Filmes pós-apocalípticos costumam perguntar como a humanidade pode continuar depois da destruição da civilização. Depois do Apocalipse (Hostile) parte dessa premissa, mas rapidamente desloca o foco para uma questão mais íntima: o que significa continuar vivendo depois de perder praticamente tudo?
Juliette é uma das poucas sobreviventes de uma epidemia que dizimou a população mundial. Acostumada a sair em busca de alimentos e outros recursos, ela sofre um acidente durante uma expedição e fica presa dentro do veículo, com uma perna gravemente ferida. A noite se aproxima e uma criatura começa a rondar o carro.
A situação modifica completamente a posição da personagem. A mulher independente, acostumada a enfrentar os perigos daquele mundo, passa a depender da própria capacidade de resistir. O veículo, que normalmente representa mobilidade e segurança, transforma-se em uma espécie de prisão.
A perna ferida também possui uma dimensão simbólica. Juliette passou a vida tentando seguir em frente, mas agora está literalmente impedida de avançar. Para escapar, precisa enfrentar não apenas aquilo que está do lado de fora, mas também as lembranças que continuam dentro dela.
A narrativa alterna o presente pós-apocalíptico com lembranças do período anterior à catástrofe. Nos flashbacks, acompanhamos a relação de Juliette com Jack, interpretado por Grégory Fitoussi.
Essa estrutura poderia parecer inicialmente uma interrupção da história de terror, mas é justamente ela que transforma Hostile em algo mais próximo de um drama sobre perda. O diretor Mathieu Turi concebeu o filme combinando deliberadamente uma história de criaturas com uma história de amor.
Antes do fim do mundo, Juliette era uma mulher marcada por problemas pessoais e dificuldades de relacionamento. Jack representa uma possibilidade de mudança e de pertencimento que ela ainda não sabia como construir.
A diferença entre os dois períodos é fundamental. Nas lembranças, existem ruas movimentadas, pessoas, encontros e possibilidades. No presente, restam silêncio, deserto e ruínas. A destruição do mundo passa a representar também a destruição de uma vida que Juliette poderia ter tido.
Por isso, suas lembranças não são simples explicações sobre o passado. Elas revelam por que a sobrevivência tem um peso tão grande para a personagem.
A criatura interpretada por Javier Botet poderia funcionar apenas como ameaça física. Ela aparece durante a noite, ronda o veículo e obriga Juliette a permanecer em permanente estado de alerta.
A narrativa, porém, dá ao monstro um significado maior. À medida que a história avança, ele passa a representar as consequências humanas da catástrofe. O apocalipse não destruiu apenas cidades e relações sociais; também alterou corpos e identidades.
Essa dimensão fica mais evidente com a revelação relacionada a Jack. O monstro deixa de ser simplesmente aquilo que ameaça Juliette e passa a estar diretamente ligado àquilo que ela perdeu.
O horror, portanto, não nasce somente da aparência da criatura. Ele surge também do reconhecimento. O que parecia completamente estranho está ligado ao passado da protagonista.
A ideia aproxima o filme de referências como Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, e The Last of Us, citadas por Turi como influências para sua concepção.
A força visual de Depois do Apocalipse depende da oposição entre seus dois períodos. As sequências pós-apocalípticas foram filmadas no deserto de Ouarzazate, no Marrocos, enquanto as lembranças de Juliette foram ambientadas em Nova York, com algumas cenas interiores realizadas em Paris. Turi explicou que buscava justamente o contraste entre uma cidade vertical e superpovoada e uma paisagem horizontal e praticamente vazia.
O resultado transforma o cenário em parte da narrativa. Nova York representa movimento e possibilidades; o deserto representa ausência e isolamento.
A fotografia e a direção de arte reforçam essa oposição. Os veículos modificados, as roupas desgastadas e os objetos reaproveitados mostram uma sociedade que já não consegue produzir como antes. Seus sobreviventes precisam utilizar aquilo que restou.
O orçamento relativamente reduzido, estimado em aproximadamente US$ 1 milhão, contribuiu para uma abordagem que privilegia locações reais e o isolamento da protagonista.
A principal força do filme está na aproximação entre sobrevivência física e emocional. Juliette precisa enfrentar a criatura e a própria fragilidade, mas também precisa compreender o que o passado significa.
Sua dureza não nasceu apenas do apocalipse. Ela já carregava feridas anteriores à destruição do mundo. A relação com Jack mostra uma versão diferente da personagem, mais aberta à possibilidade de vínculo.
O desfecho modifica a percepção sobre tudo o que aconteceu. A criatura deixa de ser apenas um inimigo e passa a representar uma ligação distorcida com o passado. Juliette sobreviveu, mas aquilo que amava também permaneceu de uma forma que ela jamais poderia desejar.
Essa é a ironia central da narrativa: sobreviver não significa recuperar o que foi perdido. Algumas pessoas e algumas versões de nós mesmos desaparecem definitivamente, mesmo que o corpo continue existindo.
Depois do Apocalipse não está especialmente interessado em explicar as causas da epidemia ou reconstruir detalhadamente o funcionamento daquele novo mundo. Seu apocalipse funciona principalmente como instrumento dramático para colocar uma personagem diante de suas perdas.
O filme mistura terror, ficção científica e romance para discutir a dificuldade de abandonar aquilo que já não pode ser recuperado. O deserto, a criatura e a noite representam perigos concretos, mas a verdadeira jornada de Juliette está relacionada à aceitação.
A produção foi exibida em diversos festivais de cinema fantástico, incluindo Sitges, FrightFest e Utopiales. Também recebeu o Denis-de-Rougemont Youth Award no Festival Internacional de Cinema Fantástico de Neuchâtel e o prêmio Nocturno Nuove Visioni no Trieste Science+Fiction Festival, ambos em 2017.
O resultado é uma história de sobrevivência que encontra seu melhor momento justamente quando deixa de tratar o apocalipse como espetáculo. No centro está uma mulher tentando descobrir se ainda é possível seguir adiante depois que o mundo, o amor e parte de sua própria identidade ficaram para trás.
Assista o trailer do filme Depois do Apocalipse:
Nome: Depois do Apocalipse | Hostile | França, Bélgica e Marrocos | 2017
Criador: Mathieu Turi
Obra original ou base literária: Roteiro original de Mathieu Turi, com referências a Eu Sou a Lenda e The Last of Us.
Desenvolvimento: Mathieu Turi
Direção: Mathieu Turi
Roteiro: Mathieu Turi
Elenco: Brittany Ashworth (Juliette), Grégory Fitoussi (Jack), Javier Botet (A Criatura / The Reaper), Jay Benedict (homem ferido)
Gênero: Terror, ficção científica, drama e romance
Produção: Full Time Films, H Films, Title Media e outras produtoras associadas.
Distribuição: Next Film Distribution e distribuidores internacionais por território.
Duração: 83 minutos
Orçamento estimado: Cerca de US$ 1 milhão.
Locações: Marrocos, Nova York e Paris.
Direção de arte e figurino: Mika Cotellon, Thierry Jaulin e Caroline Di Paolo.
Trilha sonora: Frédéric Poirier.
Plataforma de exibição: Circuito de festivais, cinemas e posteriormente plataformas e serviços de vídeo sob demanda.
Premiações, participação em festivais e reconhecimento: Denis-de-Rougemont Youth Award no NIFFF 2017; Nocturno Nuove Visioni no Trieste Science+Fiction Festival 2017; participação em Sitges, FrightFest, Utopiales, FilmQuest e NYC Horror Film Festival.
Apple TV, Cineuropa, Entrevista com Mathieu Turi sobre Hostile, Entrevista com Mathieu Turi sobre referências e desenvolvimento, NYC Horror Film Festival