Existe um tipo específico de filme que parece simples quando você lê a sinopse, mas que rapidamente começa a misturar gêneros como se estivesse testando a paciência do espectador. Entre Montanhas (ou The Gorge, no título original) entra exatamente nessa categoria. Ele começa como uma história de missão militar, desliza para um romance improvável e, quando você já acha que entendeu o jogo, resolve abrir a porta para algo muito mais sombrio.
Dirigido por Scott Derrickson, conhecido por trabalhar com tensão psicológica e elementos sobrenaturais, o filme constrói uma narrativa que depende mais da atmosfera e do isolamento do que de explicações diretas. E isso, para o bem ou para o mal, é o que define toda a experiência.
A base da história é quase minimalista. Dois agentes de elite, interpretados por Miles Teller e Anya Taylor-Joy, são designados para uma missão altamente confidencial: vigiar lados opostos de um enorme desfiladeiro cuja verdadeira natureza é desconhecida para eles.
Eles não podem cruzar, não podem abandonar seus postos e, principalmente, não sabem exatamente o que estão protegendo. Só sabem que aquilo ali não pode sair.
Esse tipo de premissa já entrega uma coisa importante: o filme não é sobre ação constante. Ele é sobre espera, tensão e dúvida. E, convenhamos, esperar já é uma atividade que os humanos detestam, então o filme basicamente transforma isso em entretenimento.
Grande parte do primeiro ato se passa com os personagens separados fisicamente, cada um em sua torre. A comunicação entre eles acontece à distância, o que cria um tipo de relação curiosa: eles se conhecem sem realmente estarem juntos.
Esse isolamento não é só geográfico. Ele é emocional. Ambos carregam passados complicados e são treinados para não confiar em ninguém. Ainda assim, pouco a pouco, surge uma conexão.
E aqui o filme começa a brincar com expectativas. O que poderia ser apenas mais um thriller militar se transforma em algo mais íntimo. Um romance improvável nasce no meio de uma missão que, teoricamente, não deveria permitir qualquer tipo de distração.
A relação entre os personagens de Teller e Taylor-Joy funciona justamente porque ela é construída com calma. Não há pressa. Não há aquela necessidade artificial de fazer tudo acontecer rápido para agradar o público.
Eles conversam, se observam, criam uma rotina compartilhada mesmo estando separados. É um romance que cresce no silêncio, o que combina perfeitamente com o cenário isolado.
Claro, isso pode incomodar quem espera um filme mais direto. Mas também é o que dá peso emocional à história quando as coisas inevitavelmente começam a sair do controle.
Durante boa parte do filme, o que existe dentro do desfiladeiro é apenas sugerido. Sons, movimentos, sinais de que algo está ali. Esse tipo de construção é eficiente porque faz o espectador imaginar algo possivelmente pior do que qualquer efeito visual poderia mostrar.
Mas eventualmente, o filme precisa revelar suas cartas - e quando revela, ele muda de tom.
O que era tensão psicológica vira ação, horror e ficção científica ao mesmo tempo. A ameaça deixa de ser abstrata e passa a ser concreta, colocando os personagens em uma situação onde sobreviver já não é suficiente. Eles precisam entender o que está acontecendo.
Entre Montanhas não é um filme fácil de categorizar. Ele mistura romance, ação, ficção científica e horror.
Essa mistura pode ser vista de duas formas. Para alguns, é uma tentativa interessante de fugir do padrão. Para outros, é um filme que não decide o que quer ser.
A verdade provavelmente está no meio. O filme funciona melhor quando está focado na relação entre os personagens e na atmosfera de mistério. Quando entra em explicações ou ação mais convencional, ele perde um pouco da força.
Mas ainda assim, há mérito na tentativa. Em um cenário onde muitos filmes seguem fórmulas previsíveis, pelo menos aqui existe uma vontade de experimentar.
Scott Derrickson traz sua experiência com o suspense para criar um ambiente constantemente inquietante. O desfiladeiro não é apenas um cenário. Ele é praticamente um personagem.
A fotografia de Dan Laustsen reforça essa sensação de perigo e isolamento, com enquadramentos que destacam o vazio e a distância entre os protagonistas.
Tudo é pensado para fazer o espectador sentir que algo está errado, mesmo quando nada aparentemente acontece.
A trilha sonora, assinada por Trent Reznor e Atticus Ross, é um dos pontos altos do filme.
Ela não tenta ser grandiosa. Em vez disso, aposta em sons discretos, incômodos, que aumentam a tensão sem chamar atenção para si.
É aquele tipo de trilha que você só percebe quando ela para. E aí percebe que estava te deixando desconfortável o tempo todo.
Miles Teller entrega um personagem mais contido, alguém que claramente já viu coisas demais e prefere não falar sobre isso.
Já Anya Taylor-Joy traz uma presença mais intensa, com um equilíbrio interessante entre vulnerabilidade e força.
A química entre os dois é essencial para o filme funcionar. E funciona.
Sigourney Weaver aparece em um papel de autoridade, trazendo aquele tipo de presença que dispensa explicações. Ela entra em cena e você já sabe que algo importante está acontecendo.
No fundo, Entre Montanhas não é sobre monstros ou ameaças globais. É sobre conexão humana.
Dois personagens isolados, em um lugar onde nada deveria crescer, acabam encontrando algo que não estava previsto: uma relação.
E talvez seja isso que o filme tenta dizer. Mesmo nas situações mais absurdas e perigosas, as pessoas ainda procuram por algum tipo de vínculo.
Sim, é meio poético. Sim, pode soar um pouco pretensioso. Mas funciona.
O filme teve uma recepção mista da crítica.
Alguns elogiaram a originalidade e a mistura de gêneros. Outros acharam que ele tenta fazer coisas demais ao mesmo tempo.
E, sinceramente, os dois lados têm razão.
Mas uma coisa é inegável: Entre Montanhas não passa despercebido. Ele pode não agradar todo mundo, mas dificilmente será esquecido logo depois dos créditos.
Assista ao trailer do filme Entre Montanhas:
Ficha técnica do filme:
Nome: Entre Montanhas | The Gorge | Estados Unidos / Reino Unido | 2025
Desenvolvimento: Skydance Media; Crooked Highway
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Zach Dean
Elenco: Miles Teller; Anya Taylor-Joy; Sigourney Weaver; Sope Dirisu; William Houston
Gênero: Ficção científica; ação; romance; horror
Produção: David Ellison; Dana Goldberg; Don Granger; Scott Derrickson; C. Robert Cargill; Sherryl Clark; Adam Kolbrenner; Zach Dean; Gregory Goodman
Distribuição: Apple TV+
Duração: aproximadamente 127 minutos
Orçamento estimado: não divulgado
Locações: Warner Bros. Studios Leavesden (Reino Unido)
Direção de arte e figurino: Rick Heinrichs (arte); Ellen Mirojnick (figurino)
Trilha sonora: Trent Reznor; Atticus Ross
Plataforma de exibição: Apple TV+
Fontes e referências:
Apple TV Press, IMDb, Movie Insider, Rotten Tomatoes, Wikipedia