Há filmes que nos ensinam a olhar de frente para o sofrimento, e há outros que nos convidam a rir dele — não como negação do drama, mas como modo de registro da sua realidade mais incômoda. A Rainha da Comédia (Comedy Queen, 2022) é um desses casos raros em que a comédia não serve à leveza, mas à epicidade emocional de sua protagonista, Sasha — uma menina sueca de 13 anos que, recém-enlutada pela morte da mãe, decide transformar o palco do stand-up em seu território de cura e definição de identidade.
Assinado pela diretora Sanna Lenken, o filme adapta o romance homônimo de Jenny Jägerfeld com uma sensibilidade que mistura a frescura juvenil com a dureza da perda, investindo em uma tessitura narrativa que oscila entre a ternura e o desconforto proposital. A sua estreia no 72ª Festival de Berlim, onde ganhou o Crystal Bear na seção Generation Kplus, evidencia a receptividade crítica a esta proposta rara no cinema contemporâneo — sensível e sem concessões fáceis.
No centro do filme está Sasha (interpretada magistralmente por Sigrid Johnson), cuja interpretação venceu o Guldbagge Award de Melhor Atriz — prêmio que reconhece a intensidade com que transparece a complexidade de sua dor e ambição.
Sasha não é a caricatura de uma tristeza infantil, tampouco um modelo de resiliência ingénua. Ela se recusa a chorar, devise uma lista pessoal de imposições — cortar o cabelo, abandonar livros, evitar laços afetivos que possam doer, e, acima de tudo, fazer rir — como se o próprio riso fosse antídoto e armadura ao mesmo tempo. Esse gesto, aparentemente caprichoso, revela um processo de recodificação do luto: rir não para esquecer, mas para nomear o que não pode mais ser dito em lágrimas.
Ao seu redor, figuras como o pai, mergulhado em depressão, e amigos como Abbe e Märta não existirem apenas como suporte narrativo — eles impõem à Sasha — e ao espectador — a questão da empatia: como amar alguém que se desgasta no silêncio? O filme cria, nessa dinâmica, uma teia de relações onde a dor não é solitária, mas compartilhada e fragmentada.
Embora Comedy Queen não seja um relato factual, sua trama ecoa acontecimentos socioemocionais bastante contemporâneos: a discussão crescente sobre saúde mental entre adolescentes; a visibilidade de depressão parental e a pandemia que intensificou fragilidades psíquicas em famílias; e a emergência de discursos que pretendem reconfigurar o luto como experiência coletiva. Embora situada em um contexto sueco, a escolha de Sasha em canalizar sua dor através da comédia ressoa com uma geração que publica memes para sobreviver ao caos — síntese perfeita de um tempo em que rir ainda pode ser uma forma de resistência.
No cerne da narrativa está o tema do luto, não como metáfora, mas como condição existencial que exige trabalho. O filme descreve a perda da mãe não como ausência silenciosa, mas como presença traumática que molda a paisagem psicológica de Sasha. Cada tentativa dela de “não sentir” se revela uma maneira de sentir ainda mais intensamente: o corte de cabelo é, em última análise, um rito de passagem — um ritual de separação e reinvenção.
O luto aqui não é purgado; é trabalhado — ciente de que não desaparece, mas é transmutado. É no palco, diante de piadas falhas e risos improvisados, que Sasha encontra uma forma de olhar a própria história sem desabar.
A estrutura narrativa de Comedy Queen se alinha iminentemente com a jornada do herói: Sasha parte de um mundo familiar fragmentado, cruza o limiar da dor, enfrenta desafios internos e externos — a pressão dos pares, a incompreensão dos adultos, a própria fragilidade — e retorna, não triunfante como em contos de fadas, mas transformada. Sua aranha de pequenas derrotas e vitórias forma o arco de uma heroína que aprende que coragem não é ausência de tristeza, mas a capacidade de continuar buscando sentido em meio ao caos.
Um dos aspectos mais tocantes na tessitura de Lenken é a representação da empatia não como gesto extraordinário, mas como tecido cotidiano das relações humanas. Amigos, familiares e até estranhos convergem para demonstrar que a dor de um é, em certo grau, espelho da dor do outro. Essa rede emocional constrói uma comunidade imperfeita, vulnerável e, por isso mesmo, profundamente humana — lembrando que, em um mundo de individualismo exacerbado, a cura muitas vezes é um processo coletivo.
A Rainha da Comédia articula sua dimensão filosófica não por meio de discursos, mas através da própria forma. O humor surge como prática cultural e linguagem simbólica capaz de traduzir aquilo que a dor não consegue nomear. O palco, a escola e a família funcionam como espaços de mediação onde o sofrimento se torna visível, partilhável e, em alguma medida, transformável. O riso não opera como fuga, mas como tecnologia emocional: uma maneira socialmente construída de reorganizar o caos interno.
No centro desse movimento está a questão do pertencimento. Sasha não busca apenas fazer rir — ela tenta reinscrever-se no mundo após a fratura da perda. Sua jornada é a construção de uma identidade instável, forjada na experimentação, na recusa e na reconstrução. O filme aposta em uma protagonista que escapa aos modelos convencionais de feminilidade e infância, afirmando uma subjetividade feminina atravessada por fricção, autonomia e ambivalência. Há aqui um feminismo discreto, mas decisivo: o direito de uma menina ser difícil, contraditória e inacabada.
Ao tensionar continuamente o desejo de isolamento com a necessidade do outro, o filme propõe uma ética do vínculo. O luto se apresenta como experiência coletiva, atravessada por heranças emocionais, silêncios intergeracionais e tentativas imperfeitas de cuidado. As escolhas de Sasha — aparentemente livres — revelam dilemas morais profundos: até onde a autoproteção não se converte em negação da vida? Nesse território de desconforto, onde não há transcendência nem consolo metafísico, A Rainha da Comédia sugere que rir é menos um gesto de alegria do que um ato de reconstrução.
A produção do filme exibe um rigor artesanal: a cinematografia de Simon Pramsten usa a luz natural e planos intimistas para capturar a fronteira entre o riso e a dor, enquanto o design de figurino de Emelie Henriksson espelha a transformação psicológica de Sasha em cada escolha de textura e cor.
Ligações geográficas e sociais privilegiadas — desde bairros aparentemente banais até palcos improvisados — sublinham a universalidade da experiência sem exotizar o particularismo sueco. Os efeitos especiais, mínimos e sempre a serviço da narrativa, não competem com o vigor emocional das cenas, lembrando que a economia estética muitas vezes traduz maior intensidade dramática.
A timeline a seguir não propõe uma genealogia rígida, mas um campo de ressonâncias. Ela reúne filmes que, em épocas e contextos distintos, exploraram a comédia, a performance ou o humor como dispositivos narrativos para atravessar crises existenciais, perdas, deslocamentos e reconstruções subjetivas. São obras que, assim como A Rainha da Comédia, compreendem o riso não como ornamento, mas como linguagem — uma forma cultural de enfrentamento do trauma, de negociação da identidade e de elaboração do pertencimento. A linha do tempo sugere, portanto, menos uma evolução temática do que uma constelação: pontos dispersos no cinema que, vistos em conjunto, revelam como o humor pode ser uma das expressões mais sérias da experiência humana.
O filme foi amplamente reconhecido especialmente em circuitos internacionais: além do Crystal Bear no Festival de Berlim, recebeu múltiplas indicações ao Guldbagge Awards de 2023, vencendo na categoria principal de atuação feminina e sendo lembrado em categorias como direção, cinematografia e música original — um testemunho de sua força narrativa e técnica.
A Rainha da Comedia é uma obra que resiste a rótulos fáceis. Não é comédia, tampouco puro drama — é uma janela aberta para a complexidade do ser que ri mesmo quando tudo parece exigir choro. Sasha não nos mostra um caminho trivial, mas nos presenteia uma filosofia de vida: a alegria não é ausência de dor, mas a audácia de afirmar que, mesmo na menor das gargalhadas, há matéria suficiente para nos reconhecer.
Este é um filme que não apenas se assiste — se sente, se questiona e, quiçá, se leva para a vida.
Assista ao trailer do filme A Rainha da Comédia: