Existe algo particularmente perturbador em histórias que não parecem perigosas à primeira vista. Filmes sobre serial killers, guerras ou monstros já chegam com um aviso implícito: “isso aqui vai ser tenso”. Mas quando a narrativa começa com algo banal, cotidiano, quase tedioso, o impacto é outro.
Centauro (Kentavr, 2023) constrói sua força exatamente nessa contradição. A ideia de uma corrida de táxi não assusta ninguém. É uma das experiências mais comuns da vida urbana. Só que o filme pega essa rotina e a distorce lentamente, até transformar o espaço mais comum possível em um território de paranoia.
E o pior: faz isso sem pressa, sem exagero e sem te dar respostas confortáveis.
A escolha de ambientar a história quase inteiramente durante a noite não é apenas estética. Existe um motivo muito claro para isso. A madrugada altera a percepção das pessoas. Tudo parece mais lento, mais silencioso, mais incerto.
Sasha, o protagonista vivido por Yura Borisov, trabalha exclusivamente nesse período. Ele não é só um motorista de táxi. Ele é, de certa forma, um observador daquilo que as pessoas escondem durante o dia.
Existe uma fala dele que resume bem essa ideia: à noite, as máscaras caem. E isso não é apresentado como uma metáfora bonita. É quase um aviso.
Ao longo do filme, percebemos que Sasha não apenas transporta passageiros. Ele os analisa, os estuda, tenta entender padrões de comportamento. Isso, por si só, já seria estranho. Mas o roteiro faz questão de não deixar claro até onde vai essa curiosidade.
É só observação? Ou tem algo mais sombrio por trás?
A dinâmica do filme muda quando Sasha encontra Liza. Interpretada por Anastasia Talyzina, ela não é uma personagem ingênua. Liza trabalha como acompanhante de luxo e está acostumada a lidar com situações desconfortáveis, homens imprevisíveis e ambientes potencialmente perigosos.
Ou seja, ela não é facilmente intimidada. E isso torna tudo mais interessante.
Inicialmente, a relação entre os dois é puramente funcional. Ela precisa de um motorista confiável durante a noite. Ele precisa de dinheiro. Um acordo simples, direto, quase mecânico.
Mas essa simplicidade começa a se desfazer em detalhes pequenos. Perguntas que parecem inocentes, mas não são. Respostas que não convencem totalmente. Silêncios que se prolongam além do normal.
O tipo de interação que qualquer pessoa já teve em algum momento da vida… mas que, ali, ganha um peso diferente.
Grande parte do filme acontece dentro do veículo. E isso não é uma limitação, é uma escolha narrativa extremamente consciente.
O carro funciona como um microcosmo. Um espaço fechado onde não há para onde fugir. Liza está literalmente presa naquele ambiente enquanto tenta decidir se deve confiar no homem que está no controle do volante.
Essa dinâmica cria um tipo de tensão muito específico. Não é a tensão do perigo imediato, mas a tensão da dúvida.
O que é mais assustador do que saber que algo ruim vai acontecer? Suspeitar que algo ruim pode acontecer e não ter certeza.
O filme explora isso com uma precisão quase irritante. Cada conversa parece ter duas camadas: o que está sendo dito e o que está sendo escondido.
Um dos maiores méritos do roteiro de Mikhail Zubko é recusar explicações fáceis. Em muitos thrillers, existe um momento em que tudo fica claro. O público descobre quem é o vilão, qual é o plano, qual é a ameaça.
Centauro evita isso deliberadamente.
Existe uma série de crimes acontecendo na cidade. Mulheres estão sendo assassinadas, e os detalhes desses crimes começam a se conectar, de forma sutil, com o comportamento de Sasha.
Ele dirige à noite. Ele conhece bem a cidade. Ele demonstra interesse incomum por suas passageiras. E, talvez mais importante, ele parece confortável demais com situações que deveriam ser desconfortáveis.
Mas o filme nunca confirma nada de forma direta. Ele trabalha com sugestão, com pistas, com interpretações.
E isso coloca o espectador em uma posição desconfortável. Você não está apenas assistindo à história. Está participando dela, tentando montar um quebra-cabeça que talvez nem tenha solução completa.
Existe uma diferença enorme entre susto e tensão. Susto é imediato, rápido, quase instintivo. Tensão é construída, acumulada, persistente.
Centauro escolhe a segunda opção.
O filme não depende de cenas chocantes para funcionar. Ele constrói desconforto através de ritmo, silêncio e repetição. Pequenos elementos vão se acumulando até formar uma sensação constante de alerta.
Você começa a prestar atenção em coisas que normalmente ignoraria: o tempo que um olhar dura, a forma como alguém segura o volante, a maneira como uma pergunta é feita.
Esse tipo de construção exige paciência. Não é um filme que tenta te impressionar a cada cinco minutos. Ele quer te prender aos poucos, quase sem você perceber.
Moscou, no filme, não é apenas cenário. Ela reforça um dos temas centrais da narrativa: o anonimato.
Em uma cidade grande, as pessoas passam umas pelas outras o tempo todo sem realmente se enxergar. Histórias acontecem em paralelo, vidas se cruzam sem deixar marcas.
Esse ambiente favorece tanto a liberdade quanto o perigo.
Para alguém como Sasha, isso significa poder observar sem ser notado. Para alguém como Liza, significa correr riscos sem ter garantias de proteção.
A cidade não interfere. Ela apenas existe, indiferente ao que acontece dentro daquele carro.
Outro ponto interessante é que o filme não tenta tornar seus personagens “agradáveis”. Não existe um esforço para fazer o público gostar de Sasha ou Liza.
Eles são apresentados com falhas, contradições e comportamentos questionáveis. E isso torna tudo mais realista.
Sasha pode parecer educado em um momento e inquietante no seguinte. Liza pode demonstrar confiança e, logo depois, insegurança.
Essa complexidade impede que o espectador se acomode. Você não tem um herói claro para torcer. Tem apenas pessoas tentando lidar com uma situação cada vez mais instável.
As comparações com filmes como Taxi Driver e Drive são inevitáveis. A figura do motorista solitário, a cidade noturna, o foco psicológico… tudo isso já foi explorado antes.
Mas Centauro não tenta imitar diretamente essas obras. Ele pega elementos familiares e os reorganiza de forma mais contida, mais ambígua.
Enquanto outros filmes apostam em explosões emocionais ou visuais, aqui a escolha é pela contenção. Pela dúvida. Pela ausência de respostas definitivas.
Isso pode afastar parte do público, mas também dá ao filme uma identidade própria.
Não dá para ignorar: o ritmo do filme é lento. E isso não é um defeito acidental, é parte da proposta.
O problema é que nem todo mundo tem paciência para esse tipo de narrativa. Vivemos em uma época em que tudo precisa acontecer rápido, de forma clara e direta.
Centauro vai na direção oposta.
Ele exige atenção, interpretação e, principalmente, tolerância ao desconforto. Não é o tipo de filme que você assiste distraído enquanto olha o celular.
Ou você entra na proposta… ou simplesmente não funciona.
A fotografia aposta em contrastes fortes entre luz e sombra, criando uma estética que reforça a ambiguidade dos personagens. Nada é totalmente visível, tudo parece parcialmente oculto.
A trilha sonora é discreta, quase invisível em alguns momentos. Ela não tenta manipular emoções de forma óbvia, mas acompanha o ritmo da narrativa.
A direção de Kirill Kemnits demonstra controle ao evitar excessos. Ele sabe que a força do filme está na sugestão, não na explicação.
No fim das contas, Centauro não é apenas um filme sobre uma corrida de táxi ou sobre um possível assassino. É uma experiência sobre percepção.
Sobre como interpretamos sinais. Sobre como decidimos confiar ou desconfiar. Sobre o medo que surge quando não temos todas as informações.
E talvez esse seja o ponto mais interessante: o filme não te dá respostas completas porque, na vida real, raramente temos respostas completas.
Se você gosta de narrativas diretas, com começo, meio e fim bem definidos, provavelmente vai sair frustrado.
Mas se a ideia é mergulhar em uma história que provoca, incomoda e deixa espaço para interpretação, então Centauro entrega exatamente isso.
Não é um filme fácil. E definitivamente não está interessado em ser.
Assista ao trailer do filme Centauro:
Ficha técnica do filme:
Nome: Centauro | Kentavr | Rússia | 2023
Desenvolvimento: Produção russa com financiamento de estúdios independentes e apoio local
Direção: Kirill Kemnits
Roteiro: Mikhail Zubko
Elenco: Yura Borisov, Anastasia Talyzina, Sergey Gilev, Grigory Vernik
Gênero: Drama, Thriller
Produção: ID Production, Okko Studios, Planeta Inform, Versus Pictures
Distribuição: Cinema Atmosphere
Duração: aproximadamente 101 minutos
Orçamento estimado: cerca de 110 milhões de rublos
Locações: Moscou, Rússia
Direção de arte e figurino: Produção russa contemporânea
Trilha sonora: Darya Charusha
Plataforma de exibição: Okko e cinemas
Fontes e referências: