Há filmes que apresentam personagens surdos como figuras que precisam superar uma limitação. Surda — Sorda, no título original espanhol, e Deaf, na versão internacional — escolhe outro caminho. Escrito e dirigido por Eva Libertad, o longa acompanha Ángela, uma mulher surda prestes a se tornar mãe, e Héctor, seu companheiro ouvinte. A personagem é interpretada por Miriam Garlo, enquanto Álvaro Cervantes vive Héctor.
O ponto de partida parece simples: uma gravidez, um casal e a expectativa pela chegada de uma filha. No entanto, a maternidade faz emergir conflitos que vão muito além da vida doméstica. O nascimento da criança obriga Ángela e Héctor a confrontarem preconceitos familiares, protocolos médicos pouco acessíveis e uma sociedade que ainda trata a experiência ouvinte como padrão universal.
A produção nasceu como expansão do curta-metragem homônimo de Eva Libertad, indicado ao Prêmio Goya, e chegou ao Festival de Berlim na seção Panorama. A própria Berlinale apresenta a história como o drama de uma mulher surda que espera um filho com seu companheiro ouvinte; a chegada da criança provoca uma crise no relacionamento e a força a enfrentar as dificuldades de criar uma filha em um mundo que não foi pensado para pessoas como ela.
A grande qualidade do filme está em não transformar Ángela em símbolo abstrato. Ela é uma mulher com desejos, inseguranças, irritações, senso de humor e contradições. A surdez é parte essencial de sua identidade, mas não esgota quem ela é. O que a narrativa investiga é o modo como as instituições e as pessoas ao redor tentam reduzir sua existência a uma suposta falta.
Desde as primeiras sequências, Ángela aparece como alguém plenamente integrada à própria vida. Ela se comunica em língua de sinais, convive com outras pessoas surdas e construiu uma relação amorosa com Héctor. A intimidade do casal não depende de que ele “tolere” ou “aceite” a surdez dela. A comunicação entre os dois é cotidiana, afetiva e natural.
A gravidez, contudo, altera esse equilíbrio. Ángela começa a pensar em situações que talvez antes pudessem ser administradas com mais facilidade: como perceberá o choro da filha durante a noite? Como responderá a uma emergência? Será tratada como responsável pelos profissionais de saúde? O que acontecerá se a menina for ouvinte e, no futuro, sentir vergonha da mãe?
Essas perguntas não indicam falta de preparo. Elas revelam a consciência de que a maternidade será exercida dentro de estruturas que não foram feitas para ela. O medo de Ángela não é simplesmente “não conseguir cuidar”. É ser considerada incapaz antes mesmo de ter a oportunidade de cuidar.
O filme faz uma distinção importante entre vulnerabilidade e fragilidade. Ángela está vulnerável porque depende de redes de apoio e de acessibilidade, como qualquer pessoa em uma situação médica delicada. Mas isso não significa que seja frágil. Sua vulnerabilidade aumenta justamente porque o mundo ao redor não oferece condições adequadas de participação.
Miriam Garlo sustenta essa complexidade sem recorrer a uma interpretação grandiosa ou sentimental. Seu trabalho depende sobretudo do rosto, do olhar e da postura corporal. Muitas vezes, a câmera permanece próxima dela antes que o espectador saiba exatamente o que está acontecendo. O sentido nasce da observação atenta, e não de explicações excessivas.
Héctor ama Ángela e aprendeu a se comunicar em língua de sinais. Essa característica impede que o personagem seja construído como um companheiro indiferente ou incapaz de compreender a parceira. Ainda assim, o filme mostra que o afeto não elimina automaticamente as desigualdades.
Por ser ouvinte, Héctor transita com mais facilidade por hospitais, consultórios e situações burocráticas. Ele entende as informações verbais, pode responder rapidamente e costuma ser reconhecido pelos outros como a pessoa “mais apta” a conduzir uma conversa. Em momentos de tensão, essa vantagem pode fazer com que ele ocupe o lugar de Ángela sem perceber.
É nesse ponto que o relacionamento entra em crise. Quando Héctor fala por ela, mesmo com a intenção de ajudar, ele pode reforçar a mesma lógica que a exclui. Ángela não precisa apenas que alguém traduza o mundo para ela. Precisa participar dele em igualdade de condições.
O roteiro evita transformar o conflito em uma disputa moral simplista. Héctor não é um vilão; é alguém que também precisa aprender. O problema é que a sociedade lhe concede o benefício da dúvida com facilidade, enquanto Ángela precisa provar constantemente que sabe o que está fazendo.
A relação do casal se modifica porque a chegada da filha revela uma diferença que estava presente desde o início: eles não enfrentam os mesmos obstáculos. A gravidez não cria essa desigualdade, mas torna impossível ignorá-la.
Álvaro Cervantes interpreta Héctor como um homem dividido entre o desejo de proteger e a dificuldade de reconhecer que a proteção pode se transformar em controle. Essa tensão dá ao personagem uma dimensão mais interessante. Ele não precisa deixar de amar Ángela; precisa aprender a não confundir amor com tutela.
A criança ainda não nasceu, mas já reorganiza os desejos e os medos dos adultos. Para Ángela, a filha representa uma possibilidade de vínculo profundo, mas também o receio de que a comunicação entre as duas seja atravessada por uma diferença que o mundo costuma interpretar de maneira preconceituosa.
O filme provoca desconforto ao mostrar a reação de pessoas que torcem para que a menina seja ouvinte. Em geral, essas manifestações podem parecer apenas preocupação familiar. Para Ángela, porém, elas carregam uma mensagem dolorosa: a de que sua própria maneira de existir seria algo que deveria ser evitado.
A tensão não está em defender que uma criança seja surda ou ouvinte. Está em questionar por que uma dessas possibilidades é recebida como normal e a outra como perda. Essa diferença de expectativa influencia o modo como famílias educam seus filhos, como os serviços de saúde se organizam e como a sociedade imagina a felicidade.
O longa desloca a discussão da deficiência para a diversidade. Uma filha ouvinte não representa necessariamente uma ameaça à identidade de Ángela, assim como uma filha surda não seria uma confirmação automática de pertencimento. Em ambos os casos, a relação precisaria ser construída com tempo, afeto e respeito.
Ángela também percebe que a maternidade não será uma experiência idealizada. Crianças podem questionar os pais, afastar-se de suas referências culturais ou sentir vergonha daquilo que a sociedade estigmatiza. O amor familiar não elimina os conflitos; oferece condições para enfrentá-los.
Em Surda, a língua de sinais não aparece como recurso exótico ou como simples tradução da fala. Ela organiza a cena, define o ritmo dos diálogos e modifica a maneira como os corpos ocupam o espaço. Para sinalizar, é preciso olhar; para compreender, é preciso estar presente.
Essa exigência muda a gramática tradicional do cinema. Uma conversa pode depender menos da alternância rápida entre rostos e mais da duração de um plano que permita observar as mãos, o rosto e a postura dos personagens. A câmera não precisa correr atrás das palavras. Ela aprende a esperar.
A direção de Eva Libertad também utiliza momentos de redução sonora, aproximando o público da percepção de Ángela. Não se trata de transformar a surdez em efeito espetacular, mas de interromper a expectativa de que todo acontecimento importante deve ser acompanhado por ruídos, vozes ou música.
O silêncio passa a ser uma experiência narrativa, não um vazio. Para o espectador ouvinte, essa escolha pode produzir estranhamento. Uma conversa fica parcialmente inacessível; uma emergência parece mais distante; a comunicação depende de sinais que nem todos compreendem.
A estratégia cria uma forma de empatia mais profunda do que a explicação didática. O público é levado a experimentar, ainda que brevemente, a posição de quem está presente, mas não tem acesso imediato ao que acontece ao seu redor.
É importante notar, porém, que o filme não apresenta uma única forma de ser surdo. A experiência de Ángela não representa todas as pessoas surdas. A própria existência do longa ajuda a mostrar que há diferenças de identidade, educação, comunicação e relação com a comunidade surda.
As cenas relacionadas à gestação e ao parto estão entre as mais importantes do filme porque tornam visível uma violência que quase nunca aparece como violência. Não há necessariamente gritos ou agressões. A exclusão ocorre quando profissionais falam com Héctor em vez de falar com Ángela, quando as informações são transmitidas sem recursos acessíveis ou quando se presume que o acompanhante resolverá tudo.
O hospital deveria ser um lugar de proteção. Para Ángela, no entanto, ele também se torna um espaço de vigilância. Sua capacidade de ser mãe parece estar sendo avaliada o tempo todo por pessoas que não conhecem sua vida, sua autonomia ou sua maneira de se comunicar.
Essa situação modifica o sentido do cuidado. Um cuidado verdadeiro não consiste apenas em fazer algo por alguém. Ele exige criar condições para que a pessoa participe das decisões que dizem respeito ao próprio corpo.
A direção não transforma essas cenas em discursos ilustrativos. A crítica nasce da duração dos olhares, dos silêncios e das interrupções. A câmera permanece com Ángela quando ela é deixada fora da conversa, permitindo que o espectador experimente a posição desconfortável de quem está presente, mas não tem acesso ao que está sendo decidido.
O filme também questiona a ideia de que acessibilidade é um favor. Intérprete, comunicação visual, contato direto e informação compreensível não são gentilezas opcionais. São condições para que uma paciente possa exercer autonomia.
A chegada da filha não funciona apenas como desfecho da gravidez. Ela reorganiza o sentido de tudo o que Ángela viveu antes. O medo não desaparece magicamente, mas muda de forma. A mulher que temia ser julgada começa a compreender que sua experiência não precisa ser validada pelas expectativas alheias.
O parto também altera a relação entre Ángela e Héctor. A filha não resolve as divergências do casal; ao contrário, torna mais urgente a necessidade de estabelecer uma forma de convivência baseada em responsabilidade compartilhada. Ambos terão de aprender a cuidar sem apagar a diferença entre eles.
A narrativa evita transformar a maternidade em recompensa. Ángela não se torna “completa” porque tem uma filha. Sua evolução está em assumir a própria vulnerabilidade sem permitir que ela seja usada para diminuir sua autonomia.
Essa escolha é importante porque o cinema frequentemente apresenta a maternidade como destino natural ou como solução emocional. Surda prefere mostrar a experiência como processo: há amor, mas também exaustão; há alegria, mas também insegurança; há vínculo, mas também a necessidade de negociar limites.
O filme, portanto, não termina com a promessa de que todos os obstáculos foram superados. O que muda é a posição de Ángela diante deles. Ela deixa de enxergar o mundo apenas como uma série de ameaças individuais e passa a identificar as estruturas que produzem sua exclusão.
Surda é um filme sobre a maternidade, mas não apenas sobre a maternidade. É também uma história de casal, uma crítica às instituições e uma reflexão sobre quem tem o direito de definir o que é uma vida plenamente possível.
Seu maior mérito está em recusar soluções fáceis. Ángela não precisa ser transformada em uma heroína invencível, e Héctor não precisa ser condenado como antagonista. O que existe entre eles é mais complexo: amor verdadeiro atravessado por desigualdades concretas.
A direção de Eva Libertad encontra força na observação dos detalhes. Um olhar que não é correspondido, uma informação transmitida sem acessibilidade, um gesto de cuidado que se torna invasivo e uma conversa interrompida podem revelar mais do que uma longa explicação.
O título Surda pode parecer direto, mas sua força está justamente em não tentar suavizar a identidade da protagonista. A palavra não é usada como insulto nem como diagnóstico dramático. Ela nomeia uma experiência, uma comunidade e uma forma de perceber o mundo.
O filme também não pede que o espectador tenha pena de Ángela. Pede que observe como determinadas situações são construídas. Quem fala? Quem é ouvido? Quem tem acesso à informação? Quem precisa explicar sua existência? Quem é considerado automaticamente competente?
Ao colocar uma mulher surda no centro de uma narrativa sobre gravidez e maternidade, Eva Libertad desloca o olhar dominante. Ángela não é uma personagem secundária cuja trajetória serve para ensinar algo aos ouvintes. É a protagonista de sua própria vida, e o público é que precisa aprender a acompanhá-la.
A língua de sinais participa diretamente dessa mudança de perspectiva. Em vez de aparecer como simples tradução da fala, ela organiza o ritmo das cenas e exige que a câmera respeite o tempo dos corpos. Para sinalizar, é preciso olhar; para compreender, é preciso estar presente. O espectador ouvinte é convidado a perceber que o silêncio não é vazio e que a comunicação pode existir para além da voz.
A recepção do filme reforça sua relevância. Surda recebeu o Prêmio do Público da seção Panorama no Festival de Berlim de 2025. No Festival de Málaga, conquistou a Biznaga de Ouro de melhor filme espanhol, segundo o palmarés divulgado pela RTVE. Esses reconhecimentos indicam que a obra conseguiu articular uma questão de representatividade com uma narrativa emocional capaz de alcançar públicos diversos.
Ao final, o filme deixa uma pergunta simples e poderosa: o problema está na surdez de Ángela ou em um mundo que continua se recusando a escutá-la?
Essa pergunta resume a força de Surda. O longa não apresenta a inclusão como gesto de benevolência, mas como uma responsabilidade coletiva. Ángela não precisa ser adaptada para caber em um mundo ouvinte; é o mundo que precisa ampliar suas formas de comunicação, cuidado e convivência.
Assista o trailer do filme Surda (Sorda/Deaf):
Nome: Surda | Sorda | Espanha | 2025
Criador: Eva Libertad
Obra original ou base literária: Longa-metragem desenvolvido a partir do curta-metragem homônimo de Eva Libertad, indicado ao Goya e premiado em festivais
Desenvolvimento: Expansão narrativa do curta original para um drama de longa-metragem centrado na gravidez, na maternidade e nas barreiras de comunicação enfrentadas por uma mulher surda.
Direção: Eva Libertad
Roteiro: Eva Libertad
Elenco: Miriam Garlo como Ángela; Álvaro Cervantes como Héctor; Elena Irureta como Elvira; Joaquín Notario como Fede
Gênero: Drama.
Produção: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films, entre outras empresas associadas ao projeto.
Distribuição: A Contracorriente Films, na Espanha.
Duração: 99 minutos.
Orçamento estimado: Não localizado em fonte pública oficial verificável. Recomenda-se não informar um valor sem confirmação da produtora, distribuidora ou material oficial de imprensa.
Locações: Espanha. As fontes consultadas não especificam, de forma verificável, todas as locações utilizadas nas filmagens.
Direção de arte e figurino: Informações detalhadas não localizadas nas fontes públicas consultadas.
Trilha sonora: Informação detalhada não localizada nas fontes públicas consultadas. É preferível confirmar no press kit oficial ou nos créditos finais antes da publicação.
Plataforma de exibição: Exibição em circuito de festivais e distribuição comercial na Espanha; posteriormente, o filme foi disponibilizado no Movistar Plus+, conforme a página oficial da plataforma.
Festivais e reconhecimento: Seleção da Berlinale 2025, na seção Panorama; Prêmio do Público de Panorama; Biznaga de Ouro de melhor filme espanhol no Festival de Málaga 2025.
Berlinale — página oficial de Sorda / Deaf, Berlinale — press kit oficial de Sorda, Berlinale — anúncio do Prêmio do Público de Panorama, IMDb, Movistar Plus+, RTVE — cobertura da participação na Berlinale, RTVE — palmarés do Festival de Málaga 2025