Existe um tipo de produção que nasce com uma ideia forte o suficiente para sustentar um longa inteiro, mas que, por alguma razão misteriosa, decide complicar o que já funcionava. De Olhos Bem Abertos (Lookout, 2025) segue exatamente esse caminho. A premissa é direta, quase minimalista: uma mulher aceita um trabalho em uma torre de vigilância isolada e passa a enfrentar acontecimentos inexplicáveis. É o tipo de ponto de partida que já carrega tensão por si só, sem necessidade de excessos. Ainda assim, o filme insiste em adicionar camadas que não desenvolve, criando uma narrativa que começa promissora, ganha corpo de maneira irregular e termina dispersa, como se tivesse perdido o próprio foco no meio do percurso.
O que mais chama atenção não é a presença de falhas, algo comum em produções de menor escala, mas a forma como o longa abandona aquilo que inicialmente parecia funcionar melhor. Há uma confiança inicial no silêncio, no espaço e na construção gradual do desconforto, mas essa confiança se dissolve conforme o roteiro avança, substituída por decisões que parecem mais preocupadas em manter o espectador atento do que em contar uma história coerente.
A protagonista, Melissa, chega à torre carregando sinais de um passado conturbado, ainda que o filme nunca se comprometa a explorar isso de maneira aprofundada. Sua decisão de aceitar um trabalho isolado funciona como metáfora de fuga, uma tentativa de reorganizar a própria vida em um ambiente distante de tudo o que a afeta. Esse ponto de partida é eficiente, porque cria imediatamente uma camada emocional que poderia ser explorada ao longo da narrativa.
No entanto, o roteiro opta por um caminho mais apressado. Em vez de desenvolver a relação entre a personagem e o ambiente, construindo lentamente sua adaptação e o impacto psicológico do isolamento, o filme passa a introduzir eventos estranhos de forma relativamente precoce. Sons inexplicáveis, presenças sugeridas e alterações sutis na percepção começam a surgir antes que o espectador esteja completamente imerso na rotina da protagonista.
Essa escolha enfraquece o suspense. O medo do desconhecido funciona melhor quando há tempo para que o cotidiano se estabeleça, permitindo que qualquer ruptura tenha peso. Aqui, tudo acontece cedo demais, o que reduz o impacto das ocorrências e transforma o que poderia ser uma escalada de tensão em uma sucessão de eventos pouco conectados.
A ambientação é, sem dúvida, o elemento mais eficiente do filme. A torre de vigilância, posicionada em meio a uma floresta extensa e silenciosa, cria uma sensação constante de vulnerabilidade. A altura da estrutura, combinada com a distância de qualquer outro ponto habitado, reforça a ideia de isolamento absoluto. Não há para onde correr, não há com quem falar, e qualquer problema ganha proporções maiores justamente por essa ausência de suporte.
Nos primeiros momentos, o filme utiliza bem esse recurso. A repetição da rotina, os ruídos da natureza e o silêncio prolongado contribuem para a construção de um ambiente que não é necessariamente ameaçador, mas que carrega uma tensão latente. O desconforto surge da ausência, não da presença, e isso é um acerto.
O problema aparece quando o filme passa a depender quase exclusivamente dessa ambientação para sustentar o interesse. Sem um desenvolvimento narrativo que acompanhe a força do cenário, a experiência começa a parecer estática. A floresta continua lá, imponente e silenciosa, mas a história deixa de evoluir na mesma proporção. O que antes criava tensão passa a evidenciar a falta de progressão.
O filme inicia com uma proposta claramente psicológica, sugerindo que o isolamento pode estar afetando a percepção da protagonista. Essa abordagem é eficaz porque cria ambiguidade, permitindo diferentes interpretações para os acontecimentos. O espectador é convidado a questionar o que é real e o que pode ser fruto da mente da personagem.
No entanto, à medida que a narrativa avança, elementos sobrenaturais começam a surgir de maneira mais evidente. O que antes era sugestão passa a ser apresentado de forma mais concreta, reduzindo a ambiguidade inicial. Em seguida, o filme introduz indícios que flertam com a ficção científica, ampliando ainda mais o escopo da história.
Essa multiplicidade de caminhos poderia resultar em uma narrativa complexa, mas aqui gera desorientação. A ausência de um direcionamento claro impede que qualquer uma dessas abordagens seja desenvolvida de forma satisfatória. O filme não aprofunda o psicológico, não estrutura o sobrenatural e não consolida a ficção científica. Tudo permanece em um estado intermediário, o que compromete a coerência da obra como um todo.
Meghan Carrasquillo entrega uma interpretação consistente, especialmente considerando a natureza solitária do papel. Sua atuação transmite desgaste emocional, confusão e uma crescente sensação de paranoia, elementos essenciais para um filme que depende tanto da experiência subjetiva da protagonista.
Há momentos em que a performance consegue elevar cenas que, em termos de roteiro, seriam pouco expressivas. Pequenos gestos, olhares e reações ajudam a construir uma conexão com o espectador, tornando a experiência mais envolvente do que poderia ser.
Ainda assim, existe um limite claro para o quanto uma atuação pode compensar falhas estruturais. Quando os eventos ao redor da personagem carecem de lógica ou desenvolvimento, a performance passa a parecer deslocada, como se estivesse operando em um nível mais consistente do que o restante do filme. Isso cria um desequilíbrio que impede a narrativa de se sustentar plenamente.
Visualmente, o filme demonstra cuidado. A fotografia valoriza o espaço aberto e utiliza o enquadramento para reforçar a sensação de isolamento. A escolha por planos mais longos e silenciosos contribui para a construção de uma atmosfera contemplativa, que inicialmente favorece o suspense.
No entanto, essa estética passa a ser utilizada como substituto para o desenvolvimento narrativo. A repetição de recursos visuais, sem a devida progressão dramática, transforma o que poderia ser uma escolha estilística em uma limitação. O espectador continua sendo exposto ao mesmo tipo de construção visual, mas sem que isso represente avanço na história.
Com o tempo, essa insistência reduz o impacto das imagens. O que antes gerava tensão passa a ser previsível, e a ausência de novos elementos narrativos torna a experiência menos envolvente. A estética permanece competente, mas deixa de ser suficiente.
A partir da metade do filme, a estrutura começa a se desorganizar de maneira mais evidente. Novos elementos são introduzidos sem preparação adequada, enquanto questões levantadas anteriormente deixam de ser exploradas. A narrativa passa a sugerir mais do que desenvolve, criando uma sensação de fragmentação que compromete o envolvimento do espectador.
Essa ruptura não acontece de forma sutil. Existe uma mudança perceptível no ritmo e na lógica interna do filme, como se diferentes ideias estivessem sendo testadas sem uma integração real. O resultado é uma sequência de eventos que parecem desconectados, dificultando a construção de qualquer tipo de tensão consistente.
Nesse ponto, o espectador já não está mais tentando entender a história, mas sim lidar com suas inconsistências. E isso é sempre um sinal de que algo saiu do controle.
O final segue a mesma lógica de indecisão presente ao longo do filme. Não há uma conclusão clara, mas também não existe uma ambiguidade construída com intenção. O desfecho parece mais uma interrupção do que um encerramento, deixando a sensação de que a narrativa não foi totalmente desenvolvida.
Em vez de provocar reflexão, o filme termina sem oferecer elementos suficientes para sustentar interpretações mais profundas. A ausência de resolução não funciona como recurso narrativo, mas como consequência da falta de direcionamento.
Isso reduz significativamente o impacto emocional da história. O espectador não sai com dúvidas instigantes, mas com a percepção de que faltou desenvolvimento para que qualquer conclusão fosse realmente significativa.
Temas como isolamento psicológico, fuga de traumas e o medo do desconhecido estão presentes ao longo do filme, mas não são explorados com a profundidade necessária. Há uma clara intenção de trabalhar essas questões, mas o desenvolvimento superficial impede que elas gerem impacto real.
O isolamento, por exemplo, poderia ser explorado não apenas como condição física, mas como estado mental. No entanto, o filme não se dedica a construir essa camada de forma consistente. Da mesma forma, o passado da protagonista surge como sugestão, mas nunca se transforma em elemento central da narrativa.
Essa abordagem faz com que o filme pareça constantemente inacabado. As ideias existem, mas não são plenamente realizadas, o que contribui para a sensação de potencial desperdiçado.
A resposta depende da expectativa. Para quem aprecia filmes com ritmo mais lento, foco em atmosfera e propostas mais contemplativas, pode haver algum valor na experiência. O cenário, a atuação e a construção inicial oferecem elementos interessantes.
No entanto, para quem busca uma narrativa consistente, com desenvolvimento claro e resolução satisfatória, o filme tende a frustrar. A falta de foco e a indecisão estrutural comprometem o resultado final, tornando a experiência irregular.
Não se trata de uma obra completamente descartável, mas de um exemplo claro de como boas ideias podem se perder quando não são organizadas de forma coerente.
De Olhos Bem Abertos parte de uma premissa eficiente e de um cenário bem explorado, mas se perde ao tentar expandir sua própria proposta sem a estrutura necessária para sustentá-la. A falta de foco narrativo, aliada a uma indecisão de gênero e a um desfecho pouco desenvolvido, transforma uma ideia promissora em uma experiência irregular.
O filme não falha por ausência de conceitos interessantes, mas por não conseguir organizá-los de maneira coesa. No fim, o que permanece não é a tensão ou o impacto, mas a sensação de que havia ali um caminho melhor — um caminho que o próprio filme parece não ter conseguido enxergar.
Assista ao trailer do filme De Olhos Bem Abertos:
Ficha do filme:
Nome: De Olhos Bem Abertos | Lookout | Estados Unidos | 2025
Desenvolvimento: Produção independente desenvolvida pela Jackrabbit Studios, com foco em narrativa de baixo orçamento e ambientação isolada
Direção: Stefan Colson
Roteiro: Brandon Cahela
Elenco: Meghan Carrasquillo, Trent Culkin, Robert Clark, John Marrs, Cara Leoni, Jim Round, Braden McCawley, Ryan Ellerbe
Gênero: Terror, Ficção científica, Suspense
Produção: Jackrabbit Studios
Distribuição: Jackrabbit Media
Duração: aproximadamente 80 minutos
Orçamento estimado: não divulgado
Locações: Buck Mountain, Arizona (EUA)
Direção de arte e figurino: não divulgado
Trilha sonora: não divulgada
Plataforma de exibição: Apple TV / VOD
Fontes e referências: