Quando as luzes descem e a tela acende, A Empregada (The Housemaid, 2025) parece, à primeira vista, mais um thriller de final de ano pronto para preencher sessões de multiplex. E ainda assim — talvez por isso mesmo — o filme nos captura, como um olhar que começa num corredor limpo e termina em corredores de espelhos. Dirigido por Paul Feig e baseado no best-seller de Freida McFadden, o longa reúne Sydney Sweeney e Amanda Seyfried num duelo de tensões palacianas que relembra tanto o noir dos anos 1990 quanto o caldo grosso de nossas ansiedades contemporâneas.
Esse thriller de manipulação social e doméstica não apenas entretém: ele expõe fissuras nas nossas noções de poder e vulnerabilidade, espelhando temas perturbadores que ressoam para além da ficção.
#Millie: o espelho quebrado da sociedade
Millie Calloway — interpretada por Sydney Sweeney — entra na história com a força quase ritual de quem precisa desesperadamente de um recomeço. Ex-presidiária, com um passado que a persegue e a condição de empregada como aposta final para sua reintegração, ela se transforma, ao longo da narrativa, de vítima à protagonista ativa de sua própria jornada. Essa jornada segue uma versão distorcida da *jornada do herói*: não se trata de um cavaleiro saindo para resgatar um reino, mas de alguém que precisa primeiro resgatar a si mesma de um sistema que insiste em colocá-la como serviço, subserviência e objeto de desejo.
Millie caminha por salas vastas e corredores silenciosos — metáforas visuais para as lacunas de classe e poder que definem sua condição. Ela não se liberta por um único ato heroico, mas por uma sequência conturbada de confrontos — internos e externos — que a forçam a encarar, por fim, sua própria agência e, paradoxalmente, sua própria violência.
#Nina Winchester: hospedeira, manipuladora, espelho da classe dominante
Amanda Seyfried, em sua performance mais inquietante dos últimos anos, confere a Nina uma mistura tóxica de charme e instabilidade. Nina não é apenas a patroa; ela é a personificação de uma elite que acredita que o “perfeito” — casa branca, família feliz, narrativa imaculada — é um direito adquirido. E quando o real ameaça sua fachada, ela manipula, engana e domina.
A relação entre Nina e Millie atravessa todo o filme como um jogo de espelhos: ali, mais que inveja ou disputa pessoal, há uma luta simbólica entre duas mulheres moldadas por sistemas opostos — a que foi excluída e a que foi mimada pelo privilégio.
#Andrew e Enzo: tensão entre poder e sedução
Brandon Sklenar (Andrew) e Michele Morrone (Enzo) oferecem contrapontos à dicotomia central. Andrew personifica a maleabilidade tóxica de um homem na encruzilhada entre desejo e dominação. Enzo, por sua vez, com sua presença ambígua, sugere a possibilidade — ainda que frágil — de um outro tipo de masculinidade: um aliado que reconhece a violência e, mesmo assim, luta ao lado de quem é marginalizado.
#Violência doméstica, abuso psicológico e o gás invisível do gaslighting
O filme não apenas dramatiza conflitos pessoais; ele nos força a encarar a violência doméstica em sua forma mais insidiosa: a manipulação de percepções e realidades, conhecida como gaslighting. Esse termo — que descreve quando uma vítima é levada a duvidar de sua própria sanidade — é um motor central da dinâmica entre Millie e Nina. O gaslighting, aqui, não é só psicológico; é político e social: uma poderosa arma de quem tem privilégios e quer manter o status quo.
No Brasil, os números de violência contra mulheres são alarmantes — com cerca de 1.518 feminicídios registrados em 2025, uma média de quase quatro mulheres assassinadas por razões de gênero por dia — um espelho brutal da realidade que transcende a ficção.
Essa violência, no mundo real, é um hálito tóxico que impregna lares e comunidades e que o filme dramatiza em suas tensões psicológicas intensas. O que vemos na tela é também um eco da cultura que tolera ou naturaliza a agressão e a desigualdade.
#Classe, poder e o limite da empatia
Ao submeter Millie às dinâmicas da casa Winchester, A Empregada revela como as disparidades de classe moldam relações humanas: não apenas no acesso a recursos, mas na legitimidade de falar, de sentir e de existir. A casa rica e impecável torna-se um palco de espetáculo onde as regras morais da sociedade são erodidas à medida que o poder da imagem supera o poder da verdade.
#Direção e escolhas estéticas
Paul Feig, conhecido por comédias como Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011), abraça um território mais sombrio, deslocando-se para um thriller que literalmente joga com nossas expectativas. A direção alterna planos amplos de luxo opressor com closes que expõem o desconforto de intimidade coercitiva — um contraste visual que reforça a sensação de vigilância constante em que as personagens vivem.
#Fotografia e produção
A fotografia alterna luz natural com tons frios e estéreis, promovendo uma sensação de alienação. As locações em mansões do alto padrão social — onde cada cômodo impecavelmente decorado torna-se um labirinto psicológico — servem como metáforas para a prisão invisível em que Millie e Nina estão enclausuradas.
#Figurino e simbolismos
As escolhas de figurino não são superficiais: Millie mantém um guarda-roupa que evolui de roupas utilitárias para trajes mais ousados conforme a narrativa progride, sugerindo transformações, concessões e conflitos internos. Nina, por sua vez, veste o controle — roupas que parecem armaduras sociais, símbolos de uma pessoa que se protege com perfeição e frieza estética.
A Empregada não nasceu num vácuo. Ele flerta com a herança de thrillers como Gone Girl e clássicos de manipulação doméstica e social (À Meia-Luz 'Gaslight, 1944' e Instinto Selvagem 'Basic Instinct, 1992'). Mas também encontra paralelo em como obras contemporâneas tratam a violência de gênero não apenas como enredo, mas como crise social — à medida que narrativas contemporâneas buscam não apenas suspender, mas confrontar a audiência com suas próprias complacências.
No fim, A Empregada funciona como um espelho distorcido: enquanto entretém, força uma reflexão — às vezes desconfortavelmente próxima de casa. Ele nos lembra que abuso de poder e violência não são apenas elementos de uma história policial; são sistemas que operam em todos os níveis da sociedade.
A obra pode ser vista como um thriller “de catálogo”, mas sua potência crítica reside justamente aí: na maneira como o familiar revela o monstruoso sob a superfície polida. Talvez a maior astúcia do filme seja exatamente essa — nos fazer olhar para dentro, desconfortavelmente, enquanto pensamos que estamos apenas assistindo a um suspense.
Assista ao trailer do filme A Empregada (2025):