Em Clonaram Tyrone, o diretor Juel Taylor parte de uma ideia que soa como conversa de barbearia: a de que o governo manipularia a comunidade negra por meio da comida e dos hábitos do dia a dia. O filme leva essa ideia tão a sério que o riso aos poucos se transforma em desconforto. A história se passa em The Glen, um bairro pobre que parece parado no tempo, e acompanha três pessoas que nunca tiveram a intenção de salvar ninguém.
Essa escolha dá ao longa um tom muito particular, que mistura comédia, ficção científica e crítica social sem explicar cada referência ao espectador. Quem chega sem conhecer o tema encontra uma boa aventura de mistério, e quem conhece a história de abusos científicos contra a população negra nos Estados Unidos percebe camadas a mais.
Fontaine, vivido por John Boyega, é um traficante respeitado na vizinhança, mas sua autoridade esconde uma rotina vazia, feita de dias iguais e de uma conformidade que ele mesmo nunca questiona. A virada acontece depois que ele é baleado e acorda como se nada tivesse ocorrido. A partir daí, começa a notar que as pessoas ao redor repetem os mesmos gestos, como peças de um mecanismo bem ajustado.
A descoberta dos clones funciona como metáfora para uma pergunta bem humana: até que ponto nossas escolhas são realmente nossas? Fontaine passa o filme tentando entender quem é, e o confronto com versões de si mesmo o obriga a assumir responsabilidade pela própria trajetória. É essa mudança interior, mais do que a investigação em si, que sustenta a evolução do personagem.
Slick Charles, interpretado por Jamie Foxx, é o personagem mais espalhafatoso do filme, com roupas chamativas e um discurso de quem se acha esperto demais. Por trás da pose, há um homem inseguro, que usa a fala rápida e o exagero para esconder o medo de não ter importância para ninguém. O humor dele, que diverte o público, funciona também como uma armadura.
Yo-Yo, vivida por Teyonah Parris, é quem tem mais clareza sobre o próprio potencial e mais vontade de sair do lugar onde está. Ela leva a investigação adiante com uma determinação que os dois homens demoram a acompanhar. A convivência entre os três, feita de provocações e de lealdade, mostra que a amizade é o que sustenta a coragem de enfrentar algo tão grande.
O filme transforma elementos do cotidiano em símbolos de controle. A bebida, o frango frito, os produtos de cabelo e até o suco de uva servido na igreja aparecem como meios de manter a população dócil. A ironia é que os hábitos que dão identidade à comunidade são justamente os usados para enfraquecê-la, e isso faz o espectador olhar com desconfiança para o que parecia inofensivo.
A ambientação, com cores fortes e ares de outra época, reforça a sensação de que o bairro ficou parado no tempo, e isso não é acaso. Críticos lembram que episódios reais, como o estudo de Tuskegee e o programa MK Ultra, mostram que a ficção apenas exagera algo que já aconteceu. É essa proximidade com a realidade que faz o público rir e se incomodar ao mesmo tempo.
Kiefer Sutherland vive Nixon, um agente do governo que compara seu trabalho ao de um segurança de shopping. O personagem acredita de verdade que o experimento mantém o país unido, e essa convicção o torna mais inquietante do que um vilão movido por maldade, pois ele enxerga o controle como um favor prestado à sociedade. Sua calma e sua lógica organizada tornam a ameaça ainda mais próxima.
Diante disso, o trio deixa de ser um grupo de curiosos e passa a agir pela libertação dos moradores. Fontaine, que antes aceitava a rotina sem questionar, assume uma posição de liderança, enquanto Slick e Yo-Yo superam suas inseguranças para lutar ao lado dele. O desfecho mostra que romper o ciclo depende de recusar a obediência, algo que o filme trata como um gesto coletivo e não apenas individual.
Clonaram Tyrone consegue ser leve e inquieto ao mesmo tempo ao tratar de identidade, memória e manipulação. Com personagens cheios de falhas e um humor afiado, o filme convida o público a observar com mais atenção aquilo que parece normal e a perguntar quem se beneficia de certas rotinas.
A obra também sugere que a saída para a opressão passa pela união entre pessoas comuns, e não por heróis perfeitos. É esse olhar generoso com seus protagonistas que faz do filme uma experiência divertida e capaz de ficar na cabeça depois dos créditos.
Assista o trailer do filme Clonaram Tyrone:
Nome: Clonaram Tyrone | They Cloned Tyrone | Estados Unidos | 2023
Criador: Juel Taylor e Tony Rettenmaier (argumento original)
Obra original ou base literária: Roteiro original, sem base literária
Desenvolvimento: MACRO Media, com produção de Charles D. King
Direção: Juel Taylor (estreia em longa-metragem)
Roteiro: Tony Rettenmaier e Juel Taylor
Elenco: John Boyega (Fontaine / Chester), Jamie Foxx (Slick Charles), Teyonah Parris (Yo-Yo), Kiefer Sutherland (Nixon), J. Alphonse Nicholson (Isaac), David Alan Grier (O Pregador), Tamberla Perry (Biddy), Eric Robinson Jr. (Big Moss), Trayce Malachi (Junebug)
Participação especial: Não há participações creditadas oficialmente como especiais; Kiefer Sutherland e David Alan Grier atuam em papéis de apoio com destaque
Gênero: Ficção científica, comédia e mistério
Produção: MACRO Media, Netflix, Federal Films e Made With Love Productions; produtores: Charles D. King, Jamie Foxx, Stephen "Dr." Love, Datari Turner, Tony Rettenmaier e Juel Taylor
Distribuição: Netflix (estreia limitada nos cinemas em 14/07/2023 e no streaming em 21/07/2023)
Orçamento estimado: Não divulgado nas fontes consultadas
Locações: Atlanta, Geórgia (Shadowbox Studios, então chamado Blackhall Studios), com filmagens de novembro de 2020 a abril de 2021; Los Angeles para cenas finais. Uma das fontes menciona Cidade do Cabo como prevista, sem confirmação
Direção de arte e figurino: Design de produção de Franco-Giacomo Carbone; fotografia de Ken Seng. O figurino não foi confirmado nas fontes consultadas
Trilha sonora: Desmond Murray e Pierre Charles
Duração: 119 minutos (algumas bases listam 122)
Plataforma de exibição: Netflix
Premiações, festivais e reconhecimento: Estreou no American Black Film Festival (14/06/2023). Recebeu nove indicações ao NAACP Image Awards 2024, incluindo Melhor Filme, Ator (John Boyega), Ator Coadjuvante (Jamie Foxx) e Elenco. Não foi confirmado o resultado final de cada categoria.
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