Há filmes sobre recomeços que procuram uma grande virada, um momento de iluminação capaz de reorganizar a vida de um personagem. A Vida Secreta de Kika segue outro caminho. O primeiro longa-metragem de ficção da cineasta Alexe Poukine entende que, depois de uma perda profunda, a vida raramente se recompõe de maneira elegante. Ela continua, muitas vezes de forma desajeitada, contraditória e até absurda.
Kika está grávida de seu segundo filho quando perde repentinamente o homem que ama. Ao luto se soma uma preocupação muito concreta: a falta de dinheiro. A partir daí, o filme acompanha sua tentativa de encontrar uma forma de sobreviver sem transformar sua dor em espetáculo. A solução que surge em seu caminho a conduz a um universo profissional que ela desconhece, ligado ao BDSM e ao trabalho sexual, e é justamente nesse terreno inesperado que a personagem começa a descobrir algo sobre seus próprios limites, seus medos e sua autonomia.
Exibido pela primeira vez na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025, o filme marcou a estreia de Poukine em um longa de ficção e passou por festivais como Karlovy Vary, Rio, Munique e SEMINCI. A produção também conquistou o Grand Prix e o prêmio de Melhor Atriz para Manon Clavel no Brussels International Film Festival, além do CineMasters Award em Munique e do prêmio da ESCAC para direção de primeiro ou segundo longa na SEMINCI.
A primeira força de A Vida Secreta de Kika está na maneira como o filme trata o luto. A morte não interrompe o mundo para que a protagonista possa viver sua dor com calma. Existem contas, uma gravidez, responsabilidades familiares e decisões que não podem esperar. Kika sofre, mas precisa continuar funcionando.
Essa condição dá ao filme uma dimensão bastante concreta. O sofrimento não aparece isolado do mundo material. Perder alguém significa também perder uma estrutura afetiva e, em determinadas circunstâncias, uma forma de estabilidade. Poukine aproxima, portanto, duas vulnerabilidades que frequentemente aparecem separadas no cinema: a emocional e a econômica.
Kika não é apresentada como uma heroína admirável o tempo inteiro. Ela se confunde, toma decisões precipitadas, se sente desconfortável e nem sempre sabe exatamente o que está fazendo. Essa imperfeição é fundamental. O filme não constrói sua protagonista como símbolo de superação feminina, mas como alguém tentando encontrar uma saída antes que a realidade a engula.
A interpretação de Manon Clavel sustenta esse equilíbrio. Há fragilidade em Kika, mas também irritação, curiosidade, humor e uma espécie de teimosia que impede a personagem de simplesmente se entregar ao desastre. Sua força não está em dominar a situação. Está em continuar se movimentando mesmo sem saber para onde vai.
A trajetória do filme parte justamente dessa contradição: há pessoas que precisam sobreviver antes de terem a oportunidade de compreender plenamente aquilo que perderam.
A grande mudança de rumo em A Vida Secreta de Kika poderia facilmente ser tratada como provocação. Afinal, a história de uma mulher enlutada e sem dinheiro que entra em contato com o universo do BDSM oferece um material aparentemente feito para o choque. Poukine, porém, está menos interessada no escândalo do que na descoberta.
O que Kika encontra é um território desconhecido, cheio de códigos próprios. Aos poucos, ela percebe que aquele trabalho exige mais do que disposição para atravessar limites físicos ou sexuais. Exige escuta, negociação, atenção e uma capacidade de compreender aquilo que cada cliente procura.
Há uma ironia importante nessa situação. Antes da crise, Kika trabalhava como assistente social, profissão baseada no cuidado com os outros. Em sua nova experiência, o contexto muda radicalmente, mas a necessidade de perceber desejos, fragilidades e comportamentos humanos continua presente. O filme não sugere uma equivalência simplista entre as duas atividades, mas percebe uma continuidade curiosa: Kika continua, de outra maneira, lidando com as necessidades de pessoas que não se encaixam facilmente em categorias convencionais.
Essa mudança também impede que o filme transforme sua protagonista em vítima permanente. Kika não deixa de ser vulnerável, mas começa a experimentar uma relação diferente com a própria capacidade de agir. O trabalho, inicialmente procurado por necessidade, passa a confrontá-la com a possibilidade de fazer escolhas que não estavam previstas em sua vida anterior.
Um dos aspectos mais interessantes do filme está na maneira como ele se aproxima do trabalho sexual. A Vida Secreta de Kika não procura transformar esse universo em símbolo automático de libertação, mas também não o trata como sinônimo inevitável de degradação.
A experiência de Kika é marcada pela necessidade financeira. Não há romantização da precariedade. Ela entra nesse mundo porque precisa de dinheiro, e o filme não esquece essa origem. Ao mesmo tempo, a descoberta de uma atividade incomum abre espaço para uma discussão maior sobre autonomia.
O trabalho sexual, nesse contexto, obriga Kika a lidar com algo que sua vida anterior talvez mantivesse oculto: a necessidade de estabelecer limites com clareza. Consentimento, negociação e confiança não aparecem como conceitos abstratos. São elementos práticos da relação entre as pessoas.
Essa dimensão torna o filme mais complexo do que uma simples história de “libertação”. Kika não se transforma em outra pessoa de um dia para o outro. O que muda é sua percepção sobre o que consegue fazer, sobre aquilo que aceita e, principalmente, sobre o direito de determinar certas regras.
O humor tem um papel importante nesse processo. Poukine permite que situações potencialmente constrangedoras sejam engraçadas, sem transformar os personagens em caricaturas. O riso não serve para ridicularizar desejos ou práticas, mas para lembrar que seres humanos continuam sendo estranhos, inseguros e contraditórios, independentemente do ambiente em que estejam.
O próprio percurso do filme, alternando drama e humor, foi uma das características destacadas na recepção crítica: a narrativa mistura situações trágicas e cômicas para acompanhar uma personagem que parece incapaz de parar, justamente porque parar significaria encarar tudo o que perdeu.
A gravidez atravessa todo o filme de maneira silenciosa, mas decisiva. Kika está construindo uma nova vida enquanto tenta reorganizar a própria. Seu corpo carrega simultaneamente a continuidade e a ruptura.
Essa coexistência é um dos símbolos mais fortes da narrativa. Enquanto a personagem tenta processar a ausência de alguém que morreu, a gravidez a obriga a olhar para o futuro. Não existe escolha entre permanecer no passado ou seguir em frente: as duas experiências acontecem ao mesmo tempo.
O corpo também muda de significado ao longo da história. No início, ele parece associado à fragilidade, à maternidade e à condição de alguém que precisa ser cuidada. Aos poucos, torna-se também instrumento de trabalho e espaço de autonomia.
Isso não significa que Kika simplesmente “recupere o controle” e deixe para trás todas as suas inseguranças. O filme é mais interessante justamente porque não propõe uma transformação tão limpa. A autonomia não elimina o medo. Em alguns momentos, talvez até o revele com mais intensidade.
Poukine parece interessada em mostrar que o corpo feminino é constantemente interpretado pelos outros: como corpo materno, sexual, profissional, vulnerável ou desejável. Kika passa boa parte do filme tentando descobrir qual dessas interpretações aceita e quais deseja rejeitar.
Embora Kika seja o centro absoluto da narrativa, o filme não constrói seu percurso como uma experiência solitária. Pelo contrário: ela é definida pelos encontros.
David representa uma forma de afeto que modifica sua vida antes mesmo da tragédia. Outras personagens, especialmente aquelas que pertencem ao novo universo profissional de Kika, ajudam a deslocar suas certezas. Algumas relações oferecem apoio; outras provocam desconforto. Nenhuma delas existe apenas para ensinar uma lição.
Esse é um ponto em que a experiência documental de Alexe Poukine parece deixar marcas em sua ficção. Os personagens secundários não são tratados como obstáculos narrativos. Cada um carrega sua própria lógica, suas inseguranças e sua forma particular de interpretar o mundo.
A própria diretora afirmou, em reflexões sobre seu trabalho, que se interessa por pessoas surpreendentes e complexas, recusando a ideia de que uma narrativa precisa ser cercada apenas por indivíduos cruéis para produzir conflito. Essa visão ajuda a compreender a atmosfera de Kika: mesmo nos momentos mais difíceis, o filme preserva uma curiosidade genuína pelos outros.
Seria possível contar essa história como um drama pesado sobre luto e precariedade. Poukine escolhe algo mais instável. O filme muda de tom, alternando tristeza, constrangimento, surpresa e humor.
Essa escolha pode causar estranhamento, mas está diretamente ligada à personagem. Kika não tem a possibilidade de viver uma tragédia em estado permanente. Em algum momento, precisa resolver um problema prático. Depois, surge uma situação absurda. Em seguida, uma lembrança devolve o peso da perda.
A vida raramente organiza seus sentimentos em blocos bem definidos, e A Vida Secreta de Kika procura reproduzir essa desordem.
Visualmente, a fotografia de Colin Lévêque acompanha essa proximidade com a personagem sem transformar sua vida em espetáculo miserabilista. Os ambientes cotidianos, os espaços íntimos e as mudanças de cenário ajudam a registrar uma mulher que parece estar constantemente atravessando fronteiras: entre a antiga vida e a nova, entre a maternidade e o desejo, entre o trabalho convencional e uma atividade que ela jamais havia imaginado exercer.
A montagem de Agnès Bruckert também contribui para esse movimento. A narrativa não busca transformar cada mudança em um grande acontecimento. Kika simplesmente avança, às vezes sem preparação, como alguém que está aprendendo a viver enquanto já vive.
A Vida Secreta de Kika poderia cair facilmente em duas armadilhas. Poderia transformar a protagonista em exemplo de superação ou utilizar seu novo trabalho apenas como elemento de provocação. Alexe Poukine evita as duas coisas.
Seu filme é mais interessante porque aceita a ambiguidade. Kika não se torna completamente livre, nem encontra uma solução definitiva para todos os seus problemas. O luto não desaparece. A precariedade não deixa de existir. A maternidade continua exigindo respostas. Ainda assim, alguma coisa se transforma.
Essa transformação está menos relacionada à ideia de felicidade do que à descoberta de possibilidades. Kika percebe que a vida que imaginava como única deixou de existir, mas isso não significa que tudo o que vem depois precise ser definido apenas pela perda.
O grande mérito do filme está em compreender que recomeçar não significa recuperar aquilo que se tinha. Às vezes, significa aceitar que a antiga vida acabou e construir outra com os materiais disponíveis, por mais estranhos que eles pareçam.
No percurso de Kika, a sobrevivência deixa de ser apenas resistência. Pouco a pouco, transforma-se em invenção. E é nesse espaço, ainda instável e cheio de incertezas, que A Vida Secreta de Kika encontra sua forma mais humana: a possibilidade de continuar não porque a dor desapareceu, mas porque a vida, apesar de tudo, ainda pode surpreender.
Assista o trailer do filme A Vida Secreta de Kika:
Nome: A Vida Secreta de Kika | Kika | Bélgica / França | 2025
Criador: Alexe Poukine
Obra original ou base literária: Roteiro original
Desenvolvimento: Primeiro longa-metragem de ficção de Alexe Poukine, após sua trajetória no documentário e em obras curtas de ficção.
Direção: Alexe Poukine
Roteiro: Alexe Poukine e Thomas Van Zuylen
Elenco: Manon Clavel, Ethelle Gonzalez Lardued, Makita Samba, Suzanne Elbaz, Anaël Snoek, Thomas Coumans, Kadija Leclere e Bernard Blancan
Gênero: Drama com elementos de comédia
Produção: Benoît Roland, Alexandre Perrier e François-Pierre Clavel
Distribuição: Condor Distribution, na França; Imagine Films, na Bélgica.
Duração: 104 minutos na ficha apresentada pelo Festival do Rio; outras fontes internacionais registram versões entre 108 e 110 minutos.
Orçamento estimado: Não divulgado publicamente nas fontes consultadas
Locações: Bruxelas, Bélgica
Direção de arte e figurino: Julia Irribarria e Prunelle Rulens
Trilha sonora: Pierre Desprats
Plataforma de exibição: Lançamento em cinemas e circuito internacional de festivais; não há indicação oficial consolidada de uma plataforma de streaming específica para o Brasil nas fontes consultadas.
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Estreia mundial na competição da Semana da Crítica de Cannes 2025; seleções em festivais como Karlovy Vary, Festival do Rio, Varsóvia, Tóquio, Munique e SEMINCI. Venceu o Grand Prix e o prêmio de Melhor Atriz para Manon Clavel no BRIFF, o CineMasters Award no Festival de Munique e o prêmio ESCAC de Melhor Direção de primeiro ou segundo longa na SEMINCI. Manon Clavel também recebeu indicação ao César 2026 na categoria de Melhor Revelação Feminina.
Académie des César, Festival do Rio, Semana da Crítica de Cannes, SEMINCI, Totem Films, Unifrance