A premissa de Cuidado Com o Que Deseja cabe em uma frase, e é justamente isso que a deixa tão incômoda. Daniel não procura dinheiro nem fama, procura realismo. Ele acredita que só vai escrever bem sobre o medo se passar por ele, e entrega o próprio corpo ao experimento sem pensar no que pode dar errado.
O filme, dirigido por Ángel de la Cruz a partir do romance de David Jasso, usa esse ponto de partida para falar de vaidade. Irene, vivida por Christina Ochoa, topa ajudar o marido, e o casal trata tudo como uma brincadeira séria de trabalho. O título em português resume bem a lição: desejar algo com tanta pressa pode custar muito mais do que se imaginava.
Preso à cadeira, preso à culpa
Depois do acidente que muda tudo, o filme se concentra em um único corpo imobilizado. Daniel sente sede, calor e dor, e precisa lidar com o fato de que a pessoa que poderia ajudá-lo já não está ali. O bebê de onze meses do casal, indefeso dentro da casa, faz o desespero deixar de ser só dele e se tornar também uma responsabilidade de pai, com perigos que surgem dentro e fora de casa.
É nesse aperto que aparece a camada mais interessante da história. Segundo o diretor, o filme quer falar de culpa, remorso e redenção, e de como aquilo que prende alguém na vida nem sempre são cordas de verdade, e sim as próprias mentiras e deslealdades. Com isso, a cadeira deixa de ser só um objeto de tortura e passa a simbolizar tudo o que Daniel evitou encarar.
Câmera, luz e som que acompanham o desgaste
A forma como o filme é contado reforça o que acontece com o personagem. De acordo com o material de produção, o início traz planos abertos e luz clara, que lembram o sonho da classe média, e aos poucos a imagem se fecha, escurece e ganha uma textura mais suja. A câmera chega tão perto do rosto de Lorente que o espectador quase divide com ele o mesmo ar abafado.
A filmagem seguiu, sempre que possível, a ordem da história, para que o cansaço do ator crescesse de forma natural. Havia cerca de trinta camisas polo idênticas, cada uma com um nível diferente de sujeira e desgaste, e o próprio Lorente contou que rompeu o bíceps por causa do peso da cadeira. O som também pesa: cada respiração e cada ruído da casa entram como parte do incômodo, e a trilha foi assinada por Jesús Martín-Fernández, que é neurocirurgião, e por Tomás Barreiro.
O que realmente nos prende
Cuidado Com o Que Deseja não agradou a todos. Na Espanha, a crítica se dividiu: o jornal La Vanguardia deu uma estrela de cinco e apontou falta de verossimilhança e confusão moral, enquanto o MeriStation deu três e meia e elogiou a sensação constante de aflição. O La Razón destacou a entrega de Lorente, descrita como intensa e de deixar os nervos à flor da pele.
Mesmo com falhas, o filme deixa uma boa pergunta para quem sai da sessão: o que realmente nos prende? Para Daniel, são as cordas, mas também as escolhas que ele fez muito antes de se sentar naquela cadeira. É esse recado, mais do que o suspense em si, que acompanha o espectador depois dos 76 minutos de projeção.
Assista o trailer do filme Cuidado com o que Deseja:
Ficha técnica do filme:
Nome: Cuidado Com o Que Deseja | La silla (Tied Up, em inglês) | Espanha | 2026
Duração: 76 minutos
Estreia: 29 de maio de 2026 nos cinemas da Espanha; 23 de julho de 2026 em Portugal, com o título De Mãos Atadas
Criador: Não se aplica (longa-metragem)
Obra original ou base literária: romance La silla, de David Jasso
Desenvolvimento: adaptação do romance por Ángel de la Cruz
Direção: Ángel de la Cruz
Roteiro: Ángel de la Cruz
Elenco: Jaime Lorente (Daniel Lonces); Christina Ochoa (Irene); Eva Rufo (Carla); Alba de la Fuente (Diana); Estíbaliz Veiga (Miriam); Santiago Molero (Lorenzo); Rodrigo Poisón (Editor); Iñaki e Daniel Urriza (Víctor)
Participação especial: não identificada nas fontes consultadas
Gênero: thriller psicológico, com elementos de suspense e terror
Produção: La Silla La Película, em associação com Ézaro Films e Emedia Canary Projects, com participação de AF Films, AF Canary Islands Studios, Match Point e Crea SGR, e apoio da Canary Islands Film. Produtores: Frank Ariza e Manu Vega
Distribuição: AF Pictures (Espanha); Cinemundo (Portugal); vendas internacionais: Film Factory Entertainment
Orçamento estimado: não divulgado nas fontes consultadas
Locações: a casa do casal foi construída em estúdio em Gran Canaria (Ilhas Canárias), e as cenas externas foram filmadas em outro local, a mais de 1.700 km de distância, segundo o material de produção
Direção de arte: Sergio Ardura
Figurino: Eva Camino
Fotografia: Christos Voudouris
Trilha sonora: Jesús Martín-Fernández e Tomás Barreiro Guijosa
Plataforma de exibição: exibido nos cinemas; disponibilidade em streaming no Brasil não confirmada nas fontes consultadas
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: sem premiações registradas nas fontes consultadas; o filme integrou o catálogo da Film Factory para o European Film Market 2026 e recebeu críticas divididas na imprensa espanhola
Fontes:
Crew United, Kinoafisha, LaHiguera, Magazine HD, SensaCine, Spain Audiovisual Hub, Wikipedia