Existem filmes de guerra que procuram explicar os grandes acontecimentos da História e outros que preferem aproximar o espectador de uma única experiência humana. Sisu, dirigido e escrito pelo finlandês Jalmari Helander, escolhe um caminho ainda mais particular. Ambientado nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, o filme reduz a escala do conflito mundial para acompanhar um homem quase sem palavras, isolado em uma região devastada da Lapônia, tentando preservar aquilo que encontrou depois de uma vida marcada pela violência.
O personagem é Aatami Korpi, interpretado por Jorma Tommila. Ex-soldado e garimpeiro, ele descobre uma grande quantidade de ouro enquanto percorre sozinho uma paisagem castigada pela guerra. O que poderia ser o início de uma história sobre enriquecimento rapidamente se transforma em outra coisa. Quando soldados nazistas cruzam seu caminho e tomam o ouro, o filme abandona qualquer pretensão de realismo convencional e assume uma narrativa de perseguição cada vez mais exagerada, brutal e quase mítica.
Mas a força de Sisu não está apenas na violência ou na sucessão de situações improváveis. O filme constrói Aatami como um homem que parece já ter perdido quase tudo antes mesmo de a história começar. Sua luta, portanto, não é simplesmente para recuperar algumas pepitas. O ouro representa uma possibilidade de futuro, talvez a primeira que ele conseguiu imaginar depois de sobreviver ao passado. Ao tentar recuperá-lo, Aatami parece lutar também para não permitir que a guerra continue decidindo o que resta de sua vida.
A palavra finlandesa que dá título ao filme não possui uma tradução direta e costuma ser associada a uma combinação de coragem, perseverança e determinação diante de situações aparentemente impossíveis. Essa ideia se torna o centro da narrativa. Aatami não é apresentado como um herói tradicional que vence porque acredita que conseguirá. Sua particularidade é outra: ele continua mesmo quando não há uma razão razoável para acreditar na vitória.
Uma das decisões mais interessantes de Jalmari Helander é não explicar demais quem é Aatami Korpi. O filme fornece informações suficientes para que entendamos que existe um passado violento por trás daquele homem, mas evita transformar sua trajetória em uma longa exposição sobre antigas batalhas, traumas ou perdas.
Essa economia de informações permite que o personagem adquira uma dimensão quase lendária. Os soldados alemães descobrem gradualmente que aquele garimpeiro não é um adversário comum. Existe uma reputação associada ao seu passado, construída a partir de sua participação na guerra, e essa reputação passa a crescer conforme a narrativa avança.
No entanto, seria fácil transformar Aatami apenas em uma máquina de combate. O desempenho de Jorma Tommila evita isso. Há algo profundamente cansado no personagem. Sua determinação não parece nascer da alegria de lutar ou do desejo de demonstrar superioridade. Pelo contrário, Aatami dá a impressão de ser um homem que já conhece o custo da violência e que preferiria simplesmente seguir seu caminho.
É justamente por isso que o conflito ganha um significado diferente. Ele não procura a guerra. A guerra o alcança novamente.
A paisagem ajuda a reforçar essa sensação. A Lapônia de Sisu não aparece como um cenário turístico ou como uma natureza acolhedora. É um território vasto, áspero e quase vazio, marcado pelos efeitos da retirada nazista e pela destruição provocada pela chamada Guerra da Lapônia. Nesse ambiente, Aatami parece pertencer a um mundo que está desaparecendo.
Quando encontra o ouro, o personagem não demonstra uma explosão de felicidade. A descoberta é importante, mas sua reação permanece contida. Talvez porque, para alguém que já enfrentou tanto, até a possibilidade de uma vida melhor seja recebida com cautela. O ouro não apaga o passado. Apenas oferece a possibilidade de existir depois dele.
O ouro ocupa uma posição central em Sisu, mas o filme evita tratá-lo simplesmente como um objeto de ganância. Naturalmente, existe uma dimensão material importante. Aatami encontrou uma fortuna e pretende levá-la para um lugar seguro. No entanto, o significado daquele tesouro cresce porque conhecemos, ainda que de forma fragmentada, o tipo de vida que ele deixou para trás.
Depois de anos convivendo com a guerra, encontrar ouro parece representar uma ruptura. Pela primeira vez, talvez seja possível deixar de sobreviver para começar a viver de outra maneira.
Essa interpretação torna a atitude dos nazistas ainda mais significativa. Quando o ouro é roubado, não se trata apenas de um assalto. O passado volta a interferir no futuro. A mesma violência que havia moldado a existência de Aatami tenta novamente determinar seu destino.
A reação do personagem, portanto, não precisa ser entendida apenas como vingança. Ele não aceita que aquilo que conseguiu conquistar depois de tanto sofrimento seja tomado por aqueles que representam precisamente o mundo que ele está tentando deixar para trás.
Há algo de simbólico nisso. O ouro é pequeno diante da escala da Segunda Guerra Mundial, mas para Aatami possui um valor imenso porque é pessoal. Os grandes acontecimentos históricos costumam ser lembrados por números, exércitos e territórios conquistados ou perdidos. Sisu escolhe mostrar como a História também atravessa a vida de alguém que deseja apenas preservar algo que considera seu.
Essa escolha aproxima o filme de uma tradição narrativa em que um objeto aparentemente simples concentra todo o significado da jornada. A partir do momento em que Aatami decide recuperar o ouro, cada obstáculo passa a ter uma dimensão maior. Ele está defendendo a ideia de que ainda tem direito a alguma coisa depois de tudo que já lhe foi tirado.
Quem se aproxima de Sisu esperando um filme de guerra convencional pode se surpreender. Jalmari Helander não está interessado em reproduzir o combate com o mesmo compromisso histórico de um drama realista. À medida que a perseguição avança, as situações se tornam cada vez mais extremas e o filme assume uma lógica próxima da fábula violenta.
Aatami sofre ferimentos que, em um filme tradicional, encerrariam sua trajetória. Mas continua. Enfrenta obstáculos aparentemente intransponíveis. E continua. A questão deixa de ser saber se aquilo seria possível na realidade e passa a ser compreender o tipo de personagem que o filme está construindo.
Nesse sentido, a violência funciona como uma forma de linguagem. Cada nova tentativa de eliminar Aatami reforça a ideia central do título. O sisu não é apresentado como coragem heroica no sentido mais confortável da palavra. Não significa ausência de medo ou certeza de vitória. É continuar quando as alternativas já desapareceram.
Existe também uma dimensão de humor sombrio nas cenas de ação. O filme sabe que está levando determinadas situações a um nível extremo e não tenta escondê-lo. Essa consciência impede que a violência se transforme em um espetáculo completamente solene. Em alguns momentos, a reação mais natural do espectador é se perguntar como aquele homem ainda está vivo.
Essa exageração aproxima Sisu de certos filmes de ação e vingança que transformam seus protagonistas em figuras quase sobrenaturais. A diferença está no ponto de partida. Aatami não é apresentado como um super-herói. Ele é um homem envelhecido, silencioso e aparentemente comum. A transformação acontece porque sua determinação se torna maior do que os limites que normalmente reconhecemos.
O filme parece perguntar até onde uma pessoa pode ir quando decide que não vai desistir. A resposta não pretende ser realista. Pretende ser simbólica.
Aksel Hennie interpreta Bruno Helldorf, o oficial nazista que se torna o principal antagonista da história. Helldorf não é construído para despertar empatia ou para oferecer uma explicação psicológica capaz de suavizar suas ações. O filme não está interessado em relativizar quem ele representa.
Ainda assim, Bruno não é apenas um obstáculo colocado no caminho do protagonista. Ele funciona como o oposto de Aatami em vários sentidos.
Aatami está sozinho e depende da própria capacidade de resistir. Bruno está cercado por soldados, armas e veículos. Aatami procura preservar algo que encontrou e conquistou. Bruno toma aquilo que não lhe pertence. Aatami quer sair daquele território. Bruno pertence a uma força que está destruindo tudo enquanto recua.
Essa oposição é importante porque permite que o conflito ultrapasse a simples ideia de uma perseguição. O que está em confronto são duas formas diferentes de se relacionar com o mundo. De um lado, a sobrevivência individual. Do outro, a violência organizada pelo poder.
À medida que a situação sai de controle, Bruno precisa lidar com algo que sua posição militar não havia preparado: um adversário que se recusa a obedecer às regras previsíveis da guerra. A superioridade numérica perde parte de sua importância quando o outro lado simplesmente não aceita reconhecer a derrota.
É aí que o filme encontra uma de suas ideias mais interessantes. O poder pode ser enorme e ainda assim depender da colaboração, do medo ou da submissão dos outros para funcionar. Quando alguém deixa de aceitar o papel que lhe foi imposto, a lógica desse poder começa a falhar.
Aatami não derrota uma estrutura inteira. Sisu não transforma a resistência individual em uma explicação para o fim da guerra. Mas, dentro dos limites de sua própria história, mostra como uma única pessoa pode se tornar impossível de controlar quando já não está disposta a entregar o que considera essencial.
Embora a maior parte de Sisu acompanhe Aatami e sua perseguição aos nazistas, a presença das mulheres mantidas sob controle dos soldados amplia a perspectiva do filme. Elas lembram que a guerra não atinge apenas aqueles que participam diretamente dos combates.
Aino, interpretada por Mimosa Willamo, ganha importância porque observa a situação de uma posição diferente. Enquanto Aatami luta para recuperar aquilo que perdeu, ela e as outras mulheres precisam encontrar uma maneira de recuperar a própria liberdade.
O filme não aprofunda suas histórias individuais da mesma maneira que poderia fazer em um drama de guerra mais longo. Ainda assim, a presença delas impede que a narrativa fique inteiramente restrita ao confronto entre dois homens.
Existe uma diferença importante entre as jornadas. Aatami possui experiência de combate e carrega consigo uma reputação construída no passado. Aino e as demais personagens não dispõem das mesmas ferramentas. Sua resistência precisa nascer de outras possibilidades, incluindo a capacidade de perceber uma brecha em meio ao caos.
Essa aproximação entre Aatami e as mulheres acontece sem transformar o filme em uma história sentimental. Helander mantém a narrativa em movimento, mas permite que a libertação delas se torne parte do significado maior da jornada.
A guerra, afinal, é também um sistema que controla deslocamentos, separa pessoas e transforma seres humanos em instrumentos ou prisioneiros. Quando essas personagens conseguem interferir no próprio destino, ainda que dentro de uma história dominada pela ação, o filme amplia seu sentido de resistência.
A Lapônia é essencial para a identidade de Sisu. O filme poderia contar uma história semelhante em diferentes lugares, mas perderia parte importante de sua personalidade. O território ajuda a definir o ritmo, o isolamento e até mesmo a dimensão simbólica do protagonista.
Em muitos filmes de guerra, o excesso de pessoas, veículos e explosões transmite a ideia de que o conflito tomou conta de tudo. Em Sisu, ocorre algo diferente. A imensidão do espaço faz com que os personagens pareçam pequenos. Há longos trechos em que a paisagem parece existir independentemente da presença humana.
Essa característica reforça a solidão de Aatami. Ele está em um lugar onde a ajuda não chegará facilmente. Não existe uma comunidade próxima capaz de protegê-lo. Sua sobrevivência depende, em grande medida, daquilo que consegue fazer sozinho.
Ao mesmo tempo, a natureza não é romantizada. A paisagem é bonita em alguns momentos, mas também é hostil. A guerra agrava essa hostilidade ao deixar para trás destruição e ruínas. O resultado é um ambiente em que a própria sobrevivência já exige esforço antes mesmo de qualquer confronto.
A direção de fotografia de Kjell Lagerroos aproveita essa relação entre personagem e espaço para ampliar a escala visual do filme. Os planos abertos fazem Aatami parecer pequeno diante do território, mas o desenvolvimento da narrativa produz o efeito contrário: quanto mais isolado ele está, maior parece se tornar sua presença.
É uma inversão interessante. O homem não domina a paisagem. Ele simplesmente se recusa a desaparecer dentro dela.
Ao longo de Sisu, sobreviver deixa de ser apenas uma reação ao perigo. Para Aatami Korpi, continuar passa a ser uma escolha. Ferido, sozinho e diante de obstáculos aparentemente impossíveis, ele se recusa a aceitar que a violência determine mais uma vez o rumo de sua vida.
O ouro, inicialmente o motivo da perseguição, ganha um significado maior. Mais do que riqueza, representa a possibilidade de um futuro depois de anos marcados pela guerra. Recuperá-lo significa preservar algo que Aatami finalmente considera seu.
É nesse ponto que o título do filme encontra seu sentido. Sisu está ligado à capacidade de seguir adiante quando as circunstâncias já não oferecem motivos para acreditar que será possível vencer. A narrativa leva essa ideia ao extremo, transformando Aatami em uma figura quase lendária, não porque ele não sofra, mas porque continua apesar de tudo.
No fim, o filme vai além de uma simples história de perseguição e vingança. Em meio à violência e ao exagero das cenas de ação, permanece a trajetória de um homem que se recusa a entregar aquilo que conquistou. Depois de sobreviver a tanto, continuar vivendo nos próprios termos se torna sua maior forma de resistência.
Assista o trailer do filme Sisu - Uma história de determinação:
Nome: Sisu – Uma História de Determinação | Sisu | Finlândia, Reino Unido e Estados Unidos | 2023
Criador: Jalmari Helander
Obra original ou base literária: Roteiro original
Desenvolvimento: Subzero Film Entertainment, Good Chaos e Stage 6 Films
Direção: Jalmari Helander
Roteiro: Jalmari Helander
Elenco: Jorma Tommila, Aksel Hennie, Jack Doolan, Mimosa Willamo, Onni Tommila, Tatu Sinisalo, Arttu Kapulainen, Elina Saarela e outros
Gênero: Ação, guerra e suspense
Produção: Petri Jokiranta; com Mike Goodridge, Gregory Ouanhon e Antonio Salas entre os produtores executivos
Distribuição: SF Studios, na Finlândia; Lionsgate, em territórios internacionais, incluindo os Estados Unidos
Episódios: Não se aplica — filme
Duração: 91 minutos
Orçamento estimado: Cerca de US$ 6 milhões
Locações: Lapônia, Finlândia
Direção de arte e figurino: Direção de arte de Otso Linnalaakso; figurino de produção finlandesa
Trilha sonora: Juri Seppä e Tuomas Wäinölä
Plataforma de exibição: Disponibilidade varia conforme o país e o período; o filme esteve disponível para aluguel, compra e por canais associados à Lionsgate e ao Prime Video.
Danish Film Institute, Finnish Film Foundation, Lionsgate, Prime Video, The Numbers
A jornada de Aatami Korpi não termina aqui. Em Sisu: Estrada da Vingança, o personagem retorna em uma nova história, novamente marcada pela violência, pela determinação e pelas consequências de um passado que parece impossível de abandonar. Continue explorando o universo de Aatami Korpi no artigo sobre o filme Sisu: Estrada da Vingança.