No centro de Sisu: Estrada da Vingança (Sisu: Road to Revenge, 2025), o cineasta Jalmari Helander estende uma parábola brutal de sobrevivência para além da violência gráfica: ele compõe uma fábula sobre o instinto humano de reconstruir, mesmo quando o mundo parece exigir apenas destruição. O verbo central do filme não é lutar nem matar — e sim reerguer.
O título, uma homenagem direta ao termo finlandês “sisu” — uma palavra intraduzível que encapsula coragem obstinada, resiliência silenciosa e determinação desmedida — prepara o espectador para uma experiência que desafia os cânones tradicionais de ação cinematográfica. Este segundo capítulo da saga de Aatami Korpi repete e transforma o que havia sido inaugurado no filme original: um homem que se recusa a morrer, que teima em existir e resistir, mesmo quando o mundo ao seu redor se desfaz.
Helander não está apenas interessado nas explosões cinematográficas — embora o faça com mestria agressiva — mas na construção de um arquétipo que se situará, daqui a décadas, ao lado de outros heróis solitários que a cultura popular nos ensinou a amar e temer.
Aatami Korpi, interpretado por Jorma Tommila, é o herói paradoxal do nosso tempo — ou pelo menos do cinema de ação contemporâneo. Com quase uma hora e meia de filme e praticamente sem diálogo, Korpi comunica uma profundidade emocional surpreendente através da presença física, pelo olhar duro, pela respiração que nunca relaxa e pela dor que nunca se dissolverá por completo.
Esse silêncio, longe de empobrecer o personagem, o enriquece: ele é o homem que fala com o corpo, que registra no espaço e na ação uma gramática primitiva de perda, raiva e, sobretudo, persistência. Enquanto muitos heróis modernos verbalizam épicos internos inteiros, Korpi apenas faz — ele desmonta sua casa, carrega suas tábuas, cruza territórios hostis e resiste a torturas quase impensáveis.
Ao seu antagonista, o temível Igor Draganov, interpretado por Stephen Lang, é conferida uma função diferente: ele fala — demais talvez — e incorpora a personificação externalizada da violência implacável e da vingança. O contraste entre Korpi e Draganov é tão nítido que se torna quase arquetípico: a silenciosa dignidade da perda versus a ferocidade verbalizada do ódio.
A estrutura narrativa de Sisu é, em sua superfície, simples: um homem regressa ao local onde sua família foi massacrada e tenta recuperar o que restou de sua vida — simbolizado por sua antiga casa desmontada em tábuas que ele deseja reconstruir. Mas se olharmos essa jornada através do prisma clássico da mitologia comparada, percebemos uma reconfiguração singular do arquétipo da “jornada do herói”.
Joseph Campbell ensinou que o herói parte de um mundo ordinário, atravessa uma crise transformadora, confronta grandes perigos e, ao retornar, traz consigo algum dom ou revelação. No filme de Helander, a jornada é física, emocional e simbólica: Korpi não parte para conquistar algo novo, mas para reaver aquilo que foi arrancado — seu lar, sua família e, por fim, talvez sua própria humanidade.
Essa inversão — em vez de ganhar algo, o herói busca restaurar o que foi perdido — confere ao filme uma densidade espiritual rara no cinema de ação moderno. Não há simplesmente um caminho para a vingança; há um caminho para dentro, um retorno doloroso ao coração da perda, onde cada quilômetro percorrido é uma forma de purgação.
Infelizmente, embora Sisu: Estrada da Vingança esteja ambientado em 1946 e represente um território finlandês ocupado pelo Exército Vermelho, historicamente não houve, no ano em que o filme se passa, um conflito direto entre a Finlândia e a União Soviética em guerra aberta.
O que de fato ocorreu foi que, durante a Segunda Guerra Mundial — especificamente entre 1939 e 1944 — a Finlândia lutou duas guerras significativas contra a União Soviética: a Guerra de Inverno (1939–1940) e a Guerra de Continuação (1941–1944). Nessas batalhas, o pequeno exército finlandês resistiu ferozmente às forças soviéticas, e embora tenha cedido território, não foi conquistado permanentemente.
Após o fim dos combates em 1944, foi assinado o Armistício de Moscou, e posteriormente a paz formal em 1947, selando a retirada dos soviéticos e estabelecendo fronteiras que, embora alteradas, não resultaram em ocupação contínua de grandes porções do país.
Ou seja, Sisu “reimagina” um cenário pós-guerra em que a presença militar soviética continua ativa em território finlandês como um elemento narrativo e simbólico, uma licença poética que serve à dramaturgia, não um relato fiel de um conflito que realmente ocorreu.
A produção de Sisu: Estrada da Vingança é tecnicamente austera, mas carregada de propósito. Com um orçamento estimado em cerca de 12,2 milhões de dólares, Helander e sua equipe alcançam efeitos visuais e de ação que evocam grandes produções, mesmo se mantendo longe dos orçamentos estratosféricos do cinema blockbuster.
A cinematografia de Mika Orasmaa capta a paisagem gelada, escura e, frequentemente, hostil do norte europeu com composições que lembram pinturas expressionistas: horizontes largos, silêncios brancos e sombras longas que sugerem tanto solidão quanto promessa de violência.
Os figurinos são simples, mas meticulosamente escolhidos. As roupas rasgadas de Korpi não são apenas indumentária — elas são testemunhas da jornada do personagem. Cada fenda, cada mancha, aponta para uma história anterior que nunca foi completamente narrada, criando um “palimpsesto estético” que se sobrepõe à narrativa principal.
Os efeitos especiais, por sua vez, passam longe do CGI artificializado: Helander privilegia realizações práticas sempre que possível — explosões reais, trucagens mecânicas e coreografias físicas de combate que remetem ao cinema de ação clássico. O resultado é vibrante, visceral e, em muitos momentos, perturbadoramente belo.
É impossível falar de Sisu sem evocar seus parentes cinematográficos — filmes que, como ele, orbitam em torno de uma figura solitária movida por perda e vingança.
Mas Sisu não é uma homenagem pastiche a Rambo ou a John Wick: ele os incorpora e os transcende. Neste sentido, pode ser visto como um eixo entre o cinema de ação tradicional e a reflexão simbólica sobre a própria violência cinematográfica.
Abaixo, uma tabela cronológica de filmes que retratam personagens em jornadas semelhantes — solitárias, violentas e existencialmente carregadas:
Até o momento desta publicação, Sisu: Estrada da Vingança ainda não figura entre os principais prêmios cinematográficos internacionais — como Oscar, BAFTA ou Cannes — nem teve reconhecimentos significativos em grandes premiações mainstream até o final de 2025.
No entanto, a recepção crítica tem sido amplamente positiva, especialmente entre críticos especializados em cinema e festivais de gênero, com pontuações altas no Rotten Tomatoes e no Metacritic, indicando forte consenso crítico favorável dentro da esfera crítica especializada.
Sisu: Estrada da Vingança é mais do que um filme de ação. É um estudo sobre persistência — sobre o que significa continuar mesmo quando se perdeu tudo. O filme mergulha nas águas turvas da memória e da violência, convidando o espectador a refletir: o que move uma pessoa quando não restam esperanças palpáveis, apenas ecos?
Helander não apenas leva seu herói a atravessar territórios perigosos — ele o leva a atravessar o próprio tempo de sua dor, transformando cada cena de ação em um ato de invenção narrativa e cada perseguição em uma metáfora para a inevitável viagem de retorno àquilo que fomos forçados a deixar para trás.
É um épico de resiliência absoluta — e, como toda boa fábula, fica com a gente muito depois que os créditos sobem.
Assista ao trailer do filme Sisu: Estrada da Vingança: