Tommy tem 19 anos e leva uma vida marcada por festas, drogas, brigas e pequenos crimes. Ele também gosta de mostrar tudo nas redes sociais, como se aquela rotina fizesse parte de quem ele é. Não parece preocupado com as consequências e muito menos interessado em mudar. Para quem olha de fora, é um jovem que está desperdiçando a própria vida.
É depois de uma noite de excessos que sua história muda. Tommy é levado à força por Chris e acorda preso no porão de uma casa isolada. De repente, tudo aquilo que fazia parte de sua rotina desaparece. Ele não pode sair, não pode decidir o que fazer e precisa obedecer às regras de pessoas que nem conhece direito.
Chris acredita que Tommy ainda pode ser salvo. Na visão dele, o rapaz tomou um caminho errado e precisa aprender a viver de outra maneira. O problema é que Chris não oferece ajuda ou uma oportunidade para Tommy escolher mudar. Ele simplesmente decide que sabe o que é melhor e passa a controlar a vida do rapaz.
Kathryn acompanha o marido nessa tentativa, mas sua relação com tudo aquilo é mais complicada. Ela parece carregar dores antigas e problemas dentro da própria família. A presença de Tommy acaba trazendo esses problemas para a superfície. Aos poucos, fica difícil saber se aquele casal está realmente tentando ajudar o rapaz ou se encontrou nele uma maneira de lidar com aquilo que não conseguiu resolver na própria vida.
A casa onde Tommy fica preso parece, no início, apenas o lugar onde ele será mantido contra a vontade. Mas ela acaba revelando muito sobre Chris, Kathryn e Jonathan. Existem regras, silêncios e assuntos que não são discutidos. É uma família que parece organizada por fora, mas que carrega uma história bem mais complicada.
Jonathan é importante justamente por mostrar o que acontece com alguém que cresce dentro daquele ambiente. Ele conhece as regras da casa e sabe que certas coisas não devem ser questionadas. A chegada de Tommy altera essa rotina e faz com que Jonathan também precise lidar com situações que estavam escondidas. Tommy não é o único jovem afetado pelas escolhas dos adultos.
O título do filme começa a fazer mais sentido à medida que Tommy passa a ser submetido às regras de Chris. Para o casal, ser um bom garoto parece significar abandonar os velhos hábitos e aprender a obedecer. Tommy precisa comer, dormir, se comportar e agir de acordo com aquilo que seus sequestradores consideram correto.
Mas existe uma diferença importante entre mudar e simplesmente obedecer por medo. Tommy pode aprender a seguir regras porque não tem outra opção, mas isso não significa que tenha se tornado uma pessoa diferente. E é justamente aí que a ideia de Chris começa a perder força. Ninguém pode obrigar outra pessoa a mudar apenas porque acredita saber o que é melhor para ela.
Chris e Kathryn não são apresentados como pessoas violentas sem nenhuma explicação. Os dois carregam perdas e problemas que ajudam a entender por que chegaram àquela situação. Isso não transforma o que fazem em algo aceitável, mas torna a história menos simples do que uma disputa entre mocinhos e vilões.
Chris parece enxergar em Tommy uma oportunidade de fazer algo que não conseguiu fazer antes. Sua tentativa de transformar o rapaz também está ligada às próprias frustrações. O problema é que ele mistura cuidado com controle e acredita que uma pessoa pode ser reconstruída à força. Quanto mais tenta controlar Tommy, mais a situação se aproxima justamente da violência que ele diz querer combater.
A convivência com aquela família acaba afetando Tommy. Ele começa a perceber que sua antiga maneira de viver tinha consequências e que algumas de suas escolhas machucaram outras pessoas. Pela primeira vez, ele é obrigado a parar e olhar para a própria vida de uma maneira diferente.
Isso não significa que Tommy se transforme de uma hora para outra em uma pessoa completamente diferente. O filme é mais cuidadoso do que isso. Ele mostra que reconhecer os próprios erros é uma coisa, enquanto ser obrigado a seguir as regras de outra pessoa é outra. A mudança verdadeira só pode acontecer se Tommy decidir por ela.
Bom Garoto funciona justamente porque não transforma nenhum dos personagens em uma resposta fácil. Tommy fez escolhas ruins, mas isso não dá a Chris o direito de prendê-lo. Chris e Kathryn têm seus próprios sofrimentos, mas isso também não justifica o que fazem. E Jonathan mostra que os problemas daquela família são anteriores à chegada do rapaz.
No fim, a história deixa uma questão bastante simples: até onde podemos ir para tentar ajudar alguém? É possível aconselhar, estabelecer limites e oferecer uma segunda chance, mas ninguém consegue mudar outra pessoa à força. Tommy pode até sair daquela experiência diferente de quem entrou, mas a escolha de quem ele será daqui para frente precisa ser dele.
Assista o trailer do filme Bom Garoto:
Nome: Bom Garoto | Good Boy | Polônia / Reino Unido | 2026
Criador: Jan Komasa
Obra original ou base literária: História original
Desenvolvimento: Jan Komasa
Direção: Jan Komasa
Roteiro: Bartek Bartosik e Naqqash Khalid
Elenco: Stephen Graham (Chris); Andrea Riseborough (Kathryn); Anson Boon (Tommy); Kit Rakusen (Jonathan)
Gênero: Thriller psicológico / drama
Produção: Jeremy Thomas, Ewa Piaskowska e Jerzy Skolimowski
Distribuição: HanWay Films e distribuidores internacionais
Direção de fotografia: Michał Dymek
Edição: Agnieszka Glińska
Direção de arte: Fletcher Jarvis
Figurino: Julian Day
Trilha sonora: Abel Korzeniowski
Duração: 110 minutos
Locações: Yorkshire, Inglaterra, e região de Varsóvia, Polônia
Plataforma de exibição: plataformas digitais, incluindo Apple TV e Amazon Store, conforme disponibilidade regional
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2025, além de participações em festivais como BFI London Film Festival e Festival de Roma. Anson Boon recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Roma e Jan Komasa foi reconhecido como Melhor Diretor em Valladolid.
Apple TV Brasil, British Council, Festa do Cinema di Roma, Film Polski, HanWay Films, Screen Daily, Seminci, Site oficial de The Good Boy, The Guardian