Dirigido por Ethan Coen e estrelado por Margaret Qualley, Aubrey Plaza e Chris Evans, Honey Não! é um filme que mistura investigação criminal, humor ácido e uma crítica leve, mas constante, à forma como as pessoas se deixam encantar por figuras carismáticas.
A história acompanha Honey O’Donahue, uma detetive particular que trabalha em uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos. Ela é contratada para investigar uma série de mortes que parecem ter alguma ligação com uma igreja local bastante influente. A princípio, tudo parece coincidência ou exagero. Aos poucos, no entanto, a situação começa a ficar mais complicada, e Honey percebe que há algo errado por trás da imagem organizada e acolhedora da comunidade.
Não é um filme de ação acelerada. Ele se constrói com conversas, observação e pequenas pistas que vão surgindo no caminho.
Honey não é a típica investigadora durona de filmes policiais tradicionais. Ela não sai dando ordens ou resolvendo tudo com grandes gestos. É uma profissional competente, prática e um pouco impaciente com a falta de lógica das pessoas ao seu redor.
Margaret Qualley entrega uma atuação segura e cheia de nuances. Sua personagem fala pouco quando não precisa falar, observa bastante e reage com ironia contida. Ela não está tentando salvar o mundo. Está tentando fazer seu trabalho direito e entender o que está acontecendo.
Esse tipo de construção ajuda o filme a parecer mais realista. Honey comete erros, hesita em alguns momentos e também demonstra cansaço. Isso torna a personagem mais próxima do público.
O personagem interpretado por Chris Evans é um dos pontos mais interessantes da trama. Ele vive o pastor que comanda a igreja envolvida nos mistérios da história. Carismático, simpático e sempre pronto com um discurso motivador, ele parece genuinamente dedicado à sua comunidade.
Ao mesmo tempo, existe algo desconfortável na maneira como ele conduz as situações. Evans trabalha bem essa ambiguidade. Seu personagem nunca se transforma em vilão exagerado. Ele mantém uma postura controlada, o que torna tudo mais inquietante.
O filme não entrega respostas fáceis sobre as intenções dele. Em vez disso, deixa o público interpretar suas atitudes com base no que vai sendo revelado.
Aubrey Plaza aparece como uma personagem que adiciona camadas à narrativa. Seu humor seco funciona como contraponto à tensão crescente da investigação. No entanto, ela não está ali apenas para fazer comentários irônicos.
Sua presença ajuda a ampliar a discussão sobre influência, poder e lealdade dentro daquela comunidade. Plaza mantém o estilo que o público já conhece, mas aqui ele serve diretamente à história.
Quem já acompanhou a carreira de Ethan Coen vai reconhecer alguns elementos familiares. Há diálogos afiados, personagens excêntricos e situações que misturam o absurdo com o cotidiano.
No entanto, Honey Não! é relativamente acessível. Não exige que o espectador conheça referências anteriores nem que decifre simbolismos complexos. A trama é clara: há mortes suspeitas, uma possível rede de manipulação e uma detetive tentando entender como tudo se conecta.
O humor aparece de forma natural, geralmente nas interações entre os personagens. Não é uma comédia escancarada, mas também não é um drama pesado. O filme encontra um meio-termo interessante.
Mesmo sem transformar a narrativa em discurso político ou religioso, o filme aborda questões atuais. A forma como líderes carismáticos influenciam grupos, a facilidade com que narrativas simplificadas conquistam seguidores e a resistência de quem tenta questionar estruturas já estabelecidas são elementos centrais da história.
A religião, especificamente, não é tratada como alvo de ataque direto. O foco está na manipulação e na forma como poder e fé podem se misturar de maneira problemática.
Essa abordagem torna o filme mais relevante, sem precisar ser panfletário.
O ritmo pode parecer lento para quem espera perseguições constantes ou reviravoltas explosivas. A investigação se desenvolve gradualmente. Cada descoberta leva a novas perguntas, e nem todas são respondidas de maneira definitiva.
Esse tipo de construção pode dividir opiniões. Para alguns, é envolvente justamente por permitir que o público participe ativamente da interpretação. Para outros, pode dar a sensação de que falta um clímax mais intenso.
Ainda assim, o filme mantém coerência interna. Ele sabe o tipo de história que quer contar e não tenta se transformar em algo diferente no último momento.
A pequena cidade onde a trama se passa é retratada como organizada, acolhedora e aparentemente tranquila. Esse contraste entre aparência e realidade é fundamental para o clima do filme.
A fotografia privilegia tons quentes e cenários cotidianos, o que reforça a ideia de normalidade. Quanto mais comum parece o ambiente, mais desconfortável se torna a descoberta de que algo não está certo.
Não há exageros visuais. A direção opta por manter o foco nos personagens e na progressão da história.
Para quem gosta de thrillers com personagens bem trabalhados e uma dose de ironia, Honey Não! é uma boa escolha. Ele não aposta em fórmulas óbvias nem em exageros dramáticos. Prefere desenvolver sua história com calma, permitindo que o público acompanhe a investigação passo a passo.
Não é um filme para quem busca apenas ação ou sustos. É mais interessante do que barulhento. E isso, em um cenário cheio de produções que tentam chamar atenção a qualquer custo, já é um diferencial.
No fim, Honey Não! entrega uma experiência sólida, bem atuada e com temas que conversam com o momento atual. Pode não agradar a todos, mas dificilmente passa despercebido.
Assista ao trailer do filme Honey Não!
Ficha Técnica:
Nome: Honey Não! | Honey Don’t! | Estados Unidos | 2025
Desenvolvimento: Ethan Coen e Tricia Cooke
Direção: Ethan Coen
Roteiro: Ethan Coen e Tricia Cooke
Elenco: Margaret Qualley, Aubrey Plaza, Chris Evans, Charlie Day, Billy Eichner, Talia Ryder
Gênero: Thriller / Comédia Sombria / Noir
Produção: Working Title Films (associada ao projeto)
Distribuição: Focus Features
Duração: 89 min