Há filmes que contam histórias. Bugonia prefere abrir rachaduras.
Dirigido por Yorgos Lanthimos, o longa parte de uma premissa quase cômica — dois homens sequestram uma CEO acreditando que ela é uma alienígena — para construir algo inesperadamente íntimo: um retrato sobre medo, luto e a necessidade humana de criar narrativas quando o mundo deixa de fazer sentido.
Nada aqui é apenas o que parece. O sequestro não é só crime. A conspiração não é só delírio. E o absurdo não é fuga: é linguagem.
No centro estão Teddy (Jesse Plemons) e Donny, dois homens comuns, atravessados por frustrações, vídeos, fóruns e uma sensação constante de deslocamento. Eles acreditam que Michelle Fuller (Emma Stone), poderosa executiva do setor farmacêutico, lidera silenciosamente uma invasão alienígena. Convencidos de que são os únicos capazes de impedir o fim do mundo, a sequestram.
A partir daí, Bugonia se fecha em poucos espaços, poucos corpos e muitas ideias. E é nesse confinamento que o filme revela sua força.
Jesse Plemons constrói Teddy não como vilão, mas como sintoma.
Ele fala baixo, hesita, se contradiz. Seu olhar raramente é firme. Sua paranoia não explode — ela infiltra. O personagem parece sempre à beira de um pedido de desculpas que nunca chega. Aos poucos, entendemos que o que o move não é ódio, mas algo mais opaco: uma perda mal digerida, uma dor sem vocabulário, um ressentimento que encontrou nas teorias conspiratórias uma forma de se organizar.
Teddy não quer dominar o mundo. Quer que o mundo faça sentido.
Emma Stone evita o lugar confortável da vítima. Sua Michelle é ferida, mas não frágil; encurralada, mas nunca pequena. Mesmo presa, ela negocia território. Cada fala parece uma tentativa de romper o papel que lhe foi imposto. Em vez de implorar, provoca. Em vez de explicar, devolve perguntas.
O embate entre os dois nunca é simples. Ele a acusa. Ela o desestabiliza. Ele se agarra a certezas. Ela insiste na ambiguidade. E é nesse jogo que Bugonia abandona o suspense tradicional para se tornar algo mais inquietante: um duelo de narrativas.
Donny, menos radical, funciona como zona cinzenta. Ele não lidera nem rompe. Observa. Duvida. Recuar parece sempre mais difícil do que avançar. Sua presença lembra o espectador de que ideias extremas não se espalham apenas por fanáticos, mas por pessoas confusas, carentes, à procura de pertencimento.
Bugonia não é baseado em um fato real específico. Ainda assim, poucos filmes soam tão contemporâneos.
A história ecoa um mundo saturado por desinformação, desconfiança institucional, discursos anti-científicos e guerras narrativas. Teddy constrói sua visão de mundo como muita gente hoje constrói a própria: por fragmentos. Vídeos. Recortes. Comunidades digitais que funcionam menos como espaço de debate e mais como câmaras de confirmação.
Nada precisa ser provado. Basta fazer sentido emocional.
Nesse contexto, Michelle não é apenas uma pessoa. Ela é um símbolo. E símbolos não precisam ser justos — só úteis.
O filme não sugere que teorias conspiratórias nascem da ignorância, mas da frustração. De um sentimento difuso de exclusão. De uma percepção de que forças invisíveis comandam destinos visíveis. O erro não está apenas na conclusão. Está na fome de explicação.
Por trás da convicção de Teddy há um buraco.
O filme sugere uma perda ligada à doença, à mãe, à indústria farmacêutica — mas nunca transforma isso em discurso. O luto em Bugonia não aparece em cenas de choro. Ele surge como irritação. Como rigidez. Como necessidade de encontrar um culpado.
Aqui, a dor não se manifesta como tristeza, mas como arquitetura mental.
Lanthimos evita o melodrama e aposta no que poderíamos chamar de uma estética do desarranjo. Emoções tortas. Reações deslocadas. Silêncios mais eloquentes que confissões. Como na vida real, quase nada se organiza de forma limpa.
O resultado é um retrato desconfortavelmente reconhecível: quando a perda não encontra linguagem, ela procura ideologia.
Se existe uma jornada em Bugonia, ela não leva à luz — leva ao estreitamento.
Teddy acredita viver uma missão. Ele tem um chamado. Um inimigo. Um propósito. Mas cada passo que dá não o aproxima da verdade. O isola. Seu arco não é de superação, mas de consolidação. Ele não muda: se cristaliza.
O filme desmonta, com delicadeza cruel, a fantasia moderna do protagonista redentor. Aqui, acreditar demais no próprio papel é justamente o perigo. Não há iluminação. Há aprisionamento.
O herói de Bugonia não atravessa o mundo. Ele constrói uma cela.
Michelle é sequestrada não apenas por ser poderosa, mas por ser uma mulher poderosa.
Seu corpo é examinado. Sua fala é desacreditada. Sua autoridade é reinterpretada como ameaça. Em muitos momentos, ela não é tratada como pessoa, mas como enigma. Objeto. Prova.
O filme toca num nervo contemporâneo: mulheres em posições de poder raramente são vistas como indivíduos. Tornam-se símbolos. Salvadoras. Bruxas. Monstros. Nunca apenas humanas.
Michelle rompe estruturas patriarcais ao ocupar o topo, mas passa a ser lida através da mesma lógica violenta que historicamente controla corpos femininos. Teddy não quer ouvi-la. Quer decifrá-la.
Nesse jogo, Bugonia sugere que o feminismo não se manifesta apenas no discurso, mas na recusa de narrativas que transformam mulheres em abstrações.
Talvez o gesto mais radical do filme seja recusar a empatia fácil.
Michelle não é idealizada. Teddy não é reduzido a caricatura. O espectador se vê, em vários momentos, oscilando entre aproximação e rejeição. Entender não significa concordar. Reconhecer humanidade não implica absolver.
O filme constrói um território instável, onde a empatia não vem como prêmio moral, mas como desconforto. E é exatamente aí que ele se aproxima da vida real.
Em Bugonia, tudo gira em torno de identidade.
Teddy não sabe mais quem é. Então passa a ser “aquele que sabe”. A conspiração vira abrigo emocional. A paranoia vira comunidade. A violência vira propósito.
Nesse universo, cultura se confunde com propaganda, ética se dissolve em convicção pessoal e o livre-arbítrio se torna desculpa. Religião, ciência, política e autoajuda aparecem misturadas em um discurso típico do nosso tempo: fragmentado, emocional, impermeável.
Mais do que acreditar em algo, os personagens precisam pertencer a algo.
E onde há pertencimento, há exclusão.
Se existe um vilão em Bugonia, ele não tem rosto. Chama-se desinformação.
Teddy constrói sua realidade a partir de conteúdos soltos, encaixados para confirmar sensações. Michelle luta não só para escapar fisicamente, mas para existir fora de uma narrativa fechada, onde qualquer defesa se transforma em prova de culpa.
Não é apenas um sequestro. É um sistema.
O filme descreve com precisão o funcionamento das bolhas contemporâneas: espaços onde a verdade não é algo a ser buscado, mas protegido.
Visualmente, Bugonia é contido e sufocante.
Os espaços são geométricos, quase clínicos. Porões, corredores, salas corporativas. Ambientes que parecem menos lugares e mais estados mentais. A paleta fria esvazia qualquer sensação de acolhimento. A câmera observa, raramente consola.
O figurino reforça esse jogo de poder e vulnerabilidade, especialmente no corpo de Michelle, progressivamente esvaziado de símbolos de status. A trilha sonora aparece pouco. O silêncio pesa. Cada ruído parece deslocado.
É um filme que não empurra emoção. Ele constrói um espaço onde ela incomoda.
A tabela abaixo reúne filmes que conversam diretamente com Bugonia — seja pelo clima de suspense psicológico, pelo uso do absurdo, pela crítica social ou por personagens em ruptura com a realidade. É um guia para quem gostou do filme e quer descobrir outras histórias impactantes, provocadoras e inquietantes, que exploram paranoia, identidade e os limites da verdade no cinema.
Desde sua estreia em grandes festivais, Bugonia chamou atenção pela reunião de Lanthimos com Emma Stone e pela atuação de Jesse Plemons. A recepção destacou especialmente o comentário social, o tom provocador e a forma como o filme dialoga com temas urgentes do presente, figurando em listas de melhores do ano e premiações ligadas à crítica.
No fim, Bugonia não fala sobre extraterrestres.
Fala sobre o que acontece quando o mundo deixa de fazer sentido. Quando a dor não encontra linguagem. Quando a realidade se torna grande demais para caber dentro da vida de alguém.
A conspiração vira abrigo.
A certeza vira vício.
O inimigo vira consolo.
Yorgos Lanthimos constrói um filme que não pede concordância — pede atenção. Porque talvez o mais perturbador em Bugonia não seja o que ele imagina, mas o quanto ele reconhece.
E, quando as luzes se acendem, a pergunta que fica não é “isso poderia acontecer?”.
É outra, mais incômoda: "em que medida isso já está acontecendo?".
Assista ao trailer do filme Bugonia: