
Assista ao trailer do filme Superdeep: