Na adaptação do romance de Manel Loureiro dirigida por Carles Torrens, o fim do mundo chega a um protagonista que já havia perdido o seu. Manel, vivido por Francisco Ortiz, passa mais de um ano isolado em casa, na Galiza, na companhia do gato Lúculo, depois que a esposa morre em um acidente de carro. A epidemia de uma doença parecida com a raiva, que transforma pessoas em criaturas agressivas, funciona menos como novidade e mais como um espelho externo de uma devastação que ele já conhecia por dentro.
O luto como primeiro apocalipse
A escolha de apresentar Manel recluso antes de qualquer contaminação define o tom do filme. Ele não é um herói preparado para a catástrofe, e sim um homem que deixou de cuidar de si, afastado da família e sem motivos claros para sair de casa. O mundo desmorona à sua volta enquanto ele ainda tenta entender como seguir adiante sem a esposa.
Esse ponto de partida dá ao zumbi uma função simbólica. As criaturas agressivas lembram pessoas que perderam a capacidade de sentir e reagem apenas por impulso, algo próximo do que o luto prolongado pode fazer com quem fica. O filme sugere que sobreviver exige mais do que força física, pois exige decidir, mais uma vez, que a própria vida ainda vale algum esforço.
Lúculo, o gato mal-humorado que sustenta o protagonista
O gato Lúculo é, ao mesmo tempo, o elemento mais leve do filme e um dos mais importantes do ponto de vista emocional. Cuidar dele obriga Manel a sair da inércia, buscar comida e assumir riscos que talvez não assumisse por si mesmo. Uma crítica chegou a observar que o público termina se preocupando mais com o bicho do que com o próprio dono, o que mostra como o afeto, nessa história, nasce do vínculo e não do heroísmo.
O humor ranzinza do animal também alivia a tensão e lembra que a rotina continua existindo mesmo no colapso, com a necessidade de alimentar alguém, dividir a casa e aceitar companhia. Para o espectador comum, é um reconhecimento de que as pequenas responsabilidades diárias costumam ser o que mantém uma pessoa de pé nos momentos mais sombrios.
Os outros sobreviventes e a fragilidade da sociedade
À medida que Manel sai de casa em busca de suprimentos, por terra e por mar, ele encontra personagens que dão ao filme sua dimensão coletiva, como o enigmático Pritchenko, de José María Yazpik, e a gentil Gabriela, de Amalia Gómez, apontada pela crítica como uma das presenças que mais elevam a história. Esses encontros mostram como cada pessoa reage de maneira diferente à escassez e ao medo, entre a solidariedade e a desconfiança.
O roteiro também acompanha o sistema espanhol se desfazendo aos poucos, com fronteiras fechadas, aeroportos interditados e evacuações obrigatórias. Em tempos pós-pandemia, essa parte conversa de perto com a memória recente do público, que reconhece o medo de ficar sem informação, sem recursos e sem a certeza de que as autoridades terão respostas.
A transformação de Manel e o custo de sobreviver
A trajetória do protagonista segue o caminho de quem precisa aprender a agir. De um homem paralisado pela dor, ele passa a tomar decisões duras, inclusive recorrer à violência para proteger a si e ao que ainda lhe importa. Há quem aponte que essa mudança acontece rápido demais e deixa o personagem menos convincente que os coadjuvantes, e a objeção faz sentido, já que a estrutura de viagem, com cenários e figuras que se renovam, lembra as fases de um videogame e dá pouco tempo para o amadurecimento emocional.
Mesmo assim, a evolução de Manel carrega uma ideia clara: superar o luto não significa esquecer quem se perdeu, e sim encontrar um motivo para continuar caminhando. A jornada pelo território devastado, física e emocional, é a forma que o filme encontra de transformar um homem que se escondia em alguém disposto a enfrentar o que vem pela frente.
Entre a perda e a vontade de seguir
Apocalipse Z – O Princípio do Fim aproveita as convenções do cinema de zumbis, como perseguições, ataques em massa e a corrida por suprimentos, para falar de algo mais íntimo, que é a dificuldade de recomeçar depois de uma perda. O resultado nem sempre mantém a força do início, mais contemplativo e humano, mas oferece um retrato sensível de quem sobrevive por afeto, e não por vocação para a luta.
O sucesso mundial no Prime Video e a sequência já anunciada indicam que a combinação de ação e emoção encontrou seu público. Fica a impressão de que o maior acerto do filme está em lembrar que, mesmo diante do fim do mundo, o que move as pessoas continua sendo o desejo de cuidar de alguém e de não estar sozinho.
Assista o trailer do filme Apocalipse Z - O Princípio do Fim:
Nome: Apocalipse Z – O Princípio do Fim | Apocalipsis Z: El principio del fin | Espanha | 2024
Criador: não se aplica (adaptação de obra literária)
Obra original ou base literária: romance Apocalipsis Z: El principio del fin (2007), de Manel Loureiro, primeiro volume da trilogia
Desenvolvimento: Nostromo Pictures, com produção de Adrián Guerra e produção executiva de Núria Valls
Direção: Carles Torrens
Roteiro: Ángel Agudo
Elenco: Francisco Ortiz (Manel), José María Yazpik (Viktor Pritchenko), Amalia Gómez (Gabriela), Berta Vázquez (Lucía), Marta Poveda (Belén), Iria del Río (Julia), Yuri Mykhaylychenko (Ushakov), María Salgueiro (Irmã Cecilia)
Participação especial: Jesús Lloveras (Primeiro-ministro espanhol)
Gênero: terror, ação e drama pós-apocalíptico (zumbis)
Produção: Apoz Película SL (Nostromo Pictures) e Amazon
Distribuição: Amazon Prime Video
Orçamento estimado: não divulgado nas fontes consultadas
Locações: Galiza (a história se passa em Vigo) e Catalunha: Barcelona, Blanes, Gelida, Lliçà d'Amunt, Manresa, Maresme, Sant Quirze del Vallès, Terrassa e Viladecans
Direção de arte e figurino: direção de arte de Balter Gallart; figurino não localizado nas fontes consultadas
Trilha sonora: Federico Jusid
Duração: 112 minutos (algumas fontes indicam 118)
Plataforma de exibição: Prime Video (estreia em 31 de outubro de 2024)
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: estreia mundial no 57º Festival de Sitges, em 5 de outubro de 2024. Nenhuma premiação foi localizada. O Prime Video divulgou que se tornou o filme original internacional mais visto da história da plataforma e anunciou uma sequência, Apocalipsis Z: Nuevo mundo.
Barcelona Catalunya Film Commission, eCartelera1, eCartelera2, Encancha.cl, Espinof, Festival de Sitges, Filmaffinity, Hipertextual, Moria, Vigoé, Wikipedia