Linda, vivida por Rose Byrne, é terapeuta. Passa o dia inteiro ouvindo os desabafos de pacientes em crise, tentando ajudá-los a organizar sentimentos que parecem impossíveis de conter. Em casa, porém, ela mesma é quem mais precisa de ajuda, e ninguém parece disposto a oferecer.
A filha de Linda enfrenta uma condição de saúde grave que exige alimentação por sonda e cuidados constantes. O marido está sempre fora, presente apenas por telefone, cobrando resultados que ele próprio jamais teria condições de entregar. Como se não bastasse, o teto do apartamento começa a ceder, abrindo um buraco que cresce dia após dia sobre a cama da protagonista. Esse buraco funciona como símbolo central do filme: representa o colapso emocional que Linda tenta esconder, mas que se espalha pela casa da mesma forma que se espalha por dentro dela.
A diretora Mary Bronstein constrói a narrativa quase inteira em cima do rosto de Rose Byrne. A câmera raramente se afasta dela, e essa escolha estética não é apenas um recurso visual bonito: ela obriga o espectador a sentir, na pele, o sufocamento que Linda vive minuto a minuto. Cada pessoa que se aproxima da protagonista passa a soar como ameaça em potencial, mesmo quando tenta ajudar, porque a exaustão acumulada já corroeu a capacidade de Linda de confiar em qualquer gesto de cuidado.
Essa sensação de desamparo fica ainda mais evidente nas sessões de terapia da própria Linda, conduzidas por um analista interpretado por Conan O'Brien em uma atuação dramática que surpreende justamente por fugir do humor associado ao ator. O terapeuta escuta os relatos aterradores da paciente com uma frieza quase clínica, mais interessado em julgar suas falhas do que em oferecer acolhimento. A cena espelha, de forma dolorosa, o próprio trabalho de Linda como terapeuta: ela dá aos outros exatamente aquilo que ninguém está disposto a dar a ela.
Um dos fios mais interessantes do roteiro é o paralelo entre Linda e uma de suas pacientes, vivida por Danielle Macdonald. A mulher é uma mãe recente, atormentada pelo medo de deixar o próprio bebê aos cuidados de terceiros. Ao ouvir os desabafos dessa paciente, Linda enxerga um retrato quase idêntico de sua própria angústia, só que sob outra perspectiva. Essa duplicação de personagens reforça a ideia central do filme: a maternidade contemporânea impõe uma cobrança tão desumana que até mulheres em posições distintas, uma cuidando da outra, terminam presas na mesma armadilha de culpa e insuficiência.
A relação entre as duas mulheres também expõe um ponto sutil da obra: Linda sente inveja e certo desconforto diante da paciente, mesmo sabendo racionalmente que ambas sofrem do mesmo mal. Esse tipo de conflito interno, difícil de admitir e ainda mais difícil de representar na tela, é um dos méritos do roteiro assinado pela própria Mary Bronstein, que escreveu a história durante um período em que acompanhava a internação da própria filha, enquanto o marido rodava outros projetos longe de casa.
O filme resiste à tentação de se encaixar em um único gênero. Existem elementos de comédia seca, principalmente nos diálogos ácidos entre Linda e as pessoas ao seu redor, mas o tom geral se aproxima muito mais do terror psicológico. Não há sustos tradicionais, jump scares ou monstros; o horror aqui nasce do acúmulo de pequenas humilhações cotidianas, da sensação de estar sempre um passo atrás, de nunca conseguir dar conta de tudo o que é exigido.
Essa mistura de tons remete à forma como o diretor Jordan Peele constrói tensão a partir do cotidiano em seus próprios filmes, embora aqui a ameaça não venha de forças sobrenaturais, e sim da própria estrutura social que abandona mães em situação de vulnerabilidade. O buraco no teto do apartamento, que obriga Linda e a filha a se mudarem para um motel decadente, funciona quase como um personagem à parte: ele cresce, se agrava e nunca é resolvido pelas autoridades responsáveis, assim como os pedidos de ajuda da protagonista.
Praticamente toda a força do longa está apoiada nos ombros de Rose Byrne, e a atriz corresponde à altura. Ela constrói uma personagem simultaneamente simpática e irritante, generosa em alguns momentos e egoísta em outros, sem nunca cair em maniqueísmos fáceis. A atuação rendeu a Byrne o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim e a colocou entre as favoritas da temporada de premiações, incluindo indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice Awards.
A escolha de manter o rosto da filha de Linda sempre fora de quadro reforça ainda mais o isolamento da protagonista: a criança existe apenas como voz, como demanda, como responsabilidade que nunca dá trégua. Esse recurso narrativo, longe de ser um mero truque estilístico, sustenta a tese central do filme, que é a de mostrar a maternidade não pela ótica romantizada de quem observa de fora, mas pela vivência interna e sufocante de quem cuida sozinha.
Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria não busca conforto nem soluções fáceis para os dilemas que apresenta. O filme recusa a imagem idealizada da mãe dedicada e sempre paciente, escolhendo em vez disso expor o desgaste, a raiva contida e a solidão que acompanham boa parte das experiências reais de maternidade. É justamente por não amenizar esse retrato que a obra se tornou um dos títulos mais comentados da atual temporada de premiações, gerando debates sobre como o cinema pode, finalmente, representar a maternidade sem filtros.
Assista o trailer do filme Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria:
Nome: Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria | If I Had Legs I'd Kick You | Estados Unidos | 2025
Criador: Mary Bronstein (roteirista e diretora)
Obra original ou base literária: Roteiro original, escrito por Mary Bronstein a partir de experiências pessoais durante a internação hospitalar da própria filha.
Desenvolvimento: Produzido por A24 em parceria com Central Pictures, Fat City e Bronxburgh; é o segundo longa-metragem de Mary Bronstein, após o cult "Yeast" (2008), e o primeiro a receber financiamento externo de um estúdio.
Direção: Mary Bronstein
Roteiro: Mary Bronstein
Elenco: Rose Byrne (Linda), Conan O'Brien (Terapeuta), Danielle Macdonald (Caroline), Christian Slater (Charles, marido de Linda), A$AP Rocky (James), Ivy Wolk (Diana), Daniel Zolghadri (Stephen), Delaney Quinn (filha de Linda), Mary Bronstein (também atriz no filme)
Gênero: Drama psicológico / comédia sombria / terror contemporâneo
Produção: A24, Central Pictures, Fat City, Bronxburgh; produzido por Sara Murphy, Ryan Zacarias, Ronald Bronstein, Josh Safdie e Eli Bush
Distribuição: A24
Orçamento estimado: Não divulgado oficialmente; produção independente de baixo orçamento
Locações: Filmado em Montauk, Nova York, durante o período das greves de Hollywood
Direção de arte e figurino: Equipe associada à produção independente da A24, com estética claustrofóbica centrada em ambientes domésticos decadentes (apartamento e motel)
Trilha sonora: Composição integrada à produção de A24, com abordagem minimalista que reforça o clima de tensão constante
Duração: 113 minutos (1h53)
Plataforma de exibição: Lançamento nos cinemas dos Estados Unidos em outubro de 2025; estreia no Brasil em 1º de janeiro de 2026, nos cinemas
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Estreia mundial no Festival Sundance (seção Premieres) em janeiro de 2025; competiu pelo Urso de Ouro no Festival de Berlim, onde Rose Byrne venceu o Urso de Prata de melhor atuação principal; indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice Awards para Rose Byrne como melhor atriz, com forte movimentação nas apostas para o Oscar.
Deadline - Crítica em Sundance, Deadline - Roteiro do filme, Wikipedia, CNN Brasil, Forbes Mulher, Correio Braziliense, Omelete, Jornal de Brasília