Em Bayleen Bay, um caminhão de sorvete conduzido por um homem misterioso e silencioso chega à cidade e logo se torna popular entre as crianças. Poucos dias depois, quem provou os picolés entra em transe e passa a atacar os adultos, enquanto um pequeno grupo imune ao efeito tenta descobrir o que está acontecendo.
Escrito por Eli Roth e Noah Belson e lançado em agosto de 2026, o filme recebeu críticas negativas, mas deixa ideias interessantes para quem olha além do sangue. Este texto comenta o desfecho da história.
O doce como armadilha
O caminhão de sorvete costuma lembrar infância, férias e liberdade, e Roth parte justamente desse afeto para criar a ameaça. O incômodo do espectador surge porque o perigo chega embalado em algo que todos reconhecem como inocente, o que deixa a cidade inteira vulnerável a quem apenas sorri e oferece um agrado.
As crianças que comem os doces ficam em transe, assistindo a vídeos do personagem de desenho que decora o caminhão. A imagem lembra o modo como telas e propagandas prendem a atenção dos pequenos. Os adultos só percebem o perigo quando já perderam o controle, o que sugere uma comunidade distraída, que aceitou a doçura sem perguntar de onde ela vinha.
Jonathan Smiley: de vítima a vingador
O filme revela que o sorveteiro é Jonathan Smiley, um homem de bom coração que visitou a cidade décadas antes e foi culpado injustamente por ferir crianças, o que serviu para encobrir as ações dos padres locais. As próprias crianças foram pressionadas a mentir, e esse falso testemunho levou à condenação dele.
Ari Millen interpreta o personagem sem pronunciar uma palavra, e o silêncio faz dele uma figura mais simbólica do que humana, quase a voz de quem foi calado pela cidade. Na prisão, um necromante prometeu a Jonathan vingança contra a cidade em troca de sua alma. Sua trajetória mostra o que acontece quando uma injustiça nunca é reparada, pois o sofrimento acaba virando instrumento de destruição.
Jared, Lizzie e a herança de uma culpa
Jared Mayfair é intolerante à lactose e por isso evita os doces, o que o poupa do feitiço. Seu corpo o diferencia dos colegas, e é essa diferença que o mantém lúcido. Ao lado dele estão Tommy e Mia, que também resistem no início, e a irmã adolescente Lizzie, que provoca o próprio vômito para expulsar o doce e assume o papel de protetora.
O avô de Jared foi o advogado que conduziu o processo contra Jonathan, e é aí que a fuga ganha contornos de acerto de contas familiar. Os jovens seguem o plano do padre, descobrem tarde demais que mataram os próprios pais e percebem que o religioso era o necromante, que os enganou para concluir a vingança. A virada mostra uma geração pagando por uma mentira que os adultos contaram e sustentaram.
Entre o humor e o excesso
Roth costuma misturar exagero, humor ácido e violência, e aqui a mistura divide opiniões. Os críticos apontaram problemas de tom e de humor e a falta de substância, e a discussão sobre os abusos dentro da Igreja acaba aparecendo mais como pano de fundo do que como tema aprofundado.
Em agosto de 2026, o diretor confirmou o uso de inteligência artificial generativa em algumas cenas, depois de ter dito que várias delas eram desenhadas à mão. A polêmica alimentou o debate em torno do filme. Para o leitor comum, vale assistir o filme sabendo que ele funciona melhor como fábula sombria e exagerada do que como retrato realista.
Ao final, Jonathan deixa a cidade devastada com as crianças possuídas atrás dele, rumo à próxima cidade que vai aterrorizar. A injustiça que nunca foi reparada, portanto, continua procurando novos lugares para espalhar o mesmo estrago. Jared e Lizzie ficam sozinhos entre os corpos, carregando uma culpa que não escolheram.
Essa imagem resume o recado mais claro do filme: uma comunidade que decide esconder os próprios crimes entrega aos filhos a conta que não quis pagar. Mesmo com as falhas apontadas pela crítica, a ideia merece conversa, e o filme é uma opção para quem gosta de terror escancarado e aceita que a reflexão aqui vem embalada em muito exagero.
Assista o trailer do filme O Sorveteiro:
Ficha técnica do filme:
Nome: O Sorveteiro | Ice Cream Man | Estados Unidos (filmado no Canadá) | 2026
Criador: Eli Roth (história original)
Obra original ou base literária: Roteiro original, sem base literária. Roth escreveu a ideia com Noah Belson em 2003. O filme não tem ligação com O Sorveteiro, de 1995.
Desenvolvimento: The Horror Section (selo de terror criado por Roth e pela Media Capital Technologies em 2025)
Direção: Eli Roth
Roteiro: Eli Roth e Noah Belson (história de Eli Roth)
Elenco: Ari Millen (Jonathan Smiley / O Sorveteiro), Charlie Zeltzer (Jared Mayfair), Sarah Abbott (Lizzie Mayfair), Shiloh O'Reilly (Tommy), Kiori Mirza Waldman (Mia), Dylan Hawco (Chris), Karen Cliche (Alison Mayfair), Benjamin Byron Davis (o Padre), Darrin Baker (Diretor Maloney), Charlie Storey (Piper)
Participação especial: Eli Roth (Marty Mayfair) - pai de Charlie Zeltzer (Jared Mayfair)
Gênero: Terror, slasher com humor negro
Produção: The Horror Section e MCT Studios. Produtores: Eli Roth, Kate Harrison Karman, Christopher Woodrow e Raj Singh. Produtor executivo: Nas.
Distribuição: Iconic Events Releasing (EUA) e Diamond Films (Brasil)
Orçamento estimado: US$ 5,5 milhões, com bilheteria mundial de US$ 7,6 milhões até 31 de agosto de 2026
Locações: Hamilton, Ontário (Canadá), em meados de 2025, com segmentos de produção virtual no Dark Slope Studios, em Toronto
Direção de arte e figurino: Direção de arte (production design): Peter Mihaichuk, segundo o The Viewer's Guide. Fotografia: Simon Shohet.
Trilha sonora: Brandon Roberts (trilha original), com músicas originais de Snoop Dogg
Duração: 86 minutos (listagens brasileiras indicam 1h27)
Plataforma de exibição: Cinemas (EUA em 7/8/2026; Brasil em 3/9/2026, segundo o AdoroCinema). Nos EUA, está disponível desde 22/9/2026 no Prime Video (aluguel premium) e para compra no Apple TV, Fandango at Home e YouTube. Sem informações sobre streaming no Brasil.
Premiações, festivais e reconhecimento: Não localizado premiações nem participação em festivais. 27% de aprovação no Rotten Tomatoes (114 críticas) e nota 34/100 no Metacritic.
Fontes:
AdoroCinema, Bem Paraná, Cinemachords, ComingSoon.net, Einerd, Filmstarts, Ovicio, Production notes oficiais, Rolling Stone Brasil, The Viewer's Guide, Wikipedia